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Leonardo DiCaprio, Eddie Vedder e a sua avó

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6 de março de 2014

Cinema, Homeopatia, Música

Ator cool não ganha Oscar. Essa é a tese de um artigo da “Vanity Fair” para explicar as cinco indicações derrotadas que Leonardo DiCaprio completou no domingo. Segundo a teoria, esse tipo de ator pode ganhar milhões de dólares e de fãs, mas nenhuma estatueta. Atores cool fascinam o espectador, mas não o convidam para se colocar no lugar deles. Há sempre um mistério, uma sensação de que você nunca vai ser esse cara.

A Academia de Hollywood não quer caras cool, segundo o jornalista James S. Murphy – provavelmente bem menos cool que o homônimo ex-LCD Soundsystem. Quer atuações com os quais eu, você e sua avó possamos nos identificar. Ele até cria a esperta Linha Pitt-Hanks, com dois extremos: Brad Pitt, super cool e sem Oscar como ator de um lado, e Tom Hanks, nada cool e com dois Oscars do outro. Leonardo DiCaprio, diz Murphy, força demais em sua carreira para ficar do lado Pitt da linha.

É até possível que DiCaprio um dia ganhe um Oscar e não inspire mais gifs assim. O artigo cita dois ícones cool, Paul Newman e Humphrey Bogart, que ganharam depois dos 50 anos, quando a “coolzice” deles já estaria um pouco desgastada pelo tempo. Brad Pitt acaba de completar as cinco décadas elegíveis para a virada. Ele ganhou um Oscar, mas ainda como produtor. Será que o destino de Leonardo DiCaprio, 39 anos, é receber a estatueta careca já careca, depois dos 50? Leia o artigo e aposte no bolão de longo prazo. 

Se Los Angeles fosse Seattle
Quem completa 50 em dezembro de 2014 é Eddie Vedder – que, aliás, talvez faça shows no Brasil em maio, e talvez não. Em entrevista à “Rolling Stone”, o jornalistou Brian Hiatt pisa em ovos para tentar saber do líder do Pearl Jam se, aos 49 anos, depois de gravar um disco com voz e ukulele, ele está mais aberto à “suavidade”… “Sentimentalismo”, completa o próprio Eddie Vedder, antes de uma explicação peculiar de como ele estaria, finalmente, cagando para ser cool.

“Durante anos, o lance era fazer jogos de palavras e expressar essas emoções, mas de um jeito enigmático, para que Mark Arm do Mudhoney mantivesse um mínimo de respeito por mim”, diz Vedder. Mark Arm é o cara que não ficou famoso e também não se vendeu, mantendo a essência cool no evangelho de Seattle. Se Hollywood fosse Seattle, a linha do cool se chamaria “Arm-Vedder”. Só que o líder do Pearl Jam sempre tentou negar sua vocação e forçar caminho para o outro lado.

A “sombra cool de Mark Arm” está no climão do discurso de Eddie Vedder ao receber o Grammy de melhor performance de hard rock em 1996. Dezoito anos antes deste Oscar, a cerimônia também teve Ellen DeGeneres – pré-smartphone- como anfitriã. O Pearl Jam foi anunciado vencedor por Lisa “Phoebe” Kudrow. Vedder quase pediu desculpa por ganhar e disse que o Grammy não significava nada. Bem feito para o Grammy, tentando ser cool.

Na época em que a indústria tentava colar no rock alternativo, até o Primus foi indicado, com a música de título que pode ser traduzido para “A boceta grande e marrom de Wynona” – lido na cerimônia para constrangimento de engravatados. O mico do discurso pretensamente cool de Vedder é um bom porquê para o Oscar não querer cair nessa.

A pergunta da “Rolling Stone” sobre “suavidade” e “sentimentalismo” era só introdução para outra ainda mais potencialmente ofensiva. Dessa vez Hiatt teve coragem de terminar: “O novo disco tem a power ballad ‘Sirens’, que soa grandiosa – eu poderia arriscar dizer ‘comercial’?” “Agora já disse!”, brinca Vedder. Ele conta que música foi composta no meio da noite, sem ninguém acordado para “criticar o que você está escrevendo”. A letra foi feita não em casa em Seattle, mas em Los Angeles, onde a banda gravou “Lightining bolt” (2013). Eles falam da composição neste vídeo.

“Sirens” é uma música assustadoramente bonita sobre a morte se aproximando. Há uma metáfora de sirenes, provavelmente não cifrada o suficiente para o padrão de ironia Mark Arm. É uma balada que pode emocionar a mim, a voce e à sua avó – neste caso, principalmente aos idosos, que podem entender melhor o pavor da sirene, mas também qualquer mortal.

E sim, “Sirens” lembra Nickelback. Culpar o Pearl Jam por isso seria como acusar Martin Scorsese de fazer um longa parecido com “Trapaça” ou ressucitar Fellini para criticá-lo por fazer filmes que lembram demais “A grande beleza”.

Quando Eddie Vedder nasceu, um anjo coxinha desses que votam no Aécio disse: “Vai, Edward, não ser cool na vida”. Ele pode até querer cifrar os sentimentos, mas agora, perto dos 50, nem adianta. “Sirens” é para eu, você e sua avó chorarmos juntos. Ou para a trilha de um filme épico, bem meloso, sobre amor e morte, desses que ganham Oscar.

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