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Questão de tempo

por

17 de dezembro de 2013

Cinema, Receituário

About time

Reino Unido, 2013

  • Dir.: Richard Curtis
  • Elenco: Domhnall Gleeson, Rachel McAdams, Bill Nighy, Lydia Wilson, Lindsay Duncan, Richard Cordery, Margot Robbie, Joshua McGuire, Tom Hollander, Will Merrick, Vanessa Kirby, Tom Hughes

Avaliação: ★★★☆☆ 


Um garoto encontra uma garota. Tem viagem no tempo. É estrelado por Rachel McAdams. E escrito e dirigido por Richard Curtis (“Notting Hill”). Mas não é uma comédia romântica. Ou é. Por cerca de 50 minutos. Depois, “Questão de tempo” se torna uma produção sobre um amor diferente: entre um filho e seu pai, que tenta ensiná-lo como equilibrar os esforços de viver uma boa vida e ser uma boa pessoa.

O filho é Tim (Gleeson) que, ao completar 21 anos, é informado pelo pai (Nighy, que deveria estar em todos os filmes para sempre) de que os homens da família têm o poder de viajar no tempo. As regras são marromenos explicadas (e flexibilizadas e entortadas pelas necessidades do roteiro), mas o que realmente interessa ao protagonista é usar o dom para encontrar o amor da sua vida: desejo realizado na jovem Mary (McAdams).

As regras da comédia romântica ditam que ele deve conquistá-la, fazer um monte de burradas, perdê-la e casar com ela no final. Tim faz algumas burradas e transpõe obstáculos típicos do gênero. Mas mesmo quando uma ameaça real aparece na forma de um encontro fortuito com seu primeiro amor (a estonteante e heterossexualizante Margot Robbie) – criando a expectativa de uma discussão moral sobre os poderes do protagonista – o longa resolve logo o problema, botando um anel nele.

Queria ser inglês e filho do Bill Nighy o/
Queria ser inglês e filho do Bill Nighy o/

Porque esse não é o filme que Richard Curtis quer fazer. “Questão de tempo” é sobre o depois do “felizes para sempre” e os pequenos desafios cotidianos para mantê-lo. Os poderes de Tim são nada mais que uma metáfora turbinada para os esforços diários de corrigir percursos, tentar de novo e ser a melhor versão de si mesmo. Como o longa deixa claro, são apenas essas coisas que podem ser modificadas. As grandes – amor, vida, morte, perda – estão fora do nosso controle.

Se por um lado ganha densidade temática e foge dos clichês do gênero com essa escolha, por outro ela deixa os riscos da trama extremamente baixos. O condicionamento causado pelos vários exemplares de viajantes do tempo deixa o público à espera de uma grande reviravolta / “efeito borboleta”, que nunca vem. McAdams não tem muito o que fazer com uma personagem sem muitos conflitos, e quem carrega o filme é Gleeson – não tão bonito quanto Hugh Grant, nem tão charmoso quanto Colin Firth, mas com um desajeito ruivo e inglês que torna Tim irresistivelmente simpático – ajudado por um sutil e afinado Bill Nighy.

Ficando no meio do caminho entre romance e drama familiar, “Questão de tempo” talvez sirva mais para uma tarde de domingo na TV a cabo. É um filme leve, bonito e evanescente como uma bolha de sabão. Os temas são interessantes, mas nunca aprofundados e são deixados bem claros no off final. Os personagens vivem no “mundo encantado de Richard Curtis”, um universo estranho, atemporal, em que t.A.T.u. e “Dillemma” ainda tocam em festas, famílias são legais e unidas e todas as pessoas são inglesas sarcásticas e com ótimos diálogos. É pra fazer você se sentir bem. Curtis deixa o lado escuro do mundo para Haneke.

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