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Divino Amor

por

27 de junho de 2019

Cinema, Receituário

Divino Amor

Brasil, 2019

  • Dir.: Gabriel Mascaro
  • Elenco: Dira Paes, Julio Machado, Emílio de Melo, Teca Pereira, Calum Rio, Mariana Nunes

Avaliação: ★★★☆☆ 

No quarto episódio da (excelente) segunda temporada de “Fleabag”, a protagonista vivida (e escrita) por Phoebe Waller-Bridge interpreta um dos melhores monólogos de 2019 ao se confessar para um padre por quem está apaixonada: “Eu quero que alguém me diga o que vestir toda manhã. Eu quero que alguém me diga o que comer, do que gostar, o que odiar, o que protestar, o que ouvir, de quais bandas gostar, quais ingressos comprar, do que fazer ou não fazer piada. Quero que alguém me diga no que crer, em quem votar, quem amar e como dizer isso à pessoa. Apenas quero que alguém me diga como viver minha vida, padre, porque até agora acho que venho vivendo errado. E eu sei que é por isso que as pessoas querem gente como você na vida delas. Porque você fala a elas como viver, o que fazer, e qual será a recompensa no final. E mesmo que eu não acredite nas suas besteiras, e que eu saiba que cientificamente nada do que eu fizer vai fazer qualquer diferença, eu ainda tenho medo”.

É uma síntese perfeita do que o ser humano procura na religião: um código de regras que dê algum sentido ao mundo. Mas não qualquer sentido, e sim aquele que melhor se adeque aos – e confirme os – seus valores morais. Porque as pessoas não têm fé, mas sim crenças que elas querem reforçadas e institucionalizadas.

O que vem a ser o caso de Joana (Dira Paes), protagonista de “Divino Amor”. Ela quer – e acredita nas – regras. Mas acima disso tudo, Joana quer também um milagre. E o que acontece quando esses dois desejos se chocam? Quando as regras dizem que seu milagre é, na verdade, um pecado? E num mundo de regras tão duras e inflexíveis, tão preto no branco, qual a diferença entre um milagre – algo essencialmente fora da curva, do imaginável, do ponderável – e um pecado?

São essas questões que o diretor Gabriel Mascaro discute em seu longa. “Divino Amor” se passa em 2027, num Brasil distópico e dominado por um conservadorismo religioso à la “The Handmaid’s Tale”, em que o sexo é enxergado com fins primordialmente reprodutivos. Joana trabalha em um cartório e usa seu cargo para converter casais buscando o divórcio para a sua igreja, que dá nome ao filme e prega “quem ama não trai, quem ama divide” – explicar o que exatamente isso significa seria estragar um pouco as surpresas do filme. Em casa, porém, a protagonista sofre com a infertilidade e sonha em ter um filho com o marido Danilo (Julio Machado). Não por acaso, ela trabalhando com divórcios e ele como vendedor de coroas de flores para velórios demonstra como o casamento deles está preso numa ideia de fim, de morte, e não de vida.  

Assim como “Boi Neon” e “Ventos de Agosto”, “Divino Amor” prova que Mascaro é um diretor mais visual que dramatúrgico. Ele constrói esse futuro distópico bem mais nas imagens – no drive-thru de consulta ao pastor, no figurino reto e constritivo que Rita Azevedo cria para Joana, nas flores secas do final – e no áudio das músicas gospel da trilha original que em cenas de uma dramaturgia muito elaborada.

O maior efeito colateral disso é a sensação de uma sub-exploração das potencialidades desse universo e um certo desperdício do personagem de Danilo. O primeiro plano do longa é uma imagem do casal central dançando numa rave de Jesus, que vai derivando e fechando lentamente até manter apenas Joana no quadro. E essa talvez seja uma síntese do filme. Apesar da narração em off de uma criança, “Divino Amor” é contado todo do ponto de vista da protagonista de Dira Paes, e nada para além da vida interior dela é muito aprofundado.

Como estudo de personagem, porém, Joana é um objeto fascinante. Com sua voz mansa e seus apelos emocionais primários, ela é uma síntese da ideia de religião como manipulação – essa voz que parece oferecer respostas fáceis e doces, mas na verdade tem uma agenda moralista por trás. E o mais interessante é que, por mais que seja uma grande manipuladora, a única coisa que a protagonista não consegue controlar é a própria vida. E é essa brecha que Mascaro usa para questionar e abalar todos os pilares de certezas dela – num arco marcado pela água em que ela aparece submersa no início e o fogo que acende no final (um simbolismo, não por acaso, bastante religioso).

Conseguir decodificar essas imagens é algo fundamental no cinema de Mascaro, um diretor que se recusa a oferecer qualquer tipo de respostas ou conclusões fáceis para o público. Assim como a imagem final de “Divino Amor”, sua obra existe alheia a registros, documentos e regras, fruto de um universo de sensações e desejos. Não é fácil simplista como o conservadorismo do futuro distópico do filme. Mas é bem mais honesto e humano.

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