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Entrevista: Ronaldo em #PRASEMPREFENÔMENO

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11 de dezembro de 2011

Ressonância

Manhã de sexta-feira e estava eu em um shopping de São Paulo com um grupo de pessoas diferentes daquelas que eu costumo encontrar em cabines de imprensa. Ao invés dos críticos de cinema, muitos câmeras, fotógrafos e, principalmente, alguns dos principais jornalistas esportivos do país. Todo mundo aguardando a chegada do maior artilheiro da história das Copas. Ronaldo Nazário é figurinha fácil em qualquer publicação esportiva, mas o que o Pílula Pop tem a ver com isso? Era o lançamento do documentário #PRASEMPREFENOMENO, que conta as duas últimas semanas do jogador antes de sua despedida da seleção brasileira (no jogo contra a Romênia no dia sete de junho desse ano).

Eu estava nervoso. Sou fã do Ronaldo desde que me entendo por gente, e a tremedeira nas mãos e pernas já indicavam que o profissionalismo passaria longe daquela manhã. Ronaldo chega cercado por assessores, câmeras e microfones.  Andando devagar, atravessa o corredor do cinema para entrar em uma sala fechada. Enquanto preparam a exibição do filme, espero a liberação da sala de cinema sentado em uma poltrona distante da confusão. Neste momento Ronaldo passa mais uma vez por mim, dessa vez sem assessor, sem câmeras, apenas o repórter Mauro Naves ao seu lado. Conversam calmamente, longe das pessoas que o aguardam. É um dos únicos, talvez o único, momento da manhã em que o ex-jogador não será assediado por jornalistas e fãs. Dali a pouco tempo os dois voltam, acenando para mim levemente com a cabeça. Um segundo depois, os jornalistas percebem sua presença. Flashes pipocam para todos os lados, um garoto pede autógrafo. Ronaldo assina o papel e entra novamente em sua sala reservada.

Já na sala de cinema lotada, Ronaldo mal consegue passar pelas câmeras de tv que ocupam toda a entrada. Ele chega ao lado de Anderson Silva, campeão do MMA e agenciado pela Nine, empresa de marketing esportivo do ex-jogador. Ronaldo pega o microfone e fala para a platéia:

“Vocês vão ver um filme sobre duas semanas que antecederam minha despedida. Tem muita coisa divertida, treino, balada com meu amigo Anderson”. Ele se senta três fileiras na minha frente. O filme começa.

Como crítico, foi a primeira vez que vi um filme com o biografado na sala de cinema. Foi uma sensação diferente, que modificou o processo de recepção em minha relação com a obra: era impossível às vezes não desviar os olhos da tela em direção ao astro da produção sentado ali na minha frente. Dito isso, não é possível analisar #PRASEMPREFENOMENO como cinema. Tanto que é um documentário curto lançado diretamente em DVD e Blu-Ray, pensado no consumo de home vídeo. É uma obra de estrutura simples, basicamente uma câmera (a do diretor Felipe Briso) seguindo o jogador em seu dia a dia tendo as imagens intercaladas pelo áudio dos depoimentos de Ronaldo.

Podia ser um programa do Sportv ou um quadro do Caldeirão do Huck. Funciona perfeitamente para os fãs do jogador, apesar de se sentir um pouco de falta de algumas imagens de arquivo (principalmente do início de sua carreira) que poderiam auxiliar a narrativa, aumentando a emoção. Mas mesmo sem maiores pretensões, há momentos engraçados (como aqueles envolvendo o filho caçula do jogador e as piadas que Ronaldo faz com seu próprio peso) e outros de sutil emoção, em que uma mistura de expectativa, nostalgia, alegria e melancolia ganha a tela nos poucos minutos que antecedem a entrada do jogador em campo pela última vez. As participações especiais são várias (Galvão Bueno, Kaká, Neymar, Robinho, Lula, Anderson Silva), mas nenhuma consegue roubar a cena. Ronaldo é o astro absoluto, dentro e fora da tela, como comprovam os aplausos e lágrimas de alguns jornalistas ao final da sessão .

Apesar de tanto assédio, de estar o tempo inteiro cercado por pessoas, Ronaldo está tranqüilo, bem humorado. Dividindo um pouco a atenção com Anderson Silva, ele se livra momentaneamente de tantos fotógrafos e, para minha surpresa, para bem ao meu lado. “Vamo lá?” ele diz para mim enquanto entra na sala onde será entrevistado.

“Gostei de todas as partes do filme. Mas é difícil ficar com esses caras também. 15 dias atrás de você! E esse final… é emocionante demais! Ter a família perto naquele momento (o último jogo) foi incrível. Família sempre dá força pra caramba. Onde você busca equilíbrio e apoio”.

E sobre aquela história de que iria atuar no novo filme dirigido pelo Márcio Garcia? “Aquilo foi um convite que ele me fez um tempo atrás. O filme já foi produzido, finalizado, mas por questões contratuais minhas, não pude participar”.

Se você pudesse escolher um outro momento da sua vida para fazer um documentário, qual seria? “Eu teria feito – apesar de muita gente ter acompanhado – acho que um documentário da minha primeira lesão do joelho e da segunda também. Ia ser um documentário incrível, de muita dor, muito sofrimento, mas que termina jogando futebol. Seria incrível. Mas a gente não fez…”.

E qual o valor deste filme para você? “(Esse momento) Vai ficar para o resto da vida como um documento. Acho que é isso que vale”.

Em todas as entrevista que já fiz, nunca pedi um autógrafo ou para tirar uma foto. Acho antiprofissional, afinal, não foi para isso que fui convidado para estar ali. Mas dessa vez era diferente. Estava lá o maior ídolo que eu já tive em qualquer esporte. O melhor jogador de futebol que já vi jogar. O menino que eu acompanhava desde quando ele tinha 16 anos no Cruzeiro.

E ele estava ali ao meu lado, conversando. Deveria pedir uma foto? Seria muito feio dar uma de fã assim, tão descaradamente? Peço ou não peço para tirar uma foto com ele? Antes ele já havia passado por mim uma, duas vezes. E nada. Passei aquela manhã toda me remoendo em decidir se deveria ou não tirar a bendita fotografia… Até que no final resolvi jogar o profissionalismo pro alto. “Posso tirar uma foto com você?”. “Bate aí!”. Peguei a câmera e eu mesmo fiz nosso auto-retrato.( Ok, nunca fui muito bom em tirar auto-retratos. E a mão tremendo não ajudou em nada).

Minha foto com o Fenômeno (eu estou bem ali na esquerda, fora do quadro...)
Minha foto com o Fenômeno (eu estou bem ali na esquerda, fora do quadro...)

Ronaldo foi se afastando cercado por uma multidão. Será que peço outra foto? Mas pra quê? Eu já havia conhecido o Fenômeno. Precisava mesmo de mais?

E de repente, na saída do shopping,  ele estava ali de novo, na minha frente na escada rolante. Dois degraus nos separando. Eu tinha poucos segundos para me decidir. Ele olhou para mim. Era a minha deixa. Mais uma foto? Não. Apenas falei: “Valeu Ronaldo”.

A minha vida toda eu quis dizer isso pra ele.

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