Tábua de Salvação
26.09.06
por Maikel Silveira
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Medo e Obsessão
(Land of Plenty, EUA/Alemanha, 2004)
Dir.: Win Wenders
Elenco: John Diehl, Michelle Williams, Shaun Toub, Wendell Pierce
Princípio Ativo: Lixo
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Um dos caminhos mais fáceis de agradar platéias no cinema é fazendo pipocar na tela belas imagens. Highways, avenidas, lagos, rios, florestas. O universo do que agrada aos olhos, enfim. Não é esse o caminho escolhido por Wim Wenders para trazer ao mundo sua visão do EUA pós-11 de setembro. A Los Angeles de Wenders faz muita coisa, menos agradar aos olhos.
Miséria, fome, preconceito e medo são só algumas das mazelas americanas que ele põe à tona com seu recente “Medo e Obsessão”. São questões não-habituais no cinema made in USA. Um mundo doente e faminto, pronto para ser captado pela câmera do cineasta alemão – cada vez mais do mundo. Para capturar/liberar esse universo, ele opta por uma iluminação algo precária e imagens granuladas que parecem tomar conta de cada espaço da tela no início do filme.
John Diehl interpreta um veterano de Guerra com problemas mentais e físicos que parece reencontrar um sentido para tudo na cata de elementos suspeitos – árabes! - que ponham em risco seu home sweet home. Paranóico, o homem vê ameaças químicas em produtos de limpeza e células terroristas em sem-tetos de turbante.
O contraponto (e tábua de salvação) do nosso veterano é a personagem da bela Michelle Williams, sua sobrinha. Vinda da Cisjordânia, depois de passagens pela África, a jovem de 20 anos chega aos EUA para trazer ao tio uma carta da mãe, com a qual nosso herói não tem contato desde que ela deixou os EUA.
É na sobrinha que o triste cenário do filme, não apenas o tio paranóico, encontra redenção. Mesmo com condição privilegiada, personalidade cosmopolita e “conectada” (comunica-se com os parentes distantes com um delicado notebook), ela não se abala com o ambiente de dor em que é arremessada. Hospedada num albergue para sem-tetos, não demora a tornar-se útil e querida. A menina é um hálito fresco na tensa atmosfera daquela L.A.
Com muito tato é que ela vai desconstruir as paranóias do tio. Primeiro, entra no jogo e ajuda-o em suas investigações para depois estabelecer uma cumplicidade que o traz para o outro lado. Daí nascem cenas de grande sensibilidade, como a leitura da (belíssima) carta finalmente lida por ele, onde a irmã parecia já compreender que fazia um duplo bem ao enviar a filha: devolvê-la à América, tão distante, e restaurar no irmão a humanidade perdida.
Medo e obsessão dissipam-se em esperança, para acreditar que - quem sabe! - as duas torres possam ser reconstruídas sobre novíssimas bases. O filme, enfim, exibe a beleza – por um caminho sob muitos aspectos inusitado.

Michelle Williams e seu fantástico nariz
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