As 10 melhores séries de 2018

10. Empate: “Seven Seconds” / “Sharp Objects”
“Sharp Objects” é um feito de direção e performances. O livro de Gillian Flynn, e os roteiros de Marti Noxon, não tinham trama o bastante para segurar oito episódios, o que tornou a minissérie arrastada em alguns momentos. Mas a forma como o cineasta Jean-Marc Vallée explorou com sua montagem o mecanismo da memória e dos fantasmas do passado se materializando no presente; e como Amy Adams, Patricia Clarkson e a revelação Eliza Canlen mergulharam e dissecaram as perturbadoras patologias de suas personagens, tornaram a adaptação da HBO uma tortura semanal irresistível.

Já “Seven Seconds” era uma série difícil de um jeito diferente. A trama era brutalmente triste, assim como os personagens e a ambientação do inverno implacável. Sua própria premissa era a natureza imperfeita e corrupta do sistema penal, então as perspectivas nunca eram muito boas para um final feliz. Mas a riqueza humana dos personagens, as ótimas atuações de Clare-Hope Ashitey (“Filhos da Esperança”), Regina King, Raúl Castillo, Russell Hornsby & cia., e o final dolorido, mas realista, fizeram da série uma jornada satisfatória para quem teve disposição de espírito para chegar até lá.

9. “Homeland”

Como se manter, em sua sétima temporada, uma das séries mais relevantes, e empolgantes, da atualidade – num cenário em que mais de 500 shows são produzidos por ano? Pergunte à incansável equipe por trás de “Homeland”. Em seu sétimo ano, o seriado construiu um de seus melhores arcos dramáticos, explorando o atual caos político dos EUA, e do mundo, a interferência russa na política externa, o fenômeno das fake news e como elas têm usado a atual polarização partidária. Só que, longe de fazer um discurso panfletário de qualquer lado do espectro político, “Homeland” fez o que sabe melhor: um thriller em que o espectador chega ao final de cada episódio sem unhas para roer, carregado pelos ótimos trabalhos de Mandy Patinkin e Elizabeth Marvel, as boa adições de Morgan Spector e Costa Ronin, a direção da ótima Lesli Linka Glatter e a constantemente fenomenal e destemida performance de Claire Danes.

8. “The Handmaid’s Tale”

Muitas pessoas se incomodaram com a brutalidade da segunda temporada da série estrelada por Elizabeth Moss. Mas o fato incontestável é que, com toda a sua violência e crueldade, “The Handmaid’s Tale” continua sendo o retrato audiovisual mais fiel dos tempos atuais. Das coincidências assustadoras dos episódios sobre famílias separadas na fronteira, ou sobre as rusgas com o governo canadense, passando pela complexidade do arco de Serena Joy (Yvonne Strahovski) e o trabalho visceralmente impecável de Elizabeth Moss (o episódio do parto é um show, ponto), o seriado se manteve à altura, ou acima, de sua primeira temporada. O único porém são os três episódios finais, que funcionam menos como terceiro ato do que como prólogo para o aguardado terceiro ano.

7. “Homecoming”

Sam Esmail é um talento que, às vezes, quer chamar mais atenção para seu estilo do que para o conteúdo, como a irregular “Mr. Robot” já demonstrou. Essa adaptação do podcast homônimo cambaleia na mesma corda bamba nos episódios iniciais, mas é arrebatada pela grande performance de Julia Roberts, e na deliciosa química da atriz com o ator Stephan James, na metade final. A força e o poder da relação dos dois protagonistas conseguem se sobrepor aos arroubos estilísticos de Esmail, resultando em uma das melhores atuações da carreira de Roberts no episódio em que Heidi descobre a verdade sobre seu passado; e na melhor cena final de qualquer série em 2018, de uma perfeição sublime de tirar o fôlego.

6. “Wild Wild Country”

A série documental da Netflix foi o melhor tratado sobre religião e poder de 2018. Mais do que um emaranhado de reviravoltas inacreditáveis a cada episódio, a produção dos irmãos Way foi uma profunda investigação sobre a natureza da fé, e o que ela pode instigar nas pessoas, e sobre a repulsa e resistência ao outro. E na figura de Ma Anand Sheela, a melhor personagem – em qualquer mídia – do ano, e sua relação com o Baghwan, e nos depoimentos devastadores de Jane Stork, “Wild Wild Country” refletiu ainda sobre gênero, manipulação, e como isso se manifesta nas dinâmicas religiosas e midiáticas de leitura e tratamento do outro.

5. “Forever”

Não é por acaso que “Forever” é co-assinada por Mike Schur, o mesmo de “The Good Place”. Em sua primeira temporada, a série da Amazon mostrou uma capacidade incrível de se reinventar a cada episódio, associada ao humanismo cotidiano e realista de Alan Yang (“Master of None”). Exatamente por isso, é difícil falar sobre o que é o seriado, sem estragar a surpresa. Basta dizer que é um dos estudos mais honestos e originais sobre a ideia do “felizes para sempre” – e o retrato realista de um casamento com o qual qualquer pessoa que já tenha vivido um relacionamento de longa duração vai se identificar (a sequência de abertura é antológica) – carregado pela melhor performance da carreira da ótima Maya Rudolph.

4. “Killing Eve”

A deliciosa série de Phoebe Waller-Bridge era tudo de que 2018 precisava: divertida, subversiva, leve, viciante, irresistível. Sandra Oh é uma das melhores atrizes da TV desde “Grey’s Anatomy”, mas em “Killing Eve” ela encontrou seu par perfeito. Sua química e seu tango violento-cômico-sexual com a assassina Villanelle vivida por Jodie Comer deu ao velho jogo de gato e rato um tempero feminino e imprevisível. A atração entre opostos das duas fez da série um vulcão de tensão de roer as unhas que explodiu nas melhores sequências – mais bem escritas, dirigidas e atuadas – de 2018, toda vez que a dupla de atrizes dividiu a cena.

3. “The Americans”

A série de Joe Weisberg e Joel Fields terminou, assim como começou, com uma violência sutilmente brutal. “The Americans” sempre foi um seriado sobre como o trabalho de espionagem pode parecer divertido no exterior, mas corrói e destrói o interior como um câncer. E Keri Russell fumando, rancorosa, exausta, descrente, em cada plano dessa temporada, foi a imagem-síntese e o ápice disso. O trabalho da atriz, do primeiro ao último plano dos dez episódios finais, foi provavelmente a melhor performance de 2018 na TV. No fim, porém, “The Americans” era uma série sobre família. E foi exatamente isso que Elizabeth e Philip Jennings perderam no fim. Num ano de imagens devastadoras, o plano final na sequência da estação de trem foi de uma brutalidade seca e impiedosa, perfeita, como “The Americans”.

2. “Pose”

Dizer que “Pose” é a série mais importante do ano parece uma crítica condescendente disfarçada de elogio. Mais do que importante, o seriado produzido por Ryan Murphy foi o produto cultural mais revolucionário de 2018. Porque ousou contar a mesma história que você já viu 1 milhão de vezes na Sessão da Tarde – o pobre excluído, azarão, superando todos os obstáculos e desafios em busca de seus objetivos – só que escrita, dirigida e produzida por artistas LGBTQ. Não só gays, mas trans, negros, fora de qualquer tipo de padrãozinho. Assistir a esses personagens a cada semana era uma experiência humanista única porque era descobrir que, naquele universo único e tão específico, aquelas pessoas são exatamente como você, lutando pelo direito a sonhar e amar. E essa baranguice universal é o poder revolucionário de “Pose”.

1. “The Good Place”

O maior desafio de uma série é que, por sua própria premissa, ela deve durar pelo máximo de tempo possível. E, para isso, precisa se reinventar de tempos em tempos, permanecendo, em essência, a mesma história. “The Good Place” faz isso a cada episódio. A estrutura da série de Mike Schur é um truque de mágica de uma genialidade milagrosa e inacreditável, reconfigurando tudo que o espectador sabe a cada semana. A comédia é tudo que “Lost” sempre quis ser, só que é boa. E de quebra, é carregada por personagens que são exatamente o que precisam ser: as pessoas mais imperfeitas do mundo.

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