A A
RSS

Alfa e Ômega: observações e comparações entre “A árvore da vida” e “Melancolia”

por

12 de agosto de 2011

Cinema, Overdose

De onde viemos? Para onde vamos? Perguntas tão clichês quanto atemporais que nunca deixarão de nos assombrar. É quase inevitável que, em algum momento da vida, nos questionemos por que estamos aqui, qual o motivo, a lógica. É tudo um grande carrossel aleatório da natureza? Ou Deus realmente existe?

Mais uma prova disso é o lançamento, num espaço de poucos dias, de “Melancolia” e “A árvore da vida” – dois filmes que, abordando lados opostos do espectro, lidam com essa aflição existencial de formas bem específicas. A dobradinha compartilha bem mais que a proximidade de datas, a presença aclamada no último Festival de Cannes e dois diretores de peso – Lars Von Trier e Terrence Malick. Os dois longas estão preocupados com algo que extrapola as quatro linhas da tela do cinema.

O texto aí embaixo é uma breve digressão sobre alguns desses paralelos, que não pretende ser definitivo nem de longe esgotar o assunto. São reflexões em aberto, que eu convido você a completar, ou questionar – desde que concordemos todos que nunca chegaremos à resposta absoluta. [ATENÇÃO: o texto contém SPOILERS para quem não viu os filmes].

 

O início x o fim

“A árvore da vida” é um filme sobre criação, uma busca obsessiva pelas origens do que nós nos tornamos, enquanto “Melancolia” é uma obra sobre o que somos frente à inevitabilidade do fim. O primeiro é um ensaio sobre o “criar” em seu sentido mais amplo. O segundo quer desvendar se, diante da destruição, existe algum sentido em tudo que fizemos.

No princípio, era isso aí.
No princípio, era isso aí.

Terrence Malick volta até os coacervados na tentativa de encontrar o momento em que deixamos de simplesmente existir para, conscientemente, SER. Quando foi que o processo deixou de ser aleatório e a existência na Terra passou a ser responsável pelo seu próprio avanço? Foi tudo puro acaso, ciência natural, ou havia um Deus presente? E se tudo é mesmo resultado de um grande acidente, como o amor, sentimentos, relações e regras surgiram em meio ao caos?

Há uma cena belíssima no longa em que um dinossauro encontra outro ferido às margens de um rio. E Malick demonstra seu traço mais característico, ao permanecer um bom tempo com sua câmera na troca de olhares entre os dois. Por um momento, o espectador jura testemunhar compaixão ali e é como se naquele instante surgisse algo inédito: uma relação, uma conexão que não existia antes e vai mudar a história para sempre. Mais tarde, isso se desenvolverá num senso de família e comunidade, muito importante para a narrativa do diretor.

This is NOT Jurassic Park.
This is NOT Jurassic Park.

Von Trier, por outro lado, coloca seus personagens frente ao abismo, como forma de revelar o que somos quando nossas seguranças inventadas se mostram inúteis. O que é realmente o ser humano quando ciência, tecnologia, rituais, religião e ostentação não valem mais nada? Os protagonistas de Malick parecem incomodados com a incerteza e a imperfeição de um princípio, um Deus guiador. Já os de Von Trier, massacrados pelo poder irrefutável da natureza, são obrigados a olhar para dentro de si mesmos e encarar o que resta de seus espíritos depois de tudo em que eles se apoiavam cair por terra. Justine e Claire são o retrato de nossos âmagos e nossos medos mais primais, sem filtros ou maquiagem, diante do fim.

 

Criador x Criatura

Esse é, na minha opinião, o conflito central de “A árvore da vida”. Jack, o garotinho, ressente o pai ao descobrir que ele não corresponde à perfeição que exige dos filhos. A fala “pede que não coloquemos os cotovelos na mesa, mas ele coloca” é tão simples quanto genial. Já o pai, Mr. O’Brien, tenta ao máximo aplicar e seguir regras, afirmar sua moral e seus princípios, controlar a família, estabelecer e impor a ordem. Ele vai à igreja e segue os passos do homem fiel, rezando antes das refeições. Mas Deus não olha pra ele quando a fábrica fecha e o personagem é demitido. Se é que Deus está lá.

Tem alguém aí?
Tem alguém aí?

Terrence Malick usa esses pequenos desastres domésticos para refletir sobre essa frustração paradoxal que é a imperfeição de Deus, ou a imperfeição da criação. O diretor confronta seu próprio poder como criador, capaz de fazer arte que supere a vida (a fotografia de Emmanuel Lubezki), que talvez seja mais bela que ela (a trilha de Alexandre Desplat), mas sem jamais conseguir compreendê-la totalmente. Sem nunca redimir ou corrigir essa imperfeição e, dessa forma, reproduzindo-a – talvez assim, estando em paz com ela.

 

Natureza X Deus

Já “Melancolia” ignora a presença de Deus como um Pai Misericordioso ou um refúgio na tormenta. (Repare que nem a cerimônia de casamento, possivelmente religiosa, o diretor mostra). A Natureza é a força máxima e o homem, sua cria, não tem poder diante dela – o cavalo não atravessa a ponte e não há nada que possa ser feito. Tecnologia e ciência são inúteis. Rituais, como o matrimônio, são patéticos. Nenhuma in(con)venção humana sai ilesa do fatalismo descrente de Von Trier.

Kirsten Dunst vai para o matinho.
Kirsten Dunst vai para o matinho.

A oposição homem/ciência X natureza/orgânico fica bem clara no contraste entre o ambiente opressor da mansão e o aspecto “convidativo” da floresta. Mesmo a iluminação do casamento é um tanto gótica e mórbida. Infeliz, Justine precisa sair da casa e se deitar nua no rio, restabelecer contato com esse “eu natural”. O homem deixou de ter sentido ao se afastar de sua “mãe-terra” e ela parece achar necessário, então, uma espécie de “reset”.

 

Família X Indivíduo

Com algumas raras intromissões, ambos os filmes são centrados em um núcleo familiar específico e fechado. E interessante notar que, por mais que os personagens de Kiefer Sutherland (em “Melancolia”) e Jessica Chastain (em “Árvore da vida”) tenham destaque, o filme que trata da criação é centrado na relação de dois homens, e aquele que retrata a destruição no laço entre duas mulheres.

Jack e Justine são os filhos que, por vias e motivos diferentes, descobrem que nada do que lhes foi dito faz sentido e passam a dirigir um olhar analítico e cínico para o universo ao seu redor. Já Claire e Mr. O’Brien são verdadeiros totens da instituição e da família, tentando manter os valores que fundaram suas  “Casas”, mesmo quando eles podem não mais se sustentar.

O olhar, no canto à esquerda.
O olhar, no canto à esquerda.

Ao saírem para o mundo, Jack e Justine cometem erros, experimentam, desafiam, questionam. Tornam-se indivíduos que aprendem a “funcionar” independentes das regras que lhes foram impostas. Ela transa com um estranho no dia do casamento (que não se consuma) e ataca a hipocrisia do chefe, pedindo demissão. Ele atira no dedo do irmão e menciona um desentendimento com o pai, já adulto, ao telefone.

Mas em momentos cruciais das tramas, é ao núcleo familiar que eles recorrem. ATENÇÃO: SPOILERS A SEGUIR

Clique pra ver o resto (contém spoilers) »

No portal que o Jack adulto atravessa, numa espécie de futuro arcaico, é a família que ele busca reencontrar. E minutos antes do choque do Melancolia com a Terra, Justine dá as mãos para Claire e o sobrinho, parecendo pela primeira vez se conectar realmente com alguém.

Brincando de casinha.
Brincando de casinha.

Os dois finais ressoam essa espécie de nostalgia por uma essência primal, algo anterior à instituição, às regras e às convenções. Um princípio de onde a ideia de família (ou comunidade) germinou, pura e sem adaptações. A simples relação e a necessidade recíproca do contato e da presença, sem regras estabelecidas. A ideia de indivíduos que se encontram e se amam sem nada lhes ser imposto, simplesmente porque querem e precisam.

Aquele momento de pureza e origem buscado por Terrence Malick nos dinossauros, ressoando de certa forma na imagem que Lars Von Trier escolhe para seu fim. Opostos que se atraem e se espelham e, pelo menos para os dois diretores, parecem indicar algum tipo de resposta.

Tags: , , , , , , , , , , ,

1 Comments For This Post

  1. Marcelo de Abreu Says:

    Prezado Daniel

    Meus parabéns pela ótima resenha e por enfrentar este desafio que foi o de colocar frente a frente estas duas obras extraordinárias. Como voce mesmo disse, o assunto está longe de ser esgotado – eu diria que chega a beirar o infinito – mas muitas questões fundamentais foram habilmente captadas.
    Minha preferência de cinéfilo foi Melancolia. Para ser franco faz tempo que um filme não me transmitia tamanha desolação!

    Abraços

Leave a Reply

*

Pílula no Facebook

Enquanto isso, no Twitter

Arquivos

Categorias

-->

resume writing services