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O lugar da morte: “A Sombra do Pai” e “Cemitério Maldito”

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2 de maio de 2019

Cinema, Receituário, Sem categoria

A Sombra do Pai / Pet Sematary

(Brasil, 2018) / (EUA, 2019)

  • Dir.: Gabriela Amaral Almeida / Kevin Kölsch e Dennis Widmyer
  • Elencos: Nina Medeiros, Julio Machado, Luciana Paes / Jason Clarke, Amy Seimetz, Jeté Laurence, John Lithgow

Avaliação: ★★★☆☆ 

Cemitérios têm um motivo para existir. A morte é parte da vida de todo mundo, mas nós não queremos conviver com ela, sentir seu cheiro, sua presença. Então, é necessário um lugar para a morte. Um espaço onde ela possa ser mantida à distância, e aonde possamos ir quando quisermos relembrar ou honrar os que se foram.

Tirar a morte desse lugar é um dos maiores tabus e profanações da sociedade ocidental – e as possíveis consequências disso foram exploradas em “Cemitério Maldito”. Um dos títulos mais icônicos do terror oitentista, a obra, curiosamente, está sendo revisitada por dois filmes em cartaz: “A Sombra do Pai”, da brasileira Gabriela Amaral Almeida (“O Animal Cordial”), que estreia nesta quinta; e o remake “Cemitério Maldito”, que chega nos cinemas dia 9.

O longa da paulistana Amaral Almeida acompanha a pequena Dalva (Nina Medeiros) que, após o casamento da tia Cristina (Luciana Paes), passa a viver com o pai Jorge (Julio Machado), ausente e negligente, e é obrigada a encarar a falta que sente da mãe falecida. Já o remake dos irmãos Kevin Kölsch e Dennis Widmyer (da série “Pânico”) segue a família do médico Louis (Jason Clarke) e sua esposa Rachel (Amy Seimetz), quando eles se mudam para o interior do Maine. Eles descobrem que o fundo de sua nova propriedade abriga um estranho cemitério de animais e, quando seu gato Church sofre um acidente, Louis toma decisões que vão ter consequências sangrentas e irreversíveis.

Ambos os filmes são alicerçados em personagens que, de diferentes formas, são incapazes de lidar com a perda de entes queridos e acabam trazendo a morte para dentro de suas casas. No entanto, embora os dois longas usem elementos de gênero para construir, essencialmente, um drama psicológico, a maneira como eles fazem isso, e a intensidade de que lançam mão desses recursos, é bastante distinta.

Em “A Sombra do Pai”, o luto e o conflito dos personagens é quase totalmente internalizado. Dalva é uma protagonista de poucas palavras, e tudo que ela sente em relação ao pai e à mãe é expresso pelo estranho (e onipresente) olhar da atriz Nina Medeiros. Por sua vez, o pai Jorge, que ainda tem que lidar com o (suposto) suicídio de um colega de trabalho, vê sua incapacidade de lidar com essas perdas lentamente consumir sua sanidade, com a linha entre o que é real e o que é alucinação gradualmente sendo borrada com o passar da história. Essa inabilidade de seguir em frente é representada pela construção em que ele trabalha, que nunca parece evoluir ou ficar pronta.

Já o conflito e as reações dos personagens do novo “Cemitério Maldito” são essencialmente materializados pelas decisões que eles tomam. Kölsch e Widmyer até brincam um pouco com a trama do livro de Stephen King, mudando o foco do filho Gage (Hugo e Lucas Lavoie) para a filha Ellie (a boa Jeté Laurence), além de reimaginar o final para acentuar ainda mais o caráter trágico de uma história sobre o apego exagerado aos mortos. E calcam o longa bem mais no suspense do que no terror em si (que só chega mesmo no terço final) – numa abordagem que lembra muito o “Hereditário” do ano passado. Mas não há como negar que o filme seja guiado pelas reviravoltas melodramáticas do roteiro – e que o público vá bem mais interessado nas consequências sangrentas das escolhas de Louis e no gato endemoniado do que na exploração psicológica do seu luto e do de Rachel.

O roteiro de Amaral Almeida, do outro lado do espectro, quase peca pela total ausência de plot – bastante diferente de “O Animal Cordial”, seu longa anterior. Por mais que ela cite o “Cemitério Maldito” original diretamente, numa cena do filme na TV, seu “A Sombra” está mais interessado num movimento de levar seus personagens – por meio do borrão entre realidade e loucura de Jorge, e dos sonhos de Dalva com a mãe – do mundo dos vivos para os mortos, algo muito evidenciado na imagem final. Já o remake, e a própria obra original de King, é estruturada no movimento oposto, de trazer os mortos para o lado de cá. E a forma que encontra para encenar isso é um médico cético lutando contra a inevitabilidade invencível da morte – e as mudanças no final até tornam a transformação de Louis de homem da ciência em pai inconsequente menos inverossímil. No fim, são dois filmes imperfeitos, por motivos diferentes, mas que apresentam releituras interessantes e válidas de um original que nunca foi exatamente uma grande obra-prima. Reflexões sobre como a morte tem seus lugares, os riscos de se tirar ela de lá, e como o melhor deles continua sendo o cinema.

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