A Vida secreta de Walter Mitty

Nossa avaliação
The Secret Life of Walter Mitty (2013)
The Secret Life of Walter Mitty poster Direção: Ben Stiller
Elenco: Ben Stiller, Kristen Wiig, Jon Daly, Kathryn Hahn


Já sentiu aquela leve irritação interna quando alguém folheia rápida e desinteressadamente o álbum de fotos de uma viagem sensacional que você fez, como se ele fosse uma revista Caras? Imagens registram momentos, mas não experiências. Ninguém sabe o valor e a beleza daquelas fotos como quem as viveu. A sensação do “folheador” é a mesma do espectador ao assistir a “A vida secreta de Walter Mitty”.

O filme conduz seu protagonista por uma série de locações e experiências belíssimas. Mas assim como lindos cartões postais sem valor sentimental, elas são apenas imagens que o público admira, sem realmente experienciar. Isso porque o longa se contenta em seguir uma fórmula efetiva, mas previsível, sem jamais se aprofundar em seus personagens.

Atualizando o conto de James Thurber, a trama acompanha o Walter Mitty do título (Stiller). Editor de fotografia da revista Life, ele tem a mania de sonhar acordado com grandes aventuras e com sua paixão, a contadora Cheryl Melhoff (Wiig), enquanto vive uma existência monótona e solitária. Quando a foto que será a capa da última versão impressa da revista (rip jornalismo) desaparece, o “negativo 25” do grande fotógrafo Sean Penn O’Connell se torna um Rosebud que ele vai perseguir por alguns dos mais belos e exóticos lugares do planeta.

Mochilar é viver.

“A vida secreta de Walter Mitty” está longe de ser um filme ruim. A fotografia de Stuart Dryburgh capta imagens lindas, não só dos cartões postais que Mitty visita, mas também da beleza arquitetônica de Nova Iorque que o protagonista não consegue enxergar, preso em sua rotina e seus problemas mundanos. E a excelente trilha musical, de David Bowie a Arcade Fire, é o que chega mais próximo de arrebatar emocionalmente o público.

Especialmente nesta época de fim de ano, a mensagem de “carpe diem” – abandone seus problemas, pegue um avião e vá para a Groenlândia – deve fazer o espectador que deixar o cinismo na entrada do cinema sentir uma renovada paixão por viver na saída. O problema é que essa mensagem é martelada repetidas vezes durante o filme, de forma nada sutil e nem um pouco original. A única realmente necessária é a melhor cena do longa, em que Sean Penn rouba o filme inteiro com um discurso anti-Instagram que deveria ser exibido antes de todo show pelo resto dos tempos.

Além disso, Stiller – que também dirige a produção – e o roteiro de Steve Conrad simplificam todas as questões de Mitty a uma passagem de avião (ou duas). Só que o longa se torna um road movie em que o simples estar ali parece ser o bastante, sem que o espectador jamais consiga mergulhar na transformação do protagonista, permanecendo na superfície junto com o resto do filme.

Em seu convencionalismo, “A vida secreta de Walter Mitty” insiste em desvendar e revelar todos os mistérios sobre a “quintessência da vida”, quando seria mais efetivo simplesmente questionar e instigar o espectador a encontrar suas próprias respostas. Não é um filme ruim. Mas podia ser excelente.

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