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12 de abril de 2012

Cinema, Receituário

Avaliação: ☆☆☆☆☆ 

Era uma fatídica manhã do começo de abril. O sol parecia desconhecer o fato de que o verão havia acabado. Às dez horas da manhã eu deveria estar, em ponto, num shopping específico, para assistir um filme. Mas, ao invés disso, participei de uma aventura de outro mundo.

Antes de entrar no shopping, olhei pro céu e, de repente, veio para cima de mim uma luz alaranjada em forma oval que parecia vir de um especialista em efeitos especiais com pouco talento. Essa luz me abduziu para aqueles que pareceram ser os cem minutos mais longos da minha vida. Neles, tive visões absurdas, de outro planeta, que não acho que ninguém mais vai querer compartilhar.

Numa versão extremamente distorcida do nordeste brasileiro, conheci um Ceará onde só há pessoas de pele clara e os negros são raros, a ponto de todo mundo olhar estranho para eles na rua. Também escutei conselhos a respeito da proibição do aborto e sobre como a explosão populacional poderia evitar o fim do mundo e nos fazer seres humanos melhores. As sábias palavras vieram de um galã global coxinha, com cabelo partidinho ao meio e besuntado de gel. Ele quis me enganar, se passando por cearense pobre, mas eu fui mais esperta e consegui enxergar além das luzes de flash de máquina fotográfica e das árvores que os assistentes estavam balançando.

Também foi surreal conhecer um ator homofóbico de um seriado norte-americano que estava disfarçado de jornalista sério, tentando me enganar que o filho dele havia desaparecido e que eu deveria sentir pena dele. Em meio a todas aquelas visões, provocadas pela luz estranha, a atuação dele foi o que mais me incomodou, misturando palavras em inglês e português num enredo pouco crível e cheio de buracos, mais feito pra “gringo” bobo ver do que qualquer outra coisa. E nisso eu nem estou colocando na conta o desempenho de uma amadora, que tentou me convencer de que era um interesse romântico do protagonista; o discurso espírita de dar sono e os “defeitos” especiais.

Nessa minha abdução, queria muito ter visto os tão alardeados ETs. Ao que tudo indica, minha conexão com o espaço custou em torno de US$ 4 milhões, que não devem ter sido suficientes para estimulá-los a se apresentarem a mim. Não vi nem uma navezinha mixuruca. Uma pena. Como diria George Lucas: maquetes de papel, criatividade, talento e canja de galinha não fazem mal a ninguém. Mas, ao invés disso, fui deixada com a sofisticação dos flashs.

No final da jornada, voltei à Terra com a sensação de que vários dias da minha vida haviam se passado e eu jamais os recuperaria. Pelo menos aprendi a lição: não se mistura ficção científica e espiritismo, ou as consequências para o Cinema Brasileiro irão ser tão catastróficas que imploraremos para que o Apocalipse aconteça logo.

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4 Comments For This Post

  1. Ricardo Says:

    Não tinha nem ouvido falar desse filme, mas só o trailer já é constrangedor. Não vou pagar pra descobrir, mas correria sério risco de tomar o lugar de Quem Somos Nós? como o pior filme que já assisti.

  2. Abraão Maciel Says:

    Não vi o filme, mas deve ser extremamente divertido pelo lado trash da coisa. Tem até produtores cearenses que colaboraram com isso aí. Se pá gastaram o cachê quase todo do filme pra pagarem os Globais. Até a propaganda que o Murilo Rosa fez pra Ypióca é mais bem-feita.

    Longe de mim defender esta bomba, mas a título de curiosidade, realmente há poucos negros na região de Quixadá, bem como no resto do Estado, já que o Ceará pouco se utilizou da mão-de-obra escrava. E entre o pouco que havia, se comparado a outras regiões, a grande maioria trabalhava em serviços domésticos.

    Quixadá foi uma das cidades onde os índios mais resistiram, tendo travado embates com o homem branco até meados do século XVIII. A maioria da população da cidade é descendente da miscigenação entre portugueses, índios e libaneses.

  3. Priscila Armani Says:

    Muito obrigada pelo seu comentário Abraão! Não sabia disso! Ignorância minha. Esse dado que você forneceu muda bastante a perspectiva do filme. Bem legal. Obrigada!

  4. Abraão Maciel Says:

    Ora, por nada. Foi só uma curiosidade mesmo. Sou cearense e a cor parda da gente vem mais dos índios do que dos negros. Aliás, a primeira cidade do país a abolir a escravidão é cearense: Redenção. E antes mesmo da Lei Áurea.

    Esse filme teve estréia nacional? Nem aqui foi comentado.

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