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12 Anos de Escravidão

por

21 de fevereiro de 2014

Cinema, Receituário

12 Years a Slave

EUA, 2013

  • Dir: Steve McQueen
  • Elenco: Chiwetel Ejiofor, Michael Fassbender, Lupita Nyong'o, Paul Dano, Benedict Cumberbatch, Quvenzhané Wallis, Sarah Paulson, Paul Giamatti, Brad Pitt

Avaliação: ★★★★★ 

O primeiro plano de “12 Anos de Escravidão” mostra pelo menos 17 escravos, um ao lado do outro, em pé, olhando atentos para a frente. O segundo plano do filme mostra um único homem, branco, sozinho, explicando a eles o trabalho a ser feito. 17 contra um? Por que eles não se rebelam? O confronto de imagens estabelece a dinâmica das próximas duas horas: há algo muito mais potente do que a simples relação de força física por trás da tragédia da escravidão.

A poderosa obra de Steve McQueen (de “Shame”) conta a história real de um desses escravos, Solomon Northup, negro livre na Nova York de 1841, em um período em que o norte dos Estados Unidos vivenciava uma realidade diferente do sul do país, ainda escravagista. Enganado durante uma suposta viagem de negócios, Solomon acorda de uma bebedeira já acorrentado, pronto para ser vendido.

A partir daí, “12 Anos de Escravidão” vai usar uma saga pessoal para investigar todo um sistema de domínio baseado na diferença étnica. Chiwetel Ejiofor tem uma interpretação minimalista e desoladora, usando mais o olhar e menos as palavras para expressar toda a dor e espanto com a sua situação. Ele serve como nosso guia para uma realidade abominável, já que sua consciência de homem livre facilita a identificação com o público, chocando-se com o que para muitos eram eventos cotidianos. Neste sentido, sua característica “diferenciada” é fundamental para que a escravidão surja com toda a sua força: o tão criticado discurso do “um em um milhão” de “Django Livre” aqui aparece ainda mais esvaziado, já que Solomon é letrado, conhecedor das virtudes da liberdade. Mas nem ele consegue se libertar.

Um rosto que contém a dor do mundo.
Um rosto que contém a dor do mundo.

McQueen dá preferência a planos longos e abertos, dando-nos tempo para não apenas ver a imagem, mas refletir sobre ela. A temporalidade impressa na tela vai aos poucos pesando sobre os personagens, um tempo que demora passar, uma dor que parece não ter fim, e que para a maioria dos negros da época durou muito mais do que os 12 anos do título. A intenção parece ser a de deixar claro que não havia a possibilidade de insurgência: os brancos do filme são patéticos, figuras tão estúpidas quanto frágeis, facilmente derrotadas por qualquer um de nós. Mas não são eles que dominam os escravos pela força bruta: o que mantém aqueles homens e mulheres acorrentados é todo um sistema que sufoca, constrangendo apesar dos amplos espaços das fazendas.

Os vilões não são o mercador de Paul Giamatti, ou o capataz histérico de Paul Dano e nem mesmo o senhor masoquista à beira da loucura feito por um assustador Michael Fassbender. O vilão aqui é a própria escravidão. É ela que pesa sobre o filme, fazendo de todos estes homens brancos apenas o sintoma de uma sociedade doente. O terror mostrado em “12 Anos de Escravidão” não está tanto nas angustiantes cenas de tortura física e mental, mas naquilo que não é visto, apenas sentido: cultura, economia, política e poder relacionando-se de forma amoral para permitir que seres humanos dominem outros seres humanos.

Há um momento, já ao final, em que a câmera se fixa no rosto de Solomon em uma carruagem. E ali a expressão de Chiwetel Ejiofor contém todo o mundo. Um mundo de desesperança, de dor, e de uma luta aparentemente impossível contra um inimigo invisível. Além de ser uma obra cinematográfica extremamente eficiente, “12 Anos de Escravidão” é também um manifesto que nos força a ver e refletir.

E quando contrapomos aquele plano que abre o filme com a imagem dos seis negros que o fecha, percebemos que apesar da renovação que um nascimento traz, as gerações futuras ainda sofrem – na pele – com os resquícios daquele sistema insano. Uma ferida mais potente do que o corte na carne, e que insiste em permanecer aberta. Ainda hoje.

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1 Trackbacks For This Post

  1. Nós | Pílula Pop Says:

    […] desce no final. É um arco que Nyong’o – no primeiro trabalho à altura de seu talento desde “12 Anos de Escravidão” – interpreta de forma igualmente angustiante e introspectiva, sem jamais entregar ao público […]

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