Lixo extraordinário

Arte.

Nossa avaliação

[xrr rating=4/5]

Arte.

Logo no início (a parte menos interessante) de “Lixo extraordinário”, Vik Muniz diz que o que mais o incomoda no Brasil é “a classe rica, educada, se achar melhor que os outros [os pobres]”. É uma colocação que soa superficial e meio estúpida, já que esse não é um defeito exclusivo do país, nem é de longe seu maior problema. E especialmente porque algumas falas do artista sobre o projeto que pretende desenvolver e sua atitude inicial, “evangelizadora” e paternalista, com os personagens que vai retratar reflete essa mesma arrogância – algo que ele próprio admite mais tarde.

É quando os pré-conceitos de Muniz começam a ser desmontados com a chegada ao Jardim Gramacho no Rio de Janeiro, o maior aterro sanitário do mundo, que o documentário de Lucy Walker ganha vida. E vida aqui é o conceito central. A capacidade dos catadores de material reciclável de sobreviverem e construírem uma narrativa própria alicerçada naquele lugar, mesmo que toda a sociedade ao redor se recuse a chamar aquilo de “vida”.

Vida.

Walker e seu filme dão nova dimensão e profundidade à velha discussão “o que é mais importante: arte ou vida?”, quando a história e as falas dos catadores se tornam muito mais interessantes que as intervenções e os depoimentos (nada especiais) do artista sobre seu processo. Seja Ísis atuando para a câmera, Magna e a Irmã se afirmando diante dela, Tião citando Maquiavel, ou Suelen nos dando um nó na garganta, essas pessoas descobriram alguma forma de fazer de sua vida uma obra de arte maior do que qualquer gênio seria capaz de imaginar.

Mas eis a subversão. É só ao receberem de Muniz a chance de participarem do processo artístico que eles enxergam isso. É ao olharem pela primeira vez para seus rostos transformados em arte que se dão conta da própria dignidade. Mesmo com a indignidade do que fazem (já que, apesar de o Brasil ter produzido 57 milhões de toneladas de lixo em 2009 e apenas 57% ter sido corretamente tratado, nós nos recusamos a reconhecer a devida importância dessas pessoas), eles ficam sem palavras diante da dignidade de quem são.

Cinema.

E é aí que “Lixo extraordinário” se torna mais que uma mera desmistificação do processo artístico, mas uma busca quase metafísica pela sua origem. Onde começa a obra: na vida dessas pessoas que a inspiraram, ou na ideia do artista e na sua precisão em executá-la? Walker e o diretor de fotografia Dudu Miranda retratam essa dicotomia se utilizando do contraste claro/escuro das obras do próprio Muniz, que por sua vez vêm desde Caravaggio e passam pela dialética aplicada ao cinema de Eisenstein, com o conflito de volumes aqui representando o próprio embate Arte X Vida.

No fim, a genialidade de Muniz acaba se manifestando em uma ideia surgida do conflito interno sobre sua responsabilidade para com aquelas pessoas. A arte não precisa mudar o mundo. Ela serve, sim, para não nos deixar nunca esquecer da beleza. Nossa. E da Vida. Isso resulta em um ato final apoteótico. E em uma última frase sublime, que vai te deixar com um sorriso e encher seus olhos de lágrimas, igual à desse filme aqui.


2 respostas para “Lixo extraordinário”

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