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Bacurau

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28 de agosto de 2019

Cinema, Receituário

Bacurau

Brasil, 2019

  • Dir.: Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles
  • Elenco: Bárbara Colen, Sonia Braga, Udo Kier, Thomás Aquino, Silvero Pereira, Karine Teles, Antonio Saboia

Avaliação: ★★★½☆ 

“Bacurau” tem uma postura que pode ser lida – superficialmente – quase como um certo desinteresse pelo aprofundamento de seus personagens. O filme começa com o retorno de Teresa (Bárbara Colen) à comunidade do título, no sertão de Pernambuco, mas ela logo se funde organicamente aos demais moradores, nunca assumindo um lugar de protagonista. O longa prefere, na verdade, passar brevemente por cada um dos habitantes – dando a eles traços de personalidade e de uma “existência” – sem, no entanto, jamais se aprofundar muito em seus arcos ou histórias particulares.

Porque, ao contrário de “Aquarius”, filme anterior do cineasta Kleber Mendonça Filho, “Bacurau” não é sobre um personagem. E, sim, sobre um coletivo. Uma comunidade. Mais até que o grupo de habitantes do povoado, o protagonista da trama é, em certa medida, o Nordeste. O longa é, nesse sentido, uma narrativa pós-herói – ou pós-Lula: não é a história do indivíduo que chega ali para salvar ou proteger o local, e sim de como aquelas pessoas são perfeitamente capazes de defender a si mesmas. No, we don’t need another hero.

Kleber, desta vez dirigindo com o parceiro Juliano Dornelles, trata isso como uma espécie de subversão de expectativas, que parte do retrato que ele faz de sua região até chegar na própria condução da trama. Em primeiro lugar, mesmo localizado no coração do sertão, o Nordeste de “Bacurau” é verde, e a fotografia de Pedro Sotero foge dos clichês e da luz estourada para filmar o local. Isso porque o roteiro usa a comunidade da história para denunciar uma certa visão que subestima o Nordeste (e o nordestino) como um lugar frágil, indefeso, revelando-o, na verdade, como insubmisso – a típica desconfiança interiorana aqui é menos matuta que estratégica.

O principal elemento usado pela dupla para consolidar essa caracterização, e essa revisão demo-geográfica, porém, é o contraste com o grupo de forasteiros gringos, de interesses escusos, que pretende invadir o povoado. É na contraposição da montagem de Eduardo Serrano que “Bacurau” vai opor tecnologia x comunidade, máquina x humano e, acima de tudo, morte x vida – uma oposição já anunciada pelas imagens de caixões e remédios que abrem o longa.

 Em última instância, é essa justaposição entre vida e morte que Kleber e Juliano buscam fazer ao opor os moradores e invasores de Bacurau. E a proposta não é fazer um argumento simplista de que os primeiros são vida, e os outros, morte. Ela vai um pouco além: os cineastas tentam ilustrar o que vida e morte significam para cada grupo. Se para os gringos, matar ou morrer é uma diversão, um passatempo, para os habitantes do povoado, a morte – que abre o filme, gerando a imagem de um caixão que brota água – é um novo começo, é a alimentação de um ciclo, de história. E assim como em todos os filmes de Kleber, história é uma arma, é um poder – não por acaso, o Museu Histórico de Bacurau é muito importante à narrativa. Bacurau (assim como o Nordeste) tem história, ele não nasceu ontem, e essa história é sinal de força.

Por fim, essa subversão de clichês e expectativas regionais se reflete no fato de que o longa é menos uma produção de gênero do que uma desconstrução de gênero. Quem for à sessão esperando uma “fita de ação”, com sequências alucinantes e chuvas de balas, vai se surpreender. O filme é quase uma obra antiviolência, ou antiação, que se recusa a tratar a carnificina como algo divertido, como entretenimento, preferindo manipular nossa expectativa pela sua chegada a um ponto tal que começamos a nos questionar por que queremos tanto vê-la. “Bacurau” não é uma história sobre morte, ou violência, e sim sobre vida, resistência. Sobre formas de existir e sobreviver, e não de morrer. É sobre o ethos dos moradores, e não dos invasores.

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