A A
RSS

Melancolia

por

5 de agosto de 2011

Cinema, Receituário

Melancolia

Melancholia, Dinamarca/Suécia/Alemanha/França, 2011

  • Dir.: Lars Von Trier
  • Elenco: Kirsten Dunst, Charlotte Gainsbourg, Kiefer Sutherland, Cameron Spurr, Alexander Skarsgard, Stellan Skarsgard, John Hurt, Charlotte Rampling, Brady Corbet, Jasper Christensen

Avaliação: ★★★★½ 

Qual a sua reação ao olhar para o abismo? Você se deixa cair e abraça a fatalidade de que todos seremos engolidos por ele um dia? Ou fica hipnotizado, sendo dominado pelo desespero de tentar evitar a queda a qualquer custo? São duas faces, duas reações, duas irmãs, que enraízam e alicerçam um mesmo corpo – o processo depressivo.

A ideia de que a “Melancolia vai passar por nós, podendo não causar nada ou destruir o mundo” não é nada sutil. Lars Von Trier medita novamente sobre a depressão, esse monstro que invade mundos, colocando-os de cabeça para baixo. A diferença é que esse filme-desastre sobre um planeta, “Melancolia”, em rota de colisão com a Terra, é bem menos arrogante que “Anticristo”.

Von Trier não quer agredir o espectador fisicamente, infligindo-o com a sua dor, nem impor a ele seu processo depressivo. Quer simplesmente retratá-lo e convidar o público a refletir sobre a estranha razoabilidade de seu raciocínio mórbido. Enquanto o espectador era um mero refém do sadismo do longa anterior, em “Melancolia” ele é co-autor, completando várias lacunas e, graças ao talento manipulativo do diretor, tornando-se parte daquele universo muito mais natural e profundamente.

O resultado não é fácil. Pelo contrário, é um filme denso, com longas sequências exasperantes, por vezes exaustivas, que demanda essa disposição para “pular”. E para tornar esse convite mais sedutor, o cineasta constrói belíssimas imagens – literal e figurativamente – com a ajuda da fotografia de Manuel Alberto Claro.

Uma delas vem logo no início do filme: uma limusine, carregando um jovem e belo casal, atolada na lama, ri do quão ridícula é nossa ostentação frente à superioridade física da natureza. Logo em seguida, a festa de casamento: o patético de celebrar um ritual vazio (por motivos que prefiro não revelar) em um castelo dourado, enquanto lá fora o mundo está mais perto do fim a cada minuto. A única pessoa que não consegue ignorar isso é a própria noiva, Justine (Dunst), que abraça o fatalismo do primeiro parágrafo, enquanto sua irmã Claire sucumbe ao desespero – com Charlotte Gainsbourg mais uma vez se entregando de corpo e alma à histeria de Von Trier.

Outro aspecto visual interessante é que a parte do casamento, à noite, é mais iluminada, com seus tons dourados, do que o resto do filme que se passa quase todo durante o dia, mas é cinza e escuro, reforçando o mundo de cabeça pra baixo com a passagem do Melancolia. E assim como em “As horas”, o diretor faz uso da trilha musical quase onipresente– o belíssimo prelúdio de “Tristão e Isolda” de Wagner – para imergir o espectador no ininterrupto e inescapável processo depressivo.

Mas a escolha narrativa mais interessante do filme talvez seja o fato de que os personagens nunca pensam em uma escapatória, uma solução, nem em pedir ajuda (mesmo a ciência se mostra inútil quando a invenção do menino parece mais apropriada para seguir o planeta do que o telescópio do pai). A certeza central do deprimido de que nada pode ser feito, o fim é inevitável, ninguém pode ajudá-lo – então, estamos todos sozinhos. Essa maior disposição para se deixar cair, ou pular, do que para estender a mão… que dura até (talvez) ser tarde demais.

P.B.O.Q.Q.E.E.

Tags: , , , , , , , ,

5 Comments For This Post

  1. Mari Says:

    É uma solidão que todo mundo tem né? <3 Bonito o texto, mas vou correr desse filme por um bom tempo ainda.

  2. Guerrinha Says:

    Achei ruim com força. Deviam servir cafezinho antes pra gente não dormir.

  3. Leyner Says:

    Perdão, mas tenho uma dúvida que precisa ser sanada: Qual era o problema de Justine? Pq ela se separou? Que doença ela tinha? Obrigado!

  4. Daniel Oliveira Says:

    Depressão(?)

  5. Leyner Says:

    Verdade, mas pq então se sujeitou aquilo tudo? Se sabia do final? Bom só para presenciarmos umas muito boas cenas sobre problemas familiares que sempre são bem vindas em filmes como esse! 😉

Leave a Reply

*

Pílula no Facebook

Enquanto isso, no Twitter

Arquivos

Categorias

-->

resume writing services