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Vidas Duplas

por

18 de abril de 2019

Cinema, Receituário

Doubles Vies

França, 2018

  • Dir.: Olivier Assayas
  • Elenco: Guillaume Canet, Juliette Binoche, Vincent Macaigne, Christa Théret, Nora Hamzawi

Avaliação: ★★★☆☆ 

Se estivesse vivo hoje, Miguel de Cervantes teria mais dificuldade de publicar um livro do que um youtuber que sabe fazer bom uso de seus gatos. Isso é um fato. E se fosse um acadêmico, Olivier Assayas (“Personal Shopper”) escreveria um ensaio sobre isso. Mas ele é um cineasta. Então, dirigiu um filme.

“Vidas Duplas” é um longa-ensaio sobre o mundo contemporâneo – ou, talvez mais especificamente, sobre o lugar da cultura na era da pós-verdade. É um Assayas em modo Woody Allen – ou, para permanecer na França, em modo Éric Rohmer – no sentido de que é conduzido por personagens discutindo profundas questões da contemporaneidade em longos diálogos intelectuais, embrulhados numa trama pequeno-burguesa de traições à francesa.

O roteiro segue o editor Alain Danielson (Guillaume Canet), às voltas com a digitalização do mercado livreiro, representado por sua agressiva marqueteira digital millennial, Laure (Christa Théret). Casado com a atriz Selena (Juliette Binoche), cansada de seu papel na terceira temporada de uma série policial, ele está reticente em publicar o novo livro de seu cliente Léonard Spiegel (Vincent Macaigne), um machinho protointelectual que só sabe escrever sobre o próprio umbigo pinto e, por sua vez, é casado com a assessora parlamentar Valérie (Nora Hamzawi).

Quase desnecessário dizer, praticamente todo mundo está tendo um caso extraconjugal com alguém. E entre uma escapada e outra, eles promovem jantares e noitadas em que discutem o declínio do império ocidental – ou a implosão do sistema capitalista – enquanto anestesiam seu desencanto com o apocalipse iminente ingerindo vinhos caros e comidas sofisticadas.

O que mais parece interessar a Assayas, no entanto, é como a internet – e, em especial, as redes sociais – afetaram o mercado e o consumo cultural. Encaradas inicialmente (especialmente por figuras públicas) como uma forma de humanizar, ou de aproximar nossas humanidades, redes como Instagram, Facebook e Twitter acabaram transformando o cotidiano em commodity. Ir a um show hoje não é uma experiência de lazer, mas sim uma forma de reforçar seu personal brand (estrangeirismo pedante proposital). Se o stories do cachorro do seu vizinho é uma forma válida de entretenimento, por que pagar para ver o novo filme de um cineasta iniciante – ou: se tudo é compartilhado online, qual a diferença do que Léonard faz em seus livros, descrevendo suas aventuras sexuais com atrizes em salas de cinema? Em resumo: se todos são capazes de construir “stories”, se todos são produtores de conteúdo, por que artistas seriam necessários, ou especiais?

É essa vulgarização do processo intelectual e criativo, com a transformação do banal em espetáculo e da arte na resposta a um algoritmo (vide qualquer original da Netflix), que aflige os protagonistas – e o diretor. Mas Assayas sabe quão arrogantes, e um tanto hipócritas, seus personagens soam ao criticar tudo isso. Como a grande maioria dos intelectuais hoje, suas discussões ocorrem numa bolha de extremo privilégio e informação, enquanto o “cidadão médio” recebe um vídeo no whatsapp e forma sua opinião sem nem mesmo chegar ao final dele.

Mais ainda, o cineasta sabe que seus protagonistas também são parte desse novo mundo: eles podem discutir a vulgarização e a efemeridade dos processos culturais, mas fogem das dificuldades e desafios do dia a dia de seus relacionamentos mergulhando em casos óbvios e banais. O mundo está muito difícil, amargo, desesperador, e eles também precisam de escapismos e prazeres fugazes. E Assayas mostra como seus personagens – seu filme, ele mesmo – são parte dessa mesma cultura que questionam nos momentos finais de “Vidas Duplas”, com o que talvez seja uma das maiores quebras de quarta parede da história do cinema.

A maior crítica que pode ser feita ao diretor nessa tentativa de filme-ensaio é uma certa falta de criatividade visual na encenação de tantos diálogos. E eles podem, sim, tornar-se um pouco exaustivos. Mas a mera escolha de narrar grande parte da trama durante o inverno – ressaltando os tempos ásperos, hostis, desanimadores, que estamos vivendo – e encerrá-la no verão, com o que pode não ser exatamente esperança, mas um indício de que a vida continua mesmo com o apocalipse ao redor, demonstra a consciência visual de Assayas (e uma herança muito clara do cinema de Rohmer).

Além disso, ele conta com um ótimo elenco para carregar a densidade das cenas, com destaque para… quem você acha? A capacidade de Binoche de ir do cômico ao ácido, da fragilidade da hipocrisia humana a uma vulnerabilidade emocional avassaladora, já foi mais que incensada, mas merece pelo menos mais um parágrafo nessa crítica.

E por falar em crítica, eu acabei de escrever 4 mil caracteres que – como Laure explica numa das desancadas mais amargas e brutais do filme – vão ter bem menos impacto do que qualquer story com um visual agradável feito por um “influenciador digital”. Ou que um “blog post” feito por um “produtor de conteúdo” que usar as palavras-chave certas um número correto de vezes. Porque refletir não importa. Importa alcançar, influenciar, converter. Bem-vindo ao deserto (de ideias) do digital.

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