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O Canto da Sereia

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12 de janeiro de 2013

Receituário, TV

A fórmula é conhecida: subgênero policial baseado na investigação de um misterioso assassinato do qual são suspeitos todos os envolvidos com a vítima. Junte-se a isso a ambientação da história numa Bahia contemporânea, com elementos do candomblé, da mitologia das sereias, do show business do Axé baiano, polícia e políticos corruptos. “O Canto da Sereia”, micro série televisiva baseada na obra homônima de Nelson Motta, teve estreia no dia 8 de janeiro, com direção de José Luiz Villamarim, e surpreende no formato e no desempenho dos atores. Adaptada por George Moura, Patrícia Andrade e Sérgio Goldenberg, com supervisão de texto de Glória Perez, a série é uma produção do núcleo de Ricardo Waddington (Globo).

Considerada como noir baiano, “O Canto da Sereia” é divida em apenas 4 capítulos de narrativa enxuta e bem construída. Já no primeiro, assistimos à morte de Sereia Maria de Oliveira (Isis Valverde), cantora fenômeno do axé, de carreira meteórica, que é assassinada em cima do trio elétrico em plena terça-feira de carnaval. Os suspeitos: Mara (Camila Morgado), sua empresária; Tuta (Marcelo Médici), seu marketeiro; Paulinho de Jesus (Gabriel Braga Nunes), ex-namorado e produtor musical; Jotabê Bandeira (Marcos Caruso), o governador da Bahia; Mãe Marina (Fabíula Nascimento), guia espiritual de Sereia e Só Love (João Miguel), seu fiel assistente e amigo íntimo.  Atormentado pelo crime, o detetive Augustão (Marcos Palmeira), que também é segurança particular de Sereia, decide investigar por conta própria o assassinato da musa do Axé.

A narrativa é anacrônica, isto é, vale-se de flashbacks para contar fatos que precederam o crime. As legendas, que datam as situações ocorridas, guiam-nos para montar o quebra-cabeça da história de Sereia. Algumas elipses são belas e poéticas, como no plano em que Sereia, ainda em seu camarim, ajeita os longos cabelos com as mãos, qual fez três anos atrás, ao ouvir de mãe Marina sobre seu futuro glorioso.

O mito da sereia

As sereias são figuras cercadas de mistério, na mitologia são conhecidas por atrair homens e mulheres para a morte, seduzindo-os através do canto. Assim é que Sereia atrai todos que a ajudaram a se tornar a rainha do Axé. No caso, Isis atrai mais pela sensualidade do que propriamente pelo canto. Para interpretar Sereia, a atriz fez aulas de voz com Ivete Sangalo e chegou a um bom resultado, nada excepcional. Já a sensualidade é o grande trunfo da personagem e da atriz, que há pouco havia saído (ou ainda não) da pele da fogosa Suelen, de “Avenida Brasil”. De sexualidade indefinida, Sereia seduz homens e mulheres, e ao longo da trama são revelados romances da musa com Mara e com Jorge de Ogum (marido de mãe Marina). De acordo com o personagem Tuta, “Sereia não é um fenômeno como cantora. O que ela têm é muito tesão”. Sereia exala sensualidade, ao mesmo tempo em que revela uma personalidade melancólica. O desfecho da trama surpreende ao revelar o assassino e seus motivos e finaliza, como uma fábula moderna, o mito de Sereia.

A direção de fotografia de Walter Carvalho é primorosa. Pela primeira vez Walter assume o manuseio da câmera numa produção para TV. A instabilidade da câmera na mão, o uso da profundidade de campo, a câmera alta (com enquadramento por cima, perpendicular à cena), enfim, composições de quadro pouco usadas na Televisão. A fotografia não esconde a depredação da cidade, emaranhados de fios, prédios sujos e abandonados. O tom é de um amarelo queimado, o que deixa as cenas embebidas numa tristeza vaga.

Além dos 4 capítulos foram produzidos conteúdos complementares disponíveis no site oficial da série, como depoimentos (falsos, é claro) de Cláudia Leite e Carlinhos Brown sobre a cantora Sereia, o videoclipe da musa, detalhes sobre a vida e a carreira da artista. Como anunciado nos créditos finais dos capítulos, a obra é de ficção, não há compromisso com a realidade. No entanto, é impossível não perceber referências a situações e personalidades do mundo real, principalmente na figura de Jotabê Bandeira, o governador, de Tuta, o marketeiro e da própria cantora Sereia.

O que faz do “Canto da Sereia” uma série encantadora?

A antiga fórmula da narrativa policial ganha o tempero do sotaque baiano (sem clichês novelescos), embalado pelo axé e abençoado por Iemenjá. Com uma equipe de talentos livre das obrigações de grandes audiências das telenovelas, o encanto da série talvez esteja no “tesão” dos que a fizeram.

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