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Um playlist mnemônico para 2013

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27 de dezembro de 2013

Música, Overdose


Filmes são uma experiência por si só. Entrar no cinema é ignorar toda a vida, os problemas do lado de fora, e se transportar para um outro universo, levando junto experiências que só se manifestam ao se transformarem em sentimentos por catarse. Por duas horas, tudo o que importa é a sala escura.

Já músicas são diferentes. Canções são metonímicas por natureza. São sempre parte de algo maior, de um momento, uma história, uma narrativa. Por isso, músicas são ferramentas mnemônicas bem melhores que filmes para se lembrar de um ano ou um tempo específico. Você pode estar em um bar, um aeroporto, numa trilha no meio do nada e quando aquela canção tocar, você vai recordar aquela festa, aquele beijo, aquela decepção, aquele relacionamento, aquele trabalho…

Músicas são partes intrínsecas do nosso dia a dia. Então, nada melhor – ao pensar um top 10 2013 – que imaginar um playlist mnemônico das canções que, não importa onde ou quando tocarem, nos transportarão de volta para quem nós éramos e o que sentíamos nesse ano. É claro que experiências e memórias são altamente pessoais, por isso a lista abaixo é a minha lista – que eu espero que inspire de alguma forma e te leve a compartilhar a sua também.

10 Bullet – Franz Ferdinand (Right thoughts, right words, right action)

Uma música para lembrar que, apesar de estar na porta dos 30, você ainda está na casa dos 20. E daquela única vez que você animou a sair no ano e ficou esperando por ela a noite toda, mas o DJ só tocou bandas novas – e você resmungou que essa juventude de hoje não sabe mais o que é bom.

9 Blurred lines – Robin Thicke feat. Pharrell Williams (Blurred lines)

Sabe aquele tio seu que não percebeu que o tempo dele passou, Ronaldinho (AWAY, 2009)? Que ficou chegando nas amigas das filhas e/ou sobrinhas nas festas de fim de ano enquanto você observava achando ridículo e quase errado… porque talvez elas fossem menores de idade? Robin Thicke é esse cara. “Blurred lines” é a música escrita do ponto de vista do sujeito que a Lily Allen estava zoando em “Knock’em Out”. E está aqui nesta lista pelo direito pop de ser hilariamente errado.

8 The End – Fitz & the Tantrums (More than just a dream)

No meio do enxame de gemas pop de More than just a dream, “The End” talvez seja a música mais equilibrada e mais completa no conjunto letras-harmonia-voz do ótimo álbum do Fitz & the Tantrums. É daquelas canções para tocar em vídeos-retrospectivas de momentos marcantes do ano, enquanto a galera se congratula por ter sobrevivido a mais 12 meses. (E por algum motivo, toda vez que escuto essa música, penso em uma promo de “Girls” com o elenco principal da série formando uma air band. Vai entender.)

7 Sirens – Pearl Jam (Lightning bolt)

“Sirens” é daquelas músicas, como “Black”, que vai ser odiada por ser amada demais. Por ser boa demais. Em alguns anos, ela vai tocar na entrada de casamentos coxinha e em montagens chorosas no “Caldeirão do Huck” e os blasés vão se orgulhar em chamá-la de baranga. Não é. É uma prova de como o Pearl Jam é uma das poucas bandas – ao contrário do U2 e do Coldplay – que manteve sua integridade e a qualidade de sua música, com um talento quase incomparável para fazer baladas que, assim como eles, resistem a rótulos e ao passar do tempo.

6 Mirrors – Justin Timberlake (The 20/20 Experience)

“Mirrors” é a melhor música que o Backstreet Boys nunca gravou. Qualquer um que tinha 15 anos em 1999 vai sentir uma espinha nascer no rosto quando ouvir essa pérola pop de Justin Timberlake. Da baranguice sincera ao refrão grudento, “Mirrors” é tudo de melhor e de pior que o fenômeno das boy bands tinha a oferecer. E o fato de que a canção é basicamente JT dizendo a uma garota que a ama porque ela é um espelho dele sintetiza a egotrip atual do cantor, com a fixação em músicas de 10 minutos e álbuns duplos desnecessários. Volta aqui pra baixo pra ser pop igual a gente, JT!

5 No. 1 Party Anthem – Arctic Monkeys (AM)

O título de “No. 1 Party Anthem”, uma das baladas mais melancólicas da história do Arctic Monkeys, talvez seja a melhor ironia inglesa de 2013. O grupo que se consagrou com hinos dançantes para baladas faz a acompanhante perfeita para sentar com um copo de gim e um cigarro na mão, observando de longe a porra louquice da última década e se dando conta de que os 20 anos estão chegando ao fim. É o fim da festa. O amor perfeito não deu certo. O emprego ideal te deixou na pindaíba. E Alex Turner, rei do sarcasmo, batiza essa elegia de “No. 1 Party Anthem”. O rock-rap-indie de “R U Mine” recebeu todos os louros, mas essa aqui é a canção genial do ótimo AM.

4 Royals – Lorde (Pure Heroine)

Ok, o fato de que Lorde acabou de assinar um contrato milionário com a Sony, tornando-a eternamente hipócrita toda vez que cantar este que é seu maior hit, diz tudo que você precisa saber sobre a neozelandesa kiwi. Ela é uma adolescente que escreve letras adolescentes sobre uma visão de mundo nostalgicamente adolescente. E que ela tenha feito sucesso com isso sem gravar um CD inteiro falando de amor, sem twerking e sem pedaços de pano como roupa é prova de seu talento. “Royals” é um amontoado de aliterações e autoafirmações debutantes cadenciadas num ritmo grudento e culminando em um refrão cantado por uma das vozes mais agradáveis do ano. Que o resto do álbum seja tão bom quanto é só para esnobar. P.S.: passei horas em 2013 tentando entender o que ela canta na parte “but every song…/but everybody…”. Nunca vou esquecer.

3 I love it – Icona Pop (This is… Icona Pop)

De “Girls” para inferninhos no mundo inteiro, “I love it” foi o hino oficial das pixxxtas em 2013. Grudenta, gritante, divertida, rebelde na medida certa do foda-se com uma falta de sentido que a impede de ser ridícula, ela é a música perfeita para gritar com os amigos depois da quarta cerveja. E mesmo você trintão, que odeia todas as coisas pop-chiclete, deve um agradecimento eterno à dupla sueca por tornar não simplesmente aceitável, mas doido demais assumir sua idade na balada, com a antológica “You’re from the 70s, but I’m a 90s bitch”, uma das frases mais icônicas do pop em 2013.

2 Closer – Tegan & Sara (Heartthrob)

É assim que se faz pop: três minutos, uma declaração de amor nada elaborada (I wanna hold your hand, lembrem-se) e uma rima colegial com palavras altamente nonsense. Physical, Critical e typical nunca foram tão divertidas quanto nesse petardo das gêmeas Tegan & Sara. “Closer” é tudo que Britney, Miley e afins tentam fazer, mas não conseguem porque estão pensando no remix antes mesmo de fazer a música. Se você escuta esse refrão e seus pés não sentem a mínima vontade de pular descontroladamente, nós não podemos ser amigos.

1 Get Lucky – Daft Punk feat. Pharrell Williams (Random Access Memories)

É isso, galera. Daqui a 15 anos, a música que vai tocar e te fazer lembrar “oh, é mesmo, 2013” é, sem sombra de dúvidas, este hino setentista do Daft Punk. A essa altura, você não deve estar aguentando mais ouvir “Get Lucky” – em parte porque versões (horrorosas) profanaram sua simplicidade pop, em parte porque ela tem tipo uns seis minutos. Mas ela tem também o refrão mais genial do ano. A batida mais perigosa para quadris com encosto de chacrete. E a melhor pior letra escrita por um bêbado às 3h da manhã. Por isso, quando alguém te dizer que passou a noite acordado até o sol, passou a noite acordado para pegar alguém, passou a noite acordado para se divertir, ou passou a noite acordado para se dar bem, você vai pensar na hora… 2013.

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