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Circuito Mineiro Audiovisual

"A idiotia e a transgressão andam muito próximas uma da outra"

por Daniel Oliveira

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“...então, o que eles prevêem é que, daqui a alguns anos, nós poderemos fazer o download de nosso cérebro em um computador e viver para sempre, como uma máquina!”
“Meu Deus, acabei de descobrir que eu realmente consigo dormir de olhos abertos!”

Ross e Chandler, em “Friends”

Essa é, provavelmente, a reação mais comum quando se escuta sobre ou se vê videoarte: sono, preguiça, sarcasmo. O pré-conceito (quase) geral é o de que se trata de uma produção monótona, cheia de imagens confusas e experimentalismo exagerado – e, além disso, algo “anos 80” demais. Isso é para os que julgam conhecer o termo e, pelo menos, algum de seus exemplares.

O Circuito Mineiro Audiovisual é uma chance para aqueles que não conhecem. O projeto, criado pelo professor da PucMinas e pesquisador Eduardo de Jesus, quer tirar essa produção do gueto – incrivelmente fechado – em que ela circula e levá-la para o interior de Minas Gerais. Mais que isso: fomentar a produção audiovisual nestes lugares. Divinópolis (22 e 23 de agosto), Coronel Fabriciano (20 e 21 de setembro), Juiz de Fora (5 e 6 de outubro), Montes Claros (27 e 28 de outubro) e Uberlândia (4 e 5 de dezembro) foram as escolhidas para a empreitada.


O que é isso? Conrado Almada + Pato Fu

“Eu não sei porque você e Chandler não se mudaram para Los Angeles antes. A cena gay daqui é super forte!”

“Chandler e eu não éramos um casal gay!”

Gina e Joey em “Joey”

Um dos aspectos que reforça o preconceito citado acima é que tudo nesse “circuito audiovisual”, para quem olha de fora, é afetado. Quando eu cheguei ao Usina Unibanco de cinema para o lançamento do projeto, percebi isso.

Debaixo de um sol de 30º às 9h da manhã, minha calça preta e meu All Star vermelho – combinando com o vermelho da logo do Pílula na minha camisa – eram abafadamente afetados. A simpatia esfuziante de Eduardo de Jesus, recebendo os convidados em seu look ultracool, é descoladamente afetada. O visual cuidadosamente descuidado das garotas da produção e da Telemig Celular, patrocinadora, é milimetricamente afetado.

Eu me sento e aguardo a projeção dos vídeos. Enquanto não começam, o assunto “quente”, ao meu lado, era a Lei Estadual de Incentivo à Cultura, cujo prazo se encerrava no dia seguinte. É muito gueto. E é muito afetado.

Provavelmente por saber que sair do gueto é uma coisa, mas conquistar o mundo é outra, o projeto tenha escolhido cidades com cursos de Comunicação Social. Querer que a (tia) Maria, de 40 anos e bob's no cabelo, abandone o dramalhão da novela das oito para prestigiar (tio) Cao Guimarães é um objetivo (bem) para o futuro.

“4 8 15 16 23 42”

Quase todo episódio, “Lost”

Chegam os vídeos. Assistir a esses trabalhos é algo muito pessoal. Pode ser puramente intelectual, afetivo, causar riso, emocionar, fazer você pensar na lista do supermercado ou admirar a inteligência do criador. Ou outra coisa.

Mas, para isso, é fundamental que se entenda de onde o vídeo fala – trocando em miúdos, o que ele está dizendo ou, pelo menos, o que quer dizer. Caso contrário, você fica numa situação parecida ao espectador de "Lost", que não pode dizer se a série é boa ou não. Se a explicação, no final das contas, for decente - como no vídeo "Objetos ansiosos", de Ricardo Cristofaro - a viagem vai ter valido a pena. Se ela for meia boca - como em "Hablar de sueños", de Joana PMRO - foi um esforço pouco recompensador.

Para os não-iniciados, o Circuito Mineiro Audiovisual contará com palestras e encontro com os artistas para todo mundo ficar na ilha e ninguém sair boiando.


Objetos ansiosos: a angustiada animação em 3D de Ricardo Cristofaro.

"Ele não te merecia. Você vai achar algo melhor".

"Você não está me apoiando. Você está sendo condescendente. Eu segurei sua barra quando a esposa bonitona do seu namorado apareceu; e da Cristina, quando ela ficou grávida e perdeu o bebê. E eu nunca desmereci o sofrimento de vocês com uma atitude condescendente. Não há nada pior que isso."

Grey e Izzie em "Grey's anatomy"

O segredo é ir de olhos e mente (talvez mais o segundo que o primeiro) abertos às sessões. Mas não precisa abandonar o senso crítico. Não há como negar que, às vezes, os vídeos são chatos. Muito. Agüentar os quase 15 minutos de auto-complacência de "Dentro do movimento", de Chico de Paula e Patrícia Werneck, é dureza. Com menos de sete, já se entendeu o que eles queriam dizer, mas a masturbação visual continua. E continua. E continua. E a câmera balança. E balança. E balança.

Dizer que isso é bom é de um falso intelectualismo condescendente - principalmente em se tratando de dois mineiros, em uma mostra mineira de um circuito mineiro. E Deus sabe como nós somos bairristas. Além da mostra "Contemporâneos Mineiros", os dois outros programas são "Premiados na última edição do VideoBrasil" e "Destaques na videoarte brasileira no acervo do VideoBrasil".

Conhecidos do último Festival de Curtas de BH, os ótimos "Sal grosso" (André Amparo e Cristina Murta), "Landscape Theory" (Roberto Bellini) e "Kalashnicov" (Carlos Magno) dão as caras. Até o bacana "O que é isso?", videoclipe de Conrado Almada para o Pato Fu, dá uma amenizada ao conjunto.

"Quando eu contei para minha mãe que eu sou gay, eu vi nos olhos dela que, mais cedo ou mais tarde, ela deixaria de gostar de mim. Então eu decidi deixar de gostar dela primeiro."

Andrew em "Desperate Housewives"

Subjetividade é algo muito amplo. Por mais paradoxal que pareça. E os vídeos que serão exibidos - assim como quase toda a produção videográfica - lida com esse conceito o tempo inteiro. O que faz sentido e é totalmente claro para um pode não ser para outros. E, provavelmente, o maior "enfrentamento" - idéia usada com freqüência por Eduardo na justificação da curadoria - que os artistas terão é com um público que pode, ou não, ter as referências que decodifiquem a subjetividade deles emprestada às obras.

A universalidade é extremamente difícil de ser alcançada, mas não impossível. O trabalho de Carlos Magno em "Kalashnicov" é um exemplo dessa raridade. O diretor entende e explica que, para ser subjetivo, é preciso ser pessoal. E, mais que isso, espontâneo. E, muito mais que isso, autêntico. É essa autenticidade que permite ao seu discurso metalingüístico e metafórico ser tão claro e acessível, misturando cinema / videoarte / vídeo de memórias familiares.


Kalashnicov: corta cabeças, atira e emociona.

E tudo isso parte de algo capaz de emocionar e encontrar identificação em todos nós: a relação entre pai e filho. Essa grande sacada só compete com a frase do vídeo que, muito provavelmente, sintetize a videoarte: "A idiotia e a transgressão andam muito próximas uma da outra".

Se o público perceber isso, já pode sair das sessões do Circuito Audiovisual Mineiro, sentar em um bar e discutir Godard. Ou talvez isso seja um pouco demais, cedo demais.

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