A A
RSS

Looking 1×02 – Looking for uncut

por

27 de janeiro de 2014

Receituário, TV

Aos 30 anos, a gente quer mudar, ou parecer que está mudando – só que quanto mais tenta, mais claro fica que seremos sempre as mesmas pessoas com os mesmos defeitos cometendo os mesmos erros. Para demonstrar isso, este episódio começa com uma mudança: Agustín deixando o apartamento que dividiu com Patrick por oito anos para ir morar com o namorado no subúrbio. Ele sai da cidade reclamando de como São Francisco mudou – “cheia de cupcakes superestimados e tacos de kimchi”, reclamação originada da frustração de, aos 30, estar no mesmo lugar que você adorava aos 20.

Felizes para s...até quando?
Felizes para s...até quando?

Em Oakland, Agustín se recusa a deixar o namorado pendurar uma ilustração (gay fact # 1 “um unicórnio com um pinto no meio, SO CUTE!”) que ele fez quando tinha 17 anos. Ao mesmo tempo, porém, ele se gaba do sexo a três do episódio passado e faz questão de deixar claro que não está (totalmente) domesticado. Agustín faz todo um discurso sobre como todo relacionamento se abre eventualmente e que a traição é um caminho inevitável – para gays ou héteros – então é melhor que ela seja consensual.

Basicamente, é um monólogo em que ele ridiculariza e despreza toda a ideia de comprometimento e casamento que está no fundamento de sua mudança. E que revela a visão efêmera que gays têm de relações a dois. O que – somado ao fato de que família é um Voldemort que não deve ser mencionado, como Patrick mostra em seu encontro com Richie – explica porque amizades, como a de Agustín e Patrick, são tão centrais nesse universo.

Mas é uma fala que pontifica que, para o recém-casado, as coisas mudam para continuarem as mesmas. É uma incongruência que fica clara no desconforto silencioso da decisão de ficar em casa com o namorado ao invés de sair para a balada, ou quando Agustín pendura a ilustração no fim do episódio. Ele e Frank não têm a mínima ideia do que estão fazendo, ou segurança de que querem fazer. Mas os dois vão fake it until they make it. Ou não.

Um encontro quase perfeito.
Um encontro quase perfeito.

O episódio também reforça o MO de Patrick em encontros: encher a cara e começar a falar descontroladamente até fazer inuendos sexuais – só que de um jeito que não o faz parecer sexy, mas sim um promíscuo superficial e enrustido que só pensa naquilo. Depois de Agustín provocar sua curiosidade dizendo que Richie provavelmente não é circuncidado (gay fact #2 Patrick pensa no pênis do peguete antes de saber sobre sua família ou notar que ele tem uma medalhinha religiosa), ele fica obcecado com a informação, googlando imagens e passando o encontro inteiro pensando em chupar o moço.

Richie pergunta sobre a família de Patrick, se ele veio do Colorado, fala sobre seu trabalho. Mas o protagonista quer ser o “gay moderno” que tem um fuck buddy, paga shots pro peguete, dança Erasure na pista e leva o cara pra casa no fim da noite. E claramente ele não é essa pessoa. Quando Richie percebe o quanto Patrick está tentando e o quanto não está sendo, ele vê que os dois querem coisas diferentes. E vai embora, assim como o médico da semana passada.

O protagonista ainda não sabe fazer a separação entre intimidade e sexo que Agustín explica no início do episódio – mais especificamente, ele não sabe ler quando seu parceiro quer uma coisa ou outra. E enquanto não entender isso, Patrick vai continuar sendo o rapaz do interior tentando mudar seu perfil para “gay descolê” – e parecendo alguém extremamente vazio enquanto isso.

A vida: um pé e uma bunda.
A vida: um pé e uma bunda.

Já Dom se encontra com Ethan, o ex para quem ligou na semana passada – e o exemplo perfeito da mudança radical para uma nova forma de si mesmo. Ex-drogado, Ethan é agora um corretor de imóveis de Los Angeles, que usa terno e bebe chá gelado. Mas que continua pedindo para o ex pagar sua comida e que faz questão de pedir a clássica desculpa “você foi um erro terrível na minha vida, mas todas as coisas horríveis que eu te fiz foram indispensáveis para eu me tornar a pessoa sensacional que sou hoje”.

Claro que Dom se sente uma merda após o encontro e faz o que 90% dos gays faria: gay fact # 3 trepa com um cara do Grindr. Ou, nas palavras da sua roommate-amiga-enfermeira fantástica, “fucks the pain away with a member from the Wicked cast”. Quando ela confronta Dom sobre oito mil dólares que ele deu a Ethan quando os dois estavam juntos, o cara vai atrás do ex novamente e pede o dinheiro de volta. Um perfeito manipulador emocional, Ethan diz que o dinheiro foi dado, não emprestado. E Dom “não pode culpar aos outros, mas só a si mesmo por seus erros. Foi o que eu aprendi”.

É no final dessa cena que “Looking” mostra porque não é só “mais uma série de TV”. Qualquer outro seriado faria Dom confrontar Ethan na frente de seus clientes em um monólogo perfeito com todas as coisas que ele merece ouvir. Mas a vida não é assim. A gente nunca sabe o que dizer na hora certa. Então, o roteiro e a direção de Andrew Haigh fazem ele gaguejar um grito quase balbuciado: “uma vez drogado, sempre drogado”. Uma fala meio patética que, se envergonha o alvo, faz seu dono parecer ainda pior. Porque as coisas nunca mudam: na relação dos dois, Ethan continua entrando com o pé e Dom com a bunda.

Tags: , , , , , , , , , , , , , ,

2 Comments For This Post

  1. L. Says:

    Seus reviews do seriado estão ótimos. Muito melhores do que os gringos, como o The Guardian que continua batendo na tecla de que “Os gays não estão sendo representados na série”. O próprio criador de Looking disse que não é possível representar todos os tipos de gays no seriado, mas que iria contar a história desses três personagens em questão. Enfim, estou gostando bastante da forma como você tem transposto a situação que os três têm vivenciado ao cotidiano de “nós” do mundo real. hehe.

  2. Daniel Says:

    Obrigado, L.! Também acho impossível representar todo o espectro gay e um pensamento bastante limitado achar que é. Mas estou muito empolgado com uma série com três personagens nos quais eu me enxergo bastante. Obrigado por ler os textos =)

Leave a Reply

*

Pílula no Facebook

Enquanto isso, no Twitter

Arquivos

Pílula no Youtube

Categorias

-->
  • A gente
  • Homeopatia
  • Overdose
  • Plantão
  • Receituário
  • Ressonância
  • 2019
  • 2018
  • 2017
  • 2016
  • 2015
  • 2014
  • 2013
  • 2012
  • 2011
  • 2010
  • 2009
  • resume writing services