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Na Prateleira: O Vingador do Futuro (1990)

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14 de agosto de 2012

Cinema, Overdose, Receituário

Total Recall

Em "Na Prateleira" o Pílula resgata do baú grandes referências pop que estão sempre disponíveis na prateleira da sua locadora - ou nas prateleiras virtuais da web. Na semana em que estreia o remake de "O Vingador do Futuro", relembramos o original dirigido por Paul Verhoeven.

  • EUA, 1990
  • Dir: Paul Verhoeven
  • Elenco: Arnold Schwarzenegger, Rachel Ticotin, Michael Ironside, Ronny Cox, Sharon Stone, Michael Champion, Mel Johnson Jr.

Com o sucesso de “Robocop”, Paul Verhoeven parecia realizar o sonho de todo fã do cinema de ação dos anos 80 ao se juntar a Arnold Schwarzenegger para uma ficção científica baseada num conto do cultuado Philip K. Dick. Afinal “O Vingador do Futuro” juntava o diretor do “policial do futuro” com o próprio “exterminador do futuro” (alguém aí ainda não entende por que a distribuidora não traduziu Total Recall ao pé da letra?). A mistura não tinha como dar errado. E não deu.

Verhoeven aproveitou a ambientação futurista-marciana da história para abusar de seu estilo focado no incômodo: sexo, violência e a busca por identidade (temas comuns à sua filmografia) colocam o filme acima dos blockbusters da época, sem esquecer do ritmo de ação incessante. Douglas Quaid (Schwarzenegger) é um operário da construção civil que parece obcecado com Marte, planeta colonizado por uma grande companhia exploradora de minério e que enfrenta a revolta de mutantes. Um dia resolve testar a novíssima experiência de ter sonhos construídos e implantados em sua memória. Sua fantasia é ser um agente secreto no planeta vermelho, mas o implante acaba revelando que Quaid era mesmo um agente que teve sua memória apagada. A partir daí inicia-se uma perseguição que vai levá-lo de volta a Marte, onde vai tentar descobrir mais sobre si mesmo.

Espécie de pré-Bourne, “Matrix” e “Vanilla Sky”, “O Vingador do Futuro” nunca deixa claro se seu protagonista é mesmo um agente que teve a memória apagada ou se tudo não passa de um sonho de Quaid, confortavelmente dormindo na clínica em que se propôs comprar uma memória. Pois como em um sonho, Paul Verhoeven constrói uma estrutura narrativa que se baseia no estranhamento constante, reproduzindo para o espectador o incômodo que o personagem principal possui em suas constantes novas descobertas.

As imagens incômodas já começam logo na primeira cena, em um sonho onde vemos Schwarzenegger tendo os olhos esbugalhados pulando para fora do rosto. A partir daí o diretor vai arriscar a tênue linha entre o cômico e o estranho, oferecendo imagens icônicas como Quaid com uma toalha enrolada na cabeça, uma bola vermelha saindo do nariz, uma anã atirando com uma metralhadora, o raio-x de um esqueleto armado, um motorista de taxi mecânico, Schwarzenegger travestido de gorda e, claro, a inesquecível mulher de três seios. São imagens marcantes exatamente pelo inusitado, uma especialidade de Verhoeven. Os mutantes da história, aliás, são a grande oportunidade para o diretor abusar de seu cinema de choque gráfico, apresentando criaturas visualmente repugnantes, mas nobres de espírito. A dualidade de sentidos incomoda e serve para manter o tom de toda a produção.

Como aventura, “O Vingador do Futuro” não decepciona. Apesar da ação ter envelhecido (especialmente a coreografia das lutas), em parte graças ao exagero típico dos anos 80 (em determinada cena basta Quaid dar um toque com o revolver para quebrar toda a janela de um trem), o filme vai ficando cada vez mais interessante e estranho, em um crescente que lembra a evolução de fases de um videogame. Já o roteiro possui muitos furos, especialmente a reviravolta final que envolve um plano mirabolante da agência que não faz muito sentido em uma análise mais atenta.

Além disso, há um personagem que não traz um “incômodo bom”. Benny é o taxista residente em Marte que ajuda Quaid em sua jornada. O problema é que ele se revela uma muleta do roteiro, aparecendo sempre que alguma situação dramática precisa ser resolvida. Além disso, não é possível relevar que o único personagem negro em todo o filme seja exatamente o malandro que trai o protagonista.

No mais, tudo decorre de forma muito bem conduzida por Verhoeven, que aproveita o grande orçamento para fazer um filme B de luxo com toques de crítica política e econômica, envolvendo luta de classes e a repressão estatal militar. O que mais chama a atenção, entretanto, é sua capacidade em compor planos marcantes e inusitados. As vísceras de um rato que se transformam no céu de Marte (em uma brilhante transição) é apenas um dos exemplos da criatividade visual do diretor, que aqui usa de forma inteligente a cor vermelha para aproveitar o tema marciano da história. A cor está na bola com transmissor que sai do nariz de Quaid, nos cabelos da mulher-disfarce, na pílula que é oferecida para o protagonista acordar, na malha vestida por Sharon Stone, na arma no raio-x e, claro, no sangue que se espalha por toda a projeção.

Mas depois de tanto uso da mesma cor, o diretor reserva uma sutil piadinha visual para o final de sua aventura. Com a atmosfera do planeta reestabelecida e o céu de Marte deixando de ser vermelho para ficar azul, Verhoeven fecha seu filme com um plano rápido em uma silhueta feminina construída por neon. Todo o contorno da mulher está em vermelho, sendo reservada para a região de sua genital a única parte do desenho com a luz azul. Afinal, agora o “céu” de Marte é azul…

Este é o Paul Verhoeven que nós adoramos.

O céu é azul.
O céu é azul.

 

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