Não Me Abandone Jamais

Nossa avaliação

[xrr rating=4/5]

Em um mundo perfeito, você entraria no cinema sem saber nada sobre “Não Me Abandone Jamais”. Mas como o próprio filme faz questão de mostrar, mundo perfeito é algo que não existe, e tanto esta resenha como o próprio trailer aí embaixo entregam muito mais do que você deveria saber. Então, se confia na gente, pare de ler agora e vá ver o filme. Depois volta aqui para terminar sua leitura.

Mas pode ser que você não tenha o mínimo interesse neste filme e precisa de algum incentivo para assisti-lo. Neste caso, a resenha pode ser útil, apesar de contar um pouco da história que merece ser descoberta toda na tela.

O grande salto da ciência se deu em 1952. Em 1967, a expectativa de vida já ultrapassava os 100 anos.  Os letreiros iniciais de “Não Me Abandone Jamais” dão a dica: estamos vendo uma espécie de realidade paralela. O filme é uma ficção científica.

Mas não espere uma ambientação futurista. Tudo começa na Inglaterra no final dos anos 70, quando somos apresentados às crianças Ruth, Kathy e Tommy. Vivendo em um internato conservador com outros jovens, os três estabelecem um triângulo amoroso desde cedo. Eles praticam esportes, aprendem a como se portar em um café, fazem aula de arte e conhecem uma nova professora –  em uma estrutura narrativa que parece seguir os passos de dramas como “Sociedade dos Poetas Mortos”, que discutem a descoberta da alegria de viver.

Mas então a tal professora faz a grande revelação do filme – e eu acho sinceramente que você deva parar de ler por aqui: aquelas crianças estão todas ali reunidas por um único motivo. Doar seus órgãos quando atingirem a vida adulta.

De repente, toda sua relação com o filme muda e se torna claro que “Não Me Abandone Jamais” não é sobre a alegria de viver, mas sobre a aceitação de morrer. E todos nós iremos um dia morrer, assim como os personagens do filme. Mas a situação colocada pela história narrada no livro de Kazuo Ishiguro nos coloca face a face com a inescapável finitude da vida.

Trata-se de um filme sobre a nossa natureza incompleta.  E sobre aquilo que nos faz humanos. Precisamos dos outros para nos sentirmos inteiros, seja dos amigos, dos amores ou, mais objetivamente, dos órgãos doados. E esse sentimento do incompleto é registrado pela câmera do diretor Mark Romanek, atenta a cada detalhe que represente o interromper da vida: dos bonecos faltando pedaços até o jogo não finalizado na casa da diretora. Mas não há representação visual melhor de uma vida que acaba antes de chegar naturalmente ao fim do que a imagem do barco encalhado na areia, impedido de chegar ao seu destino.

Romanek filma tudo com calma, valorizando ao máximo o tempo escasso que seus personagens possuem. Intercalando super closes nos rostos de seus atores com planos completamente abertos, ele parece querer que nos sintamos próximos daquelas pessoas e nos importemos com elas, ao mesmo tempo em que tenhamos consciência de sua solidão. Afinal, vivemos em comunidade, mas morremos sozinhos.

Interpretando os protagonistas adultos, Carey Mulligan, Keira Knightley e Andrew Garfield estão muito bem. Mas o destaque é Mulligan, que entrega toda a mensagem de incompletude do filme com apenas seus tristes olhares. “Não Me Abandone Jamais” peca por abusar do off, mas é uma experiência devastadora, triste, delicada, filosófica. E belíssima.

4 Comentários

  • Guerrinha
    Em 18 de março de 2011 19:05 0Likes

    Achei o filme lindasso e o off não chegou a me incomodar. Lembrei de Blade Runner, especialmente da cena final do Rutger Hauer no topo do edifício, na chuva, se despedindo da vida que foi programada pra ele.

  • Renné França
    Em 18 de março de 2011 19:15 0Likes

    Guerrinha, também lembrei muito da cena do Rutger Hauer! É tipo um Blade Runner visto pelos olhos dos replicantes…

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