Star Trek – Além da Escuridão e além de uma vida inteira

Não sou tão velho como muitas vezes pareço em algum texto saudosista ou nostálgico (se bem que acredito que velhice é um estado de espírito e muitos já me chamam de rabugento por isso). Nasci em 1990 e muitas das coisas que assisti e que hoje são consideradas um clássico da cultura nerd foram transmitidas em Sessões da Tarde ou garimpadas quando já tinha autoconhecimento de minhas tendências para o entretenimento ficcional espacial e super-heroico.

Onde quero chegar com isso? Em meados dos anos 90, quando minhas preocupações vespertinas se resumiam a brincar de bola na rua, jogar vídeo game ou assistir a televisão, estava zapeando com o controle remoto e me deparei com a abertura de um filme. Seu nome? “Jornada nas Estrelas II: A Ira de Khan” (1982).

Simplesmente não consegui tirar meus olhos da televisão e não havia comercial que me fizesse levantar (e nem a vontade quase incontrolável de ir ao banheiro). Ao mesmo tempo em que estava preso àquela trama, me sentia meio confuso, pois aquele “Jornada nas Estrelas” era um filme baseado em uma série que eu detestava, provavelmente por ainda ser criança e não ter paciência com a eternidade de diálogos dos episódios (sim, pra mim cada episódio demorava dias para concluir de tantas falas que tinham). Poxa, não me culpem, com sete ou oito anos eu já tinha assistido à quadrilogia do Superman, a trilogia de Star Wars e alguns filmes do 007. Já sabia que um homem podia voar, que existiam guerras em galáxias muito distantes e que aqui na Terra, logo ali pertinho na Inglaterra, tinha um cara de smoking que chutava a bunda de comunistas e acabava com aquela tal de Guerra Fria (que eu nunca entendia porque não nevava sempre, já que ela era tão fria). Diálogos era o que menos me entreteria.

Mas “A Ira de Khan” era diferente. Ele tinha vingança. Tinha ódio. Tinha um vilão que era tão mais implacável do que o Darth Vader simplesmente porque ele buscava algo que achava certo. Meu Deus, ele era um vilão real! Quantas pessoas nesse mundo fazem um monte de coisas erradas só porque achavam que o que estão fazendo é o certo? O resto, aquela história de Projeto Gêneses, vida e morte de um planeta inteiro era só um pano de fundo. Tudo era pura vingança, e não só do vilão Khan (que só depois fui saber que ele não era um vilão exclusivo do filme, que já tinha aparecido no seriado, ainda na primeira temporada, daí o porquê de toda raiva), o velho Capitão Kirk também transbordava vingança, que eu consegui sentir no osso com o grito que virou um brado clássico de um trekker: “KHAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAN”.

O sacrifício de Spock em uma ogiva nuclear, um diálogo ao lado do Capitão mostrando que um faria o mesmo pelo outro, a morte do vulcano, a explosão do míssil Genesis, a morte de Khan. O filme acaba. Desliguei a televisão e a minha vida voltou a ser como era antes, só que agora eu tinha adicionado à minha singela coleção de filmes um que logo saberia ser um dos mais importantes do universo de Star Trek.

Anos depois, estamos em 2013, e lá vou eu assistir novamente um “segundo” filme do universo de Star Trek (que, por sinal, cresceu incrivelmente depois daquela tarde de 98, mas que eu não acompanhei fielmente por pura preguiça). “Além da Escuridão – Star Trek” é a continuação de uma reinvenção da série que começou pelas mãos do diretor J. J. Abrams em 2009. Admito que não gostei muito do primeiro filme (desta vez não pelos diálogos, mas pela necessidade de agradar os fãs com uma referência por minuto me irritou muito), mas considero que a solução de uma nova linha temporal estabelecida pelas mãos do vilão Nero foi excelente. Só que “Star Trek” (2009) era apenas o começo, o começo de uma nova série que trará uma nova visão àquela Jornada nas Estrelas que eu teimava em querer entender quando era pequeno, e da mesma forma que a série não me agradava e eu precisei ver um “segundo” filme para gostar, “Star Trek” não me agradou e precisei ver “Além da Escuridão”, o “segundo” filme para dizer: será uma das maiores experiências deste ano.

Não quero encher esse final de texto com spoilers (que circulam principalmente em volta do excelente ator Benedict Cumberbatch, que deixa qualquer um de boca aberta com sua atuação). Sites e sites já fizeram isso, pois “Além da Escuridão” teve muitas pré-estreias. Só quero deixar aqui minha singela opinião de fã. Não um fã de Star Trek e sim desse mundo do entretenimento nerd: dizer que depois de quinze anos eu consegui sentir uma nostalgia que há muito tempo não sentia. Cada frase, cada diálogo entre Spock e Kirk, cada sacrifício, cada grito, cada “renascimento” (seja literal ou não), me encheram com uma empolgação ímpar da qual só me deixava ter um pensamento: espero que daqui a algum tempo um garoto de oito anos assista a esse filme numa Sessão da Tarde qualquer, e que a abertura fantástica de “Além da Escuridão” (com aquela perseguição em uma floresta rosa e um vulcão ardendo em chamas) chame sua atenção e que ele se dê a chance de gostar desse universo, que se surpreenda com a vingança do filme e que guarde em sua memória aquilo que um dia será um clássico.

Então, se você não é fã de “Star Trek”, dê uma chance, e não me surpreenderia se você saísse da sala de cinema querendo ver tudo desse universo desde o primeiro piloto de 1965. E a J. J. Abrams eu só tenho uma coisa a dizer: Vida longa e próspera, amigo.

1 Comment

  • Rodrigo
    On 15 de junho de 2013 3:06

    Será Que No Próximo.. Eles Vão Trabalhar Explicar Porque Kirk Roubou Um Suporto Pergaminho… E Depois Mudaram O Futuro De Uma Civilização Quem Nem Tinha Sido Inventado A Roda !!

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