Keane – Strangeland

Avaliação: ★★★★½ 

As canções de Strangeland se dividem entre crônicas de relacionamentos chegados ao fim e hinos do tipo “não desista, porque sou seu amigão, vou te dar um abraço e tudo vai ficar bem”. Como se trata do Keane, o abraço é aquele dado pelo amigo gordinho de que todo mundo precisa: grande, aconchegante, quentinho. Um abraço Malwee®.

O quarto álbum do grupo inglês é esse ato singelo e zeloso de carinho, que marca a volta às raízes do primeiro CD. Tom Chaplin & Cia. abandonam o desejo de ser o novo U2 de Under the Iron Sea (deixe o Coldplay cair nesse buraco negro); desistem da ambição de ser cool de Perfect Simmetry (o Franz Ferdinand é bem melhor tentando ser Talking Heads); botam a guitarra pra segundo quinto plano, e decidem assumir o que são: uma banda gracinha®.

Involução? Mesmo não sendo grande fã de Hopes & Fears, devo admitir que não. Isso porque o grupo soube trazer das últimas experiências o tempero que impede que seu alto teor de sacarose se torne enjoativo. A Queen-esca “On the road” é uma das músicas mais dançantes que o grupo já compôs. Já o refrão de “Day will come”, que parece remeter ao alcoolismo de Chaplin, faz uso das guitarras no equilíbrio certo para não comprometer a identidade do quarteto.

Identidade, aliás, ou a busca dela, parece ser o tema que permeia Strangeland. Sejam os amantes tentando voltar ao que eram em “The starting line”, ou Chaplin decidido a retornar a um paraíso idílico, onde “as pessoas sabem meu nome”, o título do álbum parece ser a terra de onde o vocalista e compositor quer fugir voltando para suas origens. Um tempo e lugar mais simples representado pela ótima “Sovereign Light Café”.

Claro que por cima desse subtexto estão toneladas e toneladas de açúcar romântico – dos acordes iniciais beatlenianos de “Disconnected” (com direito a clipe dirigido pelo J.A. Bayona de “O orfanato”) à baranguice irresistível de “Watch how you go” (I wish that I could be your journey’s end / but you were only passing through). Chaplin não tem o requinte das letras do Snow Patrol para falar de amor, mas sua simplicidade é por isso mesmo mais pop e, no caso de Strangeland, igualmente eficaz.

Contudo, mesmo com pequenas pérolas, como a amada que parte em busca de seus sonhos deixando pra trás um coração partido em “Neon river”, há momentos de risco mortal para os diabéticos. Nem o belo piano de Tim Rice-Oxley consegue salvar a overdose de sacarose de “Black rain”.

Mas como não gostar do amigo gordinho que te diz que “você é protegido pelas mãos do amor porque você é jovem”, ou que achou que “podia te ajudar a se encontrar, mas está tão perdido quanto você”. É por isso que quando ele parece todo deprimido em “Sea fog”, dizendo que não vai lutar contra a maré e que está ouvindo a voz dela chamar no escuro, você quer abraçá-lo de volta. Vai ficar tudo bem.

Top 3: Sovereign Light Café, Watch how you go, On the road

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