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Livre e Invencível: autoajuda no cinema

por

14 de janeiro de 2015

Cinema, Receituário

Wilde ; Unbroken

EUA, 2014

  • Dir: Jean-Marc Vallée
  • Elenco: Reese Witherspoon, Laura Dern, Gaby Hoffmann, Thomas Sadoski, Keene McRae
  • Dir: Angelina Jolie
  • Elenco: Jack O'Connell, Takamasa Ishihara, Domhnall Gleeson, Garrett Hedlund, Finn Wittrock, Jai Courtney

Avaliação: ★★★☆☆ 

Duas estreias da semana tratam de protagonistas distintos, mas com jornadas de vida que servem como exemplo de superação. “Livre” conta a história real de Cheryl Strayed, que após um divórcio e envolvimento com drogas se desafia a fazer uma trilha solitária na natureza, tentando se reencontrar. “Invencível” conta a história real de Louis Zamperine, que após participar de uma Olimpíada vai lutar na II Guerra Mundial e acaba prisioneiro dos japoneses.

O diretor de “Livre” é melhor do que o de “Invencível”. Jean-Marc Vallée está mais amadurecido do que em “Clube de Compras Dallas”, saindo-se especialmente bem na forma como trata as memórias de Cheryl, em flashbacks que funcionam bem, sem quebrar a narrativa. É o oposto do que faz Angelina Jolie em “Invencível”. Apesar de se cercar do melhor que existe por aí (Roger Deakins na direção de fotografia, roteiro com participação dos irmãos Coen, ótimo elenco), a diretora abusa dos flashbacks e se entrega ao melodrama de tal forma que, aos poucos, a extraordinária luta pela sobrevivência de seu personagem principal vai perdendo a identificação com o público e ficando cansativo. A música sobe pra todo mundo chorar, mas nada acontece.

As comparações mais óbvias são de um com “Na Natureza Selvagem” e do outro com “O Sobrevivente”. Se o filme de Sean Penn era um ensaio existencialista, “Livre” é uma autoajuda de bolso. Se o filme de Herzog tinha o poder de um soco no estômago sobre os limites do ser humano, “Invencível” tem a catarse calculada de uma parábola religiosa. Cheryl é vivida por Reese Whiterspoon de um jeito gente como a gente, enquanto o Louis de Jack O’Connel faz o tipo épico. Os dois atores funcionam perfeitamente para o que as respectivas produções se propõem, mas nenhum dos filmes parece se decidir entre se aprofundar no personagem ou na jornada, e nem um nem outro é satisfatório.

A autoajuda do tipo “se acreditar você também consegue” é apresentada nos dois filmes de modo distinto: “Livre” traz uma abordagem mais moderna e racional, que engloba feminismo, consumismo, solidão, e depressão. É apenas se embrenhando na natureza  que Cheryl pode abandonar toda a superficialidade de expectativas que a sociedade nos impõe, um peso que carregamos nas costas e tão bem representado no filme pela sua mochila “monstra”. Sem correr muitos riscos e com aquele tipo de frases literárias que diariamente invadem o Facebook.  Já “Invencível” aposta no calvário de Louis para fazer o paralelo religioso, com direito a uma quase-meia-crucificação ao erguer um pedaço de madeira  na principal cena do filme. É a autoajuda baseada em crer em uma força superior e invisível que nos ajudará quando realmente precisarmos.

São duas histórias reais certinhas, contadas sem correr riscos, bem atuadas e com ótima produção. Mas seus personagens principais mereciam mais: ao final, Louis e Cheryl não são exatamente pessoas com as quais passamos as últimas duas horas. São ícones de que é possível a tudo superar e que não devemos reclamar tanto de nossos problemas, pois eles são pequenos demais. “Livre” e “Invencível” trazem assim sua contribuição à autoajuda. Com o melhor que Hollywood pode oferecer.

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