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O Império do Calçadão: retrospectiva Boardwalk Empire

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4 de janeiro de 2012

Overdose, TV

Quando encerrou sua temporada em dezembro de 2010, Boardwalk Empire havia conquistado uma legião de fãs ao redor do mundo. Todos estavam encantados com a série, produzida com um capricho de cinema por Martin Scorsese e Mark Wahlberg. As roupas de época, a qualidade dos atores, o enredo cativante. Seria um sucesso, todos já sabiam antes mesmo de começar. Não tinha nada para dar errado.

Fomos deixados em stand by durante um ano, na expectativa de como seria essa reviravolta do enredo que se desenhou no último episódio da primeira temporada. Nucky Thompson (Steve Buscemi) enfrentaria dois adversários à sua altura: o irmão Eli (Shea Whigham) e o afilhado Jimmy (Michael Pitt). Ambos estavam cansados de comer as sobras da mesa do dono do calçadão e dispostos a assumirem o seu lugar. Tudo poderia dar certo, não fosse um pequeno detalhe: eles tinham uma voz de comando, o Comodoro (Dabney Coleman). E isso, no final das contas, fez uma diferença enorme.

Uma Guerra dos Tronos em Atlantic City
Uma Guerra dos Tronos em Atlantic City

Se você ainda não assistiu algum dos episódios da segunda temporada, seguem alguns spoilers. Melhor não ir adiante.

A presença do Comodoro era fundamental para que tudo desse certo e o fato de nem Eli nem Jimmy terem habilidade de negociação ou liderança foi o principal fator responsável por ambos terem falhado terrivelmente. A segunda temporada foi, para todos os fãs, uma tragédia, porque os personagens passaram boa parte dos episódios indo de um lado pro outro, feito baratas tontas, sem saber o que fazer. Todos pareciam perdidos, sem rumo. O desespero era tão grande que quase podíamos vê-lo na atmosfera dos sets. Não havia um único personagem no controle de seus próprios atos. Até mesmo Nucky, sempre impassível, sempre impecável, com seu cravo vermelho na lapela e terno bem desenhado.

Todos estavam sujeitos a serem descobertos, a serem castigados. E eles se degradaram, todos eles, bem em frente aos nossos olhos. Cinema na tela da TV, amigos. Lembranças de “Os Bons Companheiros” e “O Poderoso Chefão” me atacavam ao final de cada episódio que eu assistia. E depois do Season Finale devo que confessar que quase chorei. A cena do acerto de contas foi, sem dúvidas, uma das minhas preferidas desse ano.

Havia um toque de gênio em cada detalhe: o uso das sombras a favor do clima de tensão, o jogo de câmeras maravilhoso, a predominância do escuro sobre o claro, a ausência de cores fortes em boa parte das cenas, com o tom pastel imperando. A violência estava bem mais vermelha que na temporada anterior. E, ao mesmo tempo, latente, presente até mesmo naquelas cenas que seriam aparentemente calmas.

O desenrolar da história de Jimmy foi, particularmente, o meu preferido. Seu desespero atingiu níveis de histeria e o ator conseguiu nos passar o sofrimento de seu personagem de uma forma muito verdadeira. Não sei vocês, mas eu sofri por causa de Darmody. Consegui me identificar autenticamente com ele. Coincidência ou não, Scorsese sempre teve a capacidade de nos mostrar a loucura de seus protagonistas viscerais de uma forma muito delicada. Em momento algum deixamos de sentir simpatia por aqueles criminosos, empresários, detetives. Mesmo eles sendo quem são e sempre estando fora de controle. Sempre há uma conexão nossa com eles. É muito humano. E não consigo deixar de pensar que muito do que aconteceu nessa temporada teve a influência quase que direta do trabalho do diretor.

Ande três casas, puxe uma carta e... "Sorte! Saída Livre da Prisão."
Ande três casas, puxe uma carta e... "Sorte! Saída Livre da Prisão."

Outro destaque desta temporada foi Kelly Macdonald, impecável como Margaret, que era, até então, a grande dúvida da trama. Seria ela a glória ou a desgraça de Nucky? Perdida entre arrependimento e pecado, a personagem parece indecisa quase o tempo todo sobre o que fazer, sobre o que é certo ou errado. Ela é o perfeito retrato da pessoa “boa” que se deixa corromper pelos próprios interesses ou por suas prioridades não serem tão éticas como deveriam ser. Vê-la como um peão sob influência da religião é fascinante e, por que não, esclarecedor.

Vi manifestações no Twitter e Facebook de fãs frustrados com o desfecho da segunda temporada. Eles estão com aquela sensação desorientante de quem assiste “Psicose” pela primeira vez e fica revoltado com o que acontece com a protagonista logo no começo do filme. Eu penso que, assim como Hitchcock, os produtores de Boardwalk sabem exatamente o que estão fazendo. E novos desafios, ainda melhores, aguardam o nosso querido magnata da lei seca. Boto fé. Agora é esperar pra ver.

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