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Argo

por

8 de novembro de 2012

Cinema, Receituário

EUA, 2012

  • Dir.: Ben Affleck
  • Elenco: Ben Affleck, Bryan Cranston, Alan Arkin, John Goodman, Tate Donovan, Victor Garber, Clea Duvall, Scoot McNairy, Rory Cochrane, Christopher Denham, Kerry Bishé, Kyle Chandler, Chris Messina, Titus Welliver, Zeljko Ivanek

Avaliação: ★★★★½ 

Em uma cena durante o clímax de “Argo”, um dos resgatados pela missão-título tenta explicar ao guarda iraniano a história do filme (falso) para o qual eles estariam procurando locações no país. Só que ele conforma a trama à narrativa política local que levou ao golpe meses antes, hipnotizando seus algozes por alguns preciosos minutos.

Essa breve interação contém as duas ideias essenciais do longa de Ben Affleck. Uma é a do poder transcendente do cinema, capaz de transpor barreiras culturais e abrir diálogos improváveis, sendo algo mais que simples entretenimento. A outra é um dos provérbios mais antigos de Hollywood: “fake ‘til you make it” – e no final, se você tiver sorte, o público vai completar seu trabalho, vendo nele não o que você fez, mas o que ele quer ver.

Porque, sim, “Argo” é uma história real sobre um agente da CIA, Tony Mendez (Affleck), que resgatou seis diplomatas norte-americanos do Irã em 1980 inventando uma produção cinematográfica – com a ajuda de um maquiador, John Chambers (Goodman), e um produtor, Lester Siegel (Arkin). Mas é também, e talvez principalmente, uma ode metalinguística ao cinema e a uma Hollywood que não existe mais. Aquela dos anos 70, de filmes com personagens cujo pensar é tão importante quanto o agir, e que pretende ser algo mais que simples diversão na sexta à noite. O cinema do som de gente inteligente falando.

A todos os Oscar que nós vamos ganhar.
A todos os Oscar que nós vamos ganhar.

Para fazer jus a essa homenagem, Affleck referencia Alan J. Pakula (Todos os homens do presidente) nas cenas do escritório da CIA; a leveza de Sidney Pollack em “Tootsie” na sequência em Hollywood; e a confiança em um bom elenco digno de Sidney Lumet. O bom roteiro de Chris Terrio não gasta muito tempo desenvolvendo personagens, entrando direto na ambientação e contexto político da época. Então, o diretor-e-protagonista mostra como é benquisto em Hollywood, conseguindo a nata da TV norte-americana mesmo nos menores papéis (Bryan Cranston, Kyle Chandler, Tate Donovan, Zeljko Ivanek, Chris Messina) e confiando a eles caracterizações críveis, tanto física quanto psicologicamente.

Visualmente, Affleck reproduz o granulado dos anos 70 cortando os frames ao meio e ampliando-os para o tamanho normal. Mas a prova-mor de que ele realmente se tornou um dos diretores de mão e visão mais firme em Hollywood hoje vem na sequência-clímax que abre o terceiro ato. Cortando entre quatro eixos narrativos – o resgate no aeroporto, os agentes na CIA, o escritório de produção em LA e a inteligência iraniana se dando conta da operação em curso – Affleck cria uma das sequências mais tensas e bem amarradas do ano, mostrando que é possível envolver o público e fazer espetáculo sem dar um tiro ou usar um único frame de CGI.

“Argo” não é perfeito. O segundo ato é um pouco arrastado e o alcoolismo do protagonista sai do nada e vai para lugar nenhum. Mas o simples fato de relembrar e celebrar o cinema norte-americano quando ele ainda pensava merece todos os louros que ele (com certeza) receberá no futuro.

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1 Comments For This Post

  1. Guerrinha Says:

    “Esses não são os ‘droids’ que vocês estão procurando.”

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