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O Lobo de Wall Street

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17 de janeiro de 2014

Cinema, Receituário

O Lobo de Wall Street

The Wolf of Wall Street, EUA, 2013

  • Dir.: Martin Scorsese
  • Elenco: Leonardo DiCaprio, Jonah Hill, Margot Robbie, Kyle Chandler, Matthew McCounaghey, Jean Dujardin, Cristin Milioti, P.J. Byrne, Kenneth Choi, Henry Zebrowski, Jon Bernthal

Avaliação: ★★★★☆ 


De criação católica, que o levou a cultivar sérias aspirações ao seminário na juventude, Martin Scorsese é fascinado por personagens com pouco ou nenhum senso moral. Max Cady, James Conway e Frank Costello são encarnações de um hedonismo ausente de toda a culpa cristã que assombrou o cineasta por toda sua vida. Jordan Belfort é a mais nova adição ao grupo.

Não por acaso, o mais belo plano de “O Lobo de Wall Street” é um plongée absoluto que parte do teto, descendo pelo corpo nu do protagonista, e o acompanha até a janela em meio aos destroços de uma orgia, numa suíte destruída em Las Vegas. No semiépico enquadramento final, Leonardo DiCaprio se torna o verdadeiro rei do mundo, 15 anos depois. Belfort não teme nenhum Deus porque ele é um deus – e sua religião é o dinheiro.

Baseado na história real narrada no livro escrito pelo próprio Jordan, o longa conta como ele se tornou milionário fazendo uso de toda forma de práticas ilegais, escusas e maquiavélicas no mercado de ações dos anos 80 e 90. O universo de Belfort é uma bolsa de valores subvertidos: mulheres são vaginas e troféus a serem ostentados; drogas são combustível; dinheiro é pai, filho e espírito santo, alfa e ômega – o princípio e um fim.

Fazer um filme para mostrar que isso é errado e imoral não seria apenas óbvio, mas entediante. Scorsese não faz longas para julgar seus personagens, mas para colocar o espectador dentro de suas mentes. “O Lobo” funciona porque você passa três horas com um exemplar de tudo que há de errado com o mundo e, quando Belfort é confrontado pelo FBI, está torcendo para que ele se safe.

Um minuto de silêncio em respeito à beleza heterossexualizante de Margot Robbie.
Um minuto de silêncio em respeito à beleza heterossexualizante de Margot Robbie.

Porque o filme mostra que o que Jordan fez é divertido. É divertido ter dinheiro para comprar tudo que se quer, comer mulheres gostosas, enriquecer às custas da estupidez alheia, é divertido ser esperto e inescrupuloso o bastante para provar que as leis e regras se aplicam aos outros, mas não a você.

Por isso, o longa é uma das comédias mais escrachadas da carreira do diretor. Isso vem com alguns poréns. A liberdade de improvisação dos atores implica num excesso de closes e cortes que, somado à ausência da típica trilha musical scorseseana, não tem a mesma fluidez ritmada da parceria entre o cineasta e a montadora Thelma Schoonmaker. E a fotografia impressionista de Rodrigo Prieto não é a melhor escolha para o estilo expressionista do diretor, resultando num visual competente, mas nada antológico. O vermelho característico de seus filmes é substituído por figurinos e um design de produção azul – não a cor mais quente, mas sim a mais próspera – do céu que é o limite atingido por Belfort.

A maior falha do longa, porém, é a relação entre Jordan e seu parceiro Danny. O roteiro nunca justifica a insistência do protagonista em se associar e perdoar um personagem irritante que só faz burradas o tempo inteiro. Jonah Hill tenta ser Joe Pesci, mas o filme é todo de De Niro DiCaprio, que tem em uma sequência envolvendo qualuudes e Popeye a cena icônica de sua parceria com Scorsese.

Mas “O Lobo de Wall Street” triunfa ao se recusar a fazer julgamentos morais. Sem dourar a pílula, o filme prefere encarar a realidade: ao invés de ser julgado, o “self-made man” – um dos pilares fundadores dos EUA – continua a ser venerado pelo país que ele quase destruiu. O que não deixa de ser hilário.

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