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Turma da Mônica – Laços

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27 de junho de 2019

Cinema, Receituário

Turma da Mônica - Laços

Brasil, 2019

  • Dir.: Daniel Rezende
  • Elenco: Giulia Benite, Kevin Vechiatto, Laura Rauseo, Gabriel Moreira, Paulo Vilhena, Fafá Rennó, Ravel Cabral, Rodrigo Santoro

Avaliação: ★★½☆☆ 

O melhor sintoma para se entender “Turma da Mônica – Laços” é que o filme é, na verdade, sobre a Turma do Cebolinha. Essa ideia de uma história centrada num protagonista masculino – afinal, meninas não têm dificuldade em se envolver com histórias de meninos, mas o contrário nem sempre (ou quase nunca) acontece – deixa bem claro como o longa do diretor Daniel Rezende (“Bingo: O Rei das Manhãs”) confunde nostalgia com caretice.

“Laços” é, sim, um filme nostálgico. Ele se passa numa era analógica, sem celulares e redes sociais, em que as pessoas ainda se comunicam por telefones com discador, e as crianças brincam na rua e se aventuram por florestas. Um universo bucólico e quase utópico que o design de produção de Cassio Amarante constrói com competência. Isso não é um problema.

O problema é como isso se reflete também na narrativa, com a realização quadrada de uma trama rasa (e preguiçosa) habitada exclusivamente por personagens absolutamente normativos e monocrômicos. O argumento, claro, é que a obra original de Maurício de Souza sempre foi assim. Mas existe uma diferença fundamental entre um filme nostálgico pelo século XX e um realizado como se estivesse no século XX.

E o longa de Rezende cai nessa segunda armadilha. “Laços” é um filme que não se arrisca em nada. A história é bobinha: Floquinho, o cão de Cebolinha (Kevin Vechiatto), é raptado, e o garoto se junta aos amigos Cascão (Gabriel Moreira), Mônica (Giulia Benitte) e Magali (Laura Rauseo) na busca por ele. É uma premissa que renderia facilmente sete, oito ou até dez páginas nas HQs da Turma (a trama é inspirada na graphic novel dos mineiros Lu e Vitor Cafaggi) – e que o roteirista Thiago Dottori se contenta em estender por um roteiro de 90.

O resultado é um filme sobre nada. Não existe nenhuma camada temática na história – a não ser, se você se esforçar, com muita boa vontade, a importância da amizade. Mas a trama não desenvolve essa ideia com elementos suficientes. Da mesma forma, Dottori não desenvolve os personagens para além de seus traços mais básicos das HQs: Mônica se irrita quando é chamada de baixinha dentuça, Magali gosta de comer, Cascão tem medo de água, Cebolinha tem planos infalíveis.

Isso faz de “Laços” uma produção com a mesma profundidade de uma página das HQs de Maurício de Souza. É uma trama que seria inofensiva, e um bom passatempo, nos quadrinhos, mas que nunca se justifica como filme. Sem jamais tentar atualizar o universo da cidade de Limoeiro para o século XXI – o que não significa incluir celulares ou redes sociais, mas sim reconhecer que o mundo evoluiu, e que uma certa diversidade de rostos e experiências torna a narrativa mais rica, interessante e verossímil – o longa de Rezende se limita a cortejar a nostalgia de adultos e crianças, sem jamais transformá-la em cinema.

Mesmo o passado do cineasta como montador, que fez tão bem a “Bingo”, parece ausente em “Laços”. O filme não sabe muito bem o que fazer com os pais dos quatro protagonistas e simplesmente se esquece deles no clímax da história (desperdiçando ótimos atores, como a mineira Fafá Rennó), perdendo uma boa chance de criar suspense e elevar a tensão com uma montagem paralela no ato final. Rezende, porém, parece pouco interessado ou instigado a tentar esse algo mais, limitando-se a gritar “ação” e “corta”, deixando a impressão de um certo receio de “macular” ou tornar um pouco mais sua – ou um pouco mais filme – a obra de Souza. O resultado final pode reafirmar o carinho do público pela série de HQs antológica, mas passa longe de transformá-la em um filme antológico.

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