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It: Capítulo Dois

por

5 de setembro de 2019

Cinema, Receituário

It Chapter Two

EUA, 2019

  • Dir.: Andy Muschietti
  • Elenco: Jessica Chastain, James McAvoy, Bill Hader, Bill Skarsgard, Isaiah Mustafa, James Ransone, Jay Ryan, Andy Bean, Finn Wolfhard, Sophia Lillis

Avaliação: ★★★☆☆ 

Uma das grandes filósofas da contemporaneidade, Taylor Swift encerra seu álbum mais recente, “Lover”, com uma declaração de princípios: “eu quero ser definida pelas coisas que eu amo. Não pelas coisas que eu odeio, de que tenho medo, que me assombram no meio da noite”. É não só uma síntese do que ela tenta fazer no disco, mas algo de que todos nós, num contexto atual de profundo ódio, precisamos nos lembrar.

Para isso, porém, é necessário primeiro encarar – e superar – nossos traumas. Exorcizar nossos demônios. E é isso que os protagonistas de “It: Capítulo Dois” são obrigados a fazer, de uma forma bastante radical. Assim como a maioria dos adultos, eles simplesmente viraram as costas para o seu passado e decidiram ignorar, ou apagar, os fantasmas da infância. Mas, também como quase todos nós, um retorno à cidade-natal revela que eles ainda são aquelas mesmas crianças assustadas e vítimas de bullying do primeiro filme. Porque, ao meramente varrerem seus traumas para debaixo do tapete em vez de superá-los, continuam sendo definidos por eles.

E corrigir isso significa enfrentar e derrotar de vez o palhaço Pennywise (Bill Skarsgard), que volta a assombrar Derry 27 anos após os eventos do longa anterior. Um (bastante) violento ataque homofóbico é o ponto de partida que faz “Os Otários” regressarem ao local para encerrar o que começaram, durante longas três horas de projeção.

O diretor Andy Muschietti divide este “Capítulo 2” em três partes bem definidas: o retorno e a resistência dos protagonistas em enfrentar novamente o mesmo terror que viveram durante a infância; as jornadas individuais que cada um deles deve seguir para lembrar e reconhecer seus traumas; e o confronto final com Pennywise. E o maior problema do filme é, definitivamente, a primeira: um amontoado de cenas estendidas e gritadas demais que dão, na verdade, a impressão de que as crianças adoráveis do primeiro longa se tornaram adultos insuportáveis. É um processo de negação que dura uma hora e deveria ter, no máximo, 20 e poucos minutos.

A segunda é, talvez, a mais interessante. É quando o roteiro e Muschietti exploram cada um dos personagens psicologicamente por meio do terror. Cada um dos Otários é obrigado a encarar, individualmente, seu maior trauma de infância, aquilo de que têm mais medo e vergonha, em sequências que mesclam o elenco atual com flashbacks das crianças do filme anterior. Falta certa nuance e sutileza à abordagem do cineasta, mais interessado na sanguinolência e nos aspectos de gênero que assustem o público, na revelação dos gatilhos emocionais com que nos deparamos ao voltar para nossa cidade-natal. Ainda assim, as cenas funcionam graças ao bom elenco, que inclui Jessica Chastain, James McAvoy e Bill Hader.

O terço final é quando “Capítulo Dois” se torna um filme de terror por excelência, cheio de sangue e momentos violentos e assustadores que devem agradar aos fãs do gênero. Mais cheio de adrenalina e ligado no 220v, é um desfecho que entretém, mais próximo do slasher de “Sexta-feira 13” ou “A Hora do Pesadelo” do que das ambições “Conta Comigo” e “Stranger Things” do longa original. O que não é exatamente um defeito: as duas horas finais divertem e seriam um filme muito bom, não fosse pelo arrastado terço inicial.

Mas mesmo ficando em segundo plano, em favor do foco principal das convenções de gênero, as ambições e os aspectos psicológicos são o ponto mais interessante da produção. O sintoma mais claro disso é a questão da homofobia, que aparece não só na sequência inicial (presente também no livro de Stephen King), mas envolve ainda um dos protagonistas. É instigante, e válido, ver um blockbuster de um grande estúdio tocar no assunto, mas a impressão que fica é de que o longa parece o tempo todo dançar em torno da questão, sem jamais saber exatamente o que fazer com ela – mais interessado na sua violência (física e psicológica) que na sua discussão. Essa talvez seja a síntese do filme de Muschietti: um emaranhado de temas cheios de potencial, engolidos – para o bem e para o mal – por um longa de terror mediano.

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