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No Coração do Mundo

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26 de julho de 2019

Cinema, Receituário

No Coração do Mundo

Brasil, 2019

  • Dir: Gabriel Martins e Maurílio Martins
  • Elenco: Kelly Crifer, Grace Passô, Leo Pyrata, Bárbara Colen, Roberto Frank, Renato Novaes, Gláucia Vandeveld, MC Carol

Avaliação: ★★★½☆ 

Os créditos de abertura de “No Coração do Mundo” são embalados pela afirmação do MC Papo de que “Contagem é o motherfucking Texas”. Some a isso o fato de que o filme dos diretores Gabriel e Maurílio Martins é o desdobramento de dois curtas, um dos quais – não por acaso – se chama “Contagem” (o outro é “Dona Sônia Pediu uma Arma Emprestada a seu Vizinho Alcides”). Isso deixa claro como a cidade da Região Metropolitana de BH não é uma mera locação do longa. Ela é um estado de espírito que define e atravessa todos os personagens da história. E mais que isso: é sua protagonista, como a Nova York dos primeiros filmes da carreira de Martin Scorsese.  

Na bela fotografia de Leonardo Feliciano (“Arábia”) e no desenho de som – da trilha de canções populares à edição de ruídos caóticos e constantes, típicos da periferia, ao “mineirês da quebrada” do dialeto dos personagens – o bairro Jardim Laguna, onde se passa a trama, é apresentado não apenas como uma moldura, mas como uma entidade viva que define toda a jornada dos moradores retratados. Do desejo de sair dali, à dificuldade de ascender socialmente ou a decisão de fazer um trabalho e não outro, o Laguna está no DNA deles – é “onde está seu coração”.

O que deixa isso mais evidente é que, numa das únicas sequências passadas fora dele, no clímax do filme, os cineastas mostram como aquelas pessoas podem até sair do bairro, mas o bairro nunca sairá totalmente delas. E a melhor definição dessa simbiose poética e tóxica é a jornada de Ana (Kelly Crifer). “No Coração do Mundo” é um grande coletivo de histórias altmaniano, mas o arco moral que sintetiza o humanismo universal do olhar de Gabriel e Maurílio sobre aquele universo é o dela.

Ana vive entre o dia a dia como trocadora de ônibus (cujo trajeto circular e monótono sintetiza sua vida), os cuidados do pai senil e mudo (uma personificação da relação de cárcere silencioso que ela tem com o bairro), as aulas de autoescola e os encontros com o namorado Marquinhos (Leo Pyrata). Ele é um desempregado meio sem rumo, que vive de bicos e pode ter uma grande chance de se dar bem num “esquema” com Selma (Grace Passô), sua parceira em uma empresa de fotos escolares. Só que, para isso, os dois vão precisar da ajuda de Ana, que vai ter que decidir se entra ou não na vida ilícita do parceiro. O esquema depende ainda do dinheiro que Selma arrecada ao vender seu carro para a cabelereira Rose (Bárbara Colen), amante de Miro (Robert Frank), por sua vez irmão de Beto (Renato Novaes), que matou um jovem com uma arma de Marquinhos.

Os diretores usam a trama e esse mosaico de conexões para mostrar como cada um desses personagens ilustra um aspecto diferente daquele lugar. Em suas aspirações, seus sonhos, suas falhas, suas frustrações, todos eles são extremamente humanos e universais. Mas a forma como essa humanidade se manifesta em suas ações, sua especificidade, é totalmente definida pelo Laguna – um lugar onde amor e morte têm traços bem próprios e convivem lado a lado, como a cena inicial (com a participação da sempre ótima Karine Teles) ilustra bem.

E o filme não realizaria esse equilíbrio entre macro e micro tão bem sem a ajuda de um elenco impecável, que reúne a nata do teatro mineiro – com destaque para as mulheres. Grace Passô é uma força da natureza, como de costume, elevando cada um de seus diálogos, Bárbara Colen exala uma sensualidade e um carisma naturais, e Gláucia Vandeveld cria uma personagem totalmente reconhecível com poucos minutos em cena. Mas o grande destaque é, sem dúvida, Kelly Crifer.

Em seu rosto, Gabriel e Maurílio enxergam toda a riqueza humana e as agruras de se viver naquele bairro, toda a complexidade moral da trama, toda a universalidade específica que eles buscam. “No Coração do Mundo” tem problemas pontuais de ritmo na montagem, com algumas cenas bem executadas, mas que soam dispensáveis, e com a necessidade de um compasso mais ágil e crescente rumo ao clímax. Mas quando um close de Crifer surge na tela, o filme é perfeitamente aquilo que ele quer ser.

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