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O Homem de Aço

por

11 de julho de 2013

Cinema, Receituário

Man of Steel

EUA, 2013

  • Dir: Zack Snyder
  • Elenco: Henry Cavill, Diane Lane, Amy Adams, Michael Shannon, Kevin Costner, Ayelet Zurer, Russell Crowe, Harry Lennix, Lawrence Fishburne

Avaliação: ★★★☆☆ 

Não é fácil fazer uma boa história do Super-Homem. Representante ideal do modelo clássico de herói (e gênese dos super-heróis tradicionais), o filho mais famoso de Krypton não mente, não mata, está sempre disposto a salvar os inocentes (e os culpados também) e é sempre simpático. Ou seja, um chato certinho, o escoteiro azul que é a luz oposta à sombria psicopatia do humano Batman. Se isso não bastasse para torná-lo pouco interessante, o cara ainda voa, é indestrutível, tem visão de raio-x, solta laser pelos olhos, supersopro, é mais rápido que uma bala, mais forte que qualquer um e, além de tudo, é bonito. Perfeição resume bem o deus alienígena.

E o que fazer com um personagem perfeito, sem falhas físicas ou de caráter? Em termos dramáticos, muito pouco. Mas funcionou quando o Superman foi criado em 1938: para um país que finalmente se recuperava de uma trágica crise financeira, o homem de aço era a personificação dessa nova América (com o azul e vermelho da bandeira dos Estados Unidos em sua roupa), construída com a ajuda de imigrantes (um alien escrito e desenhado por um judeu de família lituana e outro de família holandesa) e forte, indestrutível (representação que só viria a se fortalecer com a II Guerra Mundial). Era esse otimismo que Clark Kent, o homem comum que no fundo era um super-herói, espelhava em uma época em que tudo parecia possível.

Mas aí o mundo foi ficando cada vez mais cínico, com terrores que nenhum herói parecia capaz de impedir, como campos de concentração, ditaduras, apartheid. E o Superman, ainda ícone máximo do heroísmo, foi perdendo espaço para heróis mais humanos, falhos como as sociedades se revelavam com o passar do tempo. Mas em momentos de descrença total, como a ebulição cultural e política nos anos 70, o personagem parecia ainda possuir alguma relevância, trazendo fantasia, esperança e otimismo como no clássico “Superman” de 1978.

O que nos traz a “O Homem de Aço”. Afinal, o que o herói poderia significar no mundo de hoje, quando passamos por uma crise parecida com a dos anos 30? Sob a batuta de Christopher Nolan, o diretor Zack Snyder aparece muito mais contido do que de costume, apostando no realismo para contar, mais uma vez (e com pegada sci-fi), como o bebê Kal-El é enviada para a Terra e cresce para salvar o mundo todos os dias. E todo o prólogo do novo filme é fascinante: Krypton, a criança que é concebida naturalmente, os dilemas do destino, tudo funciona muito bem para transformar este Superman em um herói trágico, com falhas, dividido, sem saber seu lugar no mundo (algo tão comum é uma contemporaneidade de identidades fragmentadas). Clark Kent é aqui mais do que nunca o alienígena, o imigrado, aquele deslocado que não consegue se encaixar. O vilão da vez é o general Zod, banido do mesmo planeta natal e que vem a Terra para dominar e se vingar. O imigrante agora é ao mesmo tempo a salvação e a ameaça…

Premissa ótima, direção empolgante, mas aí… o roteiro de David Goyer não dá conta de tudo que o filme quer ser. O cerne da história, que discute o lugar no mundo de alguém como o Superman, apenas arranha na relação entre o fazendeiro (o homem simples do campo que é livre para fazer escolhas) e o militar (o general que nasceu com um objetivo definido ligado à disciplina). Não por acaso, a militarização possui papel ativo na trama, seja na forma do exército dos Estados Unidos, seja no grupo liderado por Zod, representando a força que ordena, busca encaixar aquilo que escapa. E nada escapa mais do que um alien superpoderoso, mas o roteiro parece de repente se esquecer de desenvolver suas boas premissas e apostar tudo nas explosões.

(Super) homem e país...
(Super) homem e país...

Então “O Homem de Aço” se torna uma espécie de “Transformers” e deixa de ser um filme do Superman (pode colocar ali qualquer outro personagem que dá na mesma), com tanta ação que chega a cansar. É tudo gigantesco, mas não é épico. Snyder emula Michael Bay e confunde grande com grandioso: as explosões são vazias, os personagens não importam. O Kal-El que eu conheci nunca participaria da destruição de prédios que certamente resultariam na morte de milhares de pessoas.

Por mais que em alguns momentos Henry Cavill consiga fazer do personagem o típico caipirão americano, o ator nunca acerta totalmente o tom, estando ou muito exagerado ou sem expressão nenhuma. Sem roteiro e sem um bom trabalho de ator, “O Homem de Aço” se torna um grande espetáculo sem coração. É curioso como o filme cai exatamente depois que o herói aparece vestido em seu uniforme pela primeira vez, o que só reforça como a alma da produção está no Jonathan Kent de Kevin Costner. São nos momentos do passado de Clark que entendemos melhor o que é ser uma criança que quase enlouquece por escutar demais, e como os conselhos do pai formam o caráter de um homem que é também um herói.

As referências à mitologia cristã são tão óbvias que mais chamam a atenção para si mesmas do que ajudam na condução da história,  e os furos do roteiro (como se esconde uma nave espacial de uma criança que vê através das paredes? Zod fala inglês?? De onde veio o uniforme azul com capa???) são vergonhosamente tapados por cenas de ação que pulam de uma para outra de forma incessante e pelo fantasma/holograma/pen-drive do Jor-El (Crowe) que é a muleta narrativa mais usada para explicar a história.

Funcionando como uma espécie de “saga alternativa” do universo do Superman, “Homem de Aço” até possui boas cenas de ação (a luta com Zod pelos céus de Metrópolis realmente impressiona), mas o exagero na adrenalina e destruição dá mais foco ao aço e menos ao homem, deixando em segundo plano aquilo que fez deste o personagem mais famoso das histórias em quadrinhos: a metáfora do fazendeiro honesto que trabalha diariamente e que tira suas força dos raios de sol que castigam a lavoura e que é capaz de qualquer sacrifício para defender a terra que o sustenta. Mas Hollywood parece ter uma certa dificuldade em perceber ideias simples como essa.

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