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Entrevista: Ísis Valverde e Fabrício Boliveira

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28 de maio de 2013

Cinema, Ressonância

“Faroeste foi feito para virar um filme. Já era destinado pelo meu pai a virar filme”. A frase é de Giuliano Manfredini, filho de Renato Russo e presente na entrevista de divulgação de “Faroeste Caboclo”, filme que adapta a canção para as telas. Que se trata de uma narrativa cinematográfica, nunca houve dúvidas, mas mexer com personagens tão queridos pode ser complicado.

A música é conhecida e todo mundo deve ter seus próprios João do Santo Cristo e Maria Lúcia na imaginação. Mas ao adaptar “Faroeste Caboclo” para o cinema, foi preciso, é claro, dar rostos para o icônico casal da letra. E os escolhidos foram Fabrício Boliveira e Ísis Valverde, que possuem muito mais em comum com os personagens ficcionais do que se poderia supor: ela mais meiga, um pouco desconfiada, jeito perdido. Ele uma explosão de ideias, conflitos raciais e gana por passar uma mensagem que vá além da pura diversão, como se quisesse “falar pro presidente pra ajudar toda essa gente que só faz sofrer”. O Pílula conversou com os dois sobre a difícil tarefa de traduzir em história e imagem uma das letras mais famosas da música brasileira.

Maria Lúcia era uma menina linda e o coração dele pra ela o Santo Cristo prometeu

“Maria Lúcia é um personagem-fábula: seduz o ator, mas é perigoso ao mesmo tempo”, começa Ísis. “Tivemos muito cuidado com esse personagem que está no imaginário brasileiro. Mas tentamos fazer o nosso personagem, contar a nossa história”. A Maria Lúcia do filme tem muito mais destaque do que a personagem da música (que só aparece depois de mais da metade da história), mas a atriz descarta que só tenha se interessado pelo papel porque a garota ganhou mais espaço na narrativa: “Eu não aceito personagens pelo tamanho, mas se ele me toca ou não. Eu me apaixonei profundamente pela história , acho que a Maria Lúcia no filme cresce, como todos os outros personagens. Vejo ela importante para segurar a onda entre esses dois homens (João e Jeremias). Ela veio como uma rosa no meio desse campo seco”.  Fabrício vai além e propõe seu personagem como quase um estudo antropológico: “É uma história que está muito relacionada com a gente. Brinco que o João é um mito da formação de Brasília, do nordestino que vai pra cidade… É um microcosmo da formação de um povo”. O ator se empolga e as ideias parecem vir mais rápidas do que a capacidade de verbalizá-las: “Ver no filme que tem um ator que também é baiano, que também é negro e você vai depois comer uma pizza Marguerita no shopping, como se tivesse tudo resolvido… Não, aquilo ali podia ser eu, podia ser um amigo, a filha do patrão. A obra de arte é abrir questões – Jeremias não é um vilão, ele também está condicionado á situação. É pra gente abrir o olho: onde a gente tá? Olhar pra si: que tipo de história a gente pode contar?”. Sob o olhar atento e meio assustado de Ísis, Fabrício finaliza, sorrindo: “É uma questão aberta. Leve pra casa como dever” (risos).

Com a Winchester 22
Com a Winchester 22

Não entendia como a vida funcionava, discriminação por causa da sua classe e sua cor

“As cenas de preconceito social (no filme) são muito violentas”, afirma Fabrício, “talvez até muito mais do que um cérebro explodindo, que a gente sabe que é mentira. É uma história do Brasil, a gente tem essas mazelas. Uma das questões latentes do filme é a intolerância. Se a gente pensa no Feliciano hoje, o filme é condizente com o Brasil, essa dificuldade de dialogar com as diferenças. Hoje a gente pode pegar um menino da comunidade e pensar que assim como João ele só tem um destino: de pegar em arma. Mas o que é escolha e o que é destino? Como a gente pode lutar contra esse destino e ao mesmo tempo andar ao lado dele?”.

Se a via-crucis virou circo, estou aqui

Sobre a obra de Renato Russo, os dois são reverentes. “Era como se a gente vivesse dentro da música: uma coisa completava a outra”, diz Ísis. Fabrício continua: “É meu primeiro filme como protagonista e uma boa oportunidade de dialogar, como artista, com a poesia de outro artista, que é o Renato Russo”. A atriz completa: “Quando a avó do Giuliano (Carmem Manfredini, mãe de Renato) abriu a casa pra gente, eu bombardeei ela com perguntas. Porque nós concluímos que o João seria um alter-ego do Renato, e a gente descobriu que existiu um Jeremias, que em algum momento o sacaneou (Renato) e ele acabou dando esse nome na música. E eu queria saber quem era a Maria Lúcia! Né? (risos) E ela pegou uma foto, me mostrou e falou: ‘Não é a Maria Lúcia. São as Marias Lúcias’. E foi isso. Foram várias pessoas que eu tentei convergir e colocar no papel”, Ísis finaliza, meio encantada com a história que ajudou a contar.

“Faroeste Caboclo” estreia dia 30 de maio.

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