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Anna Karenina

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15 de março de 2013

Cinema, Receituário

Anna Karenina

EUA, 2012

  • Dir: Joe Wright
  • Elenco: Keira Knightley, Jude Law, Aaron Taylor-Johnson, Domhnall Gleeson, Matthew Macfadyen, Kelly Macdonald

Avaliação: ★★★½☆ 

Escrito por Leon Tolstoi entre 1873 e 1877, a novela “Anna Karenina” é hoje um clássico pela forma que retrata a sociedade russa do século XIX e as relações interpessoais que se desenvolviam dentro de rígidas amarras de etiqueta. Para isso, o autor narra de forma trágica o escandaloso romance entre Anna, a socialite casada , e o jovem conde Vronsky (Johnson), em ascendente carreira militar. Não por acaso, há duas instituições tradicionais em cena: a alta sociedade e o exército, ambas com suas regras próprias e hierarquias que representam bem uma realidade pautada pelas aparências e que iria implodir na revolução de 1917.

Para se diferenciar de outras dezenas de adaptações da mesma obra literária, este novo “Anna Karenina” torna literal a ideia do high society enquanto um palco onde as pessoas performam para si e para os outros. A mise-en-scene contínua é abordada por Joe Wright como teatro da vida, filmado em um palco onde os cenários são montados e desmontados bem na nossa frente, criando um fantástico visual que não apenas casa bem com a história como permite momentos sublimes de transições temporais e territoriais feitas por um diretor que ama planos-sequência.

E assim temos momentos arrebatadores como a primeira dança entre Anna e Vronsky, ou a queda dele do cavalo, tudo intercalado com cenas dos bastidores da vida pública que se passam na coxia, atrás das cortinas do teatro, com suas sujeiras, cordas e aparatos cenográficos. É uma proposta arriscada e inteligente que fascina na primeira metade do filme, mas depois se torna apenas cansativa.

No palco da vida
No palco da vida

A metalinguagem acaba por chamar demais a atenção para si mesma (o bom elenco atua de forma teatral, com diálogos recitados pouco naturalistas), impedindo que a imersão seja completa. Se não há identificação com os personagens (o que acontece quando somos o tempo todo lembrados de que se tratam de atores em uma peça), não torcemos por eles e não sofremos com a situação de Anna, que na interpretação de uma branquíssima Keira Knightley (que funciona como um quase-fantasma que vaga por Moscou a partir da metade da história), soa como chata, mimada e careteira.

Mas isso não diminui a denúncia de que a mulher que dá título ao filme habita uma sociedade hipócrita em que existir significa ser visto. A discussão não apenas é válida em nossa época de redes sociais baseada na mera imagem, como nos faz questionar o teatro de vaidades que muitas vezes acabamos por também participar. Anna está presa às convenções de sua época, e ao tentar escapar pode pagar o preço de deixar de existir: não há vida possível fora do palco, longe das aparências. No triste mundo visto em “Anna Karenina”, fugir dos papéis já pré-definidos significa não poder mais atuar. É um racionalismo extremo que esmaga com mais potência as mulheres, que possuem uma gama menor de personagens a interpretar do que os homens. Anna faz a escolha pela emoção e cria um novo papel.

Para si mesma e para todas as outras que viriam depois.

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2 Comments For This Post

  1. Vinicius Lacerda Says:

    Acho que um dos motivos do filme ter ficado pior da metade para o final é causado pela brusca síntese feita pelo diretor nesta parte, especificamente. Ademais, a parte de Liévin, que de certa forma protagoniza o romance, é pouco explorada e esse pouco o faz parecer um personagem perdido no filme enquanto o papel de questionador das facetas filósoficas e sociais inerente a ele no livro, não existem no filme nem mesmo é sugerido. Achei o filme bom, somente bom. E como o livro é sensacional, acho que o longa merece ser, no minímo, ótimo.

  2. Jurandira Says:

    Vinicius, eu não te conheço. Mas você disse exatamente o que eu penso. Depois de ler o livro (maravilhoso) eu fiquei tão orfã que sai buscando as adaptações dele para cinema. Eu vi 3 filmes, incluindo esse último do Joe Wright. E todos eles menosprezam, ou diminuem muito, o Levine, que é o melhor personagem do livro. A Ana está ali para puxar a narrativa e amarrar os núcleos. Mas ela não é cativante (menos a Ana da Greta Garbo, porque Greta é amor e ficaria bem até fazendo papel de árvore)e fica empurrada pra gente em todos s filmes. E o Levine sempre fica um pouco pateta, quando ele é o “cara” da história. Mas, de qualquer forma, achei o filme lindo. Tem uma cena em que a Ana lê um bilhete enquanto a camareira anda em círculos ao seu redor que eu achei tão simples e tão poderosa que me fez parar de questionar a coisa excessiva do teatro. Mas, cada obra é uma obra.

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