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CADERNOS DE VIAGEM

INDIE 2006 – Mostra Mundial de Cinema – 24 a 31 de Agosto, Belo Horizonte/MG

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-- Monumentos ou inferninhos –

Escrevendo de: dentro do trem-bala, 02/09

por Rodrigo Campanella

A euforia inicial com aquele catálogo do Indie cheio de promessas deixou na boca um certo gosto de ressaca. A viagem foi boa, as imagens na câmera e na cabeça são várias, mas é hora de acertar o balanço entre o que ficou só como promessa e o que cumpriu sem prometer.

O que fica claro é que esse universo paralelo alcunhado de Mostra Mundial de Cinema segue fazendo seu papel competente e essencial no vazio de eventos cinematográficos em BH – cidade que pena até para manter um público fiel nas salas fora do circuitão, por um punhado de motivos.

Antes de qualquer viagem turística, você tem que escolher entre os monumentos ou os inferninhos. Não há tempo de ver tudo. Passar uma tarde naquela praça espetacular ou ir no muquifo noturno das melhores bandas; conhecer a Casa do Baile na Pampulha ou gastar um dia naquela galeria de lojas de disco, cheia de poeira e de raridades; escolher o barzinho mais famoso ou aquele maravilhoso boteco num lugar que você acha que nem existe no mapa.

Diante de tudo o que foi anotado nesses cadernos e da vivência geral nessa versão 2006 da Indieana, a impressão geral é que a mostra é cada vez melhor em monumentos de qualquer escala e nem tão certeira em oferecer apostas no escuro. Muita coisa desconhecida pedante ou simplesmente bem ruim passou pelas telas, de um “Amor Moderno” a algum “Macaco Nu”.


Os Maus Perdedores: se não estrear no Brasil, pode reclamar muito

Na programação, digna de almanaque, onde nem por decreto dá para assistir a sequer um quarto de todos os filmes, o Indie vai se tornando mais apurado como mergulho no passado do que como panorama do melhor cinema mundial recente. Em termos de formação de público e re-descoberta de filmes, o trabalho da Mostra é extremamente bom.

No próximo ano, é melhor não esquecer de olhar com carinho para as retrospectivas, tenham elas o nome de um diretor (Imamura ou Morgenstern), de um país (Irã) ou estejam espalhadas em outros programas (“Repulsa ao Sexo”, “Aqueles Dois”, “A Mulher e La Bête”....). Monumentos recentes também têm vez, como o François Ozon e seu “O Tempo que Resta”.

O Mondo Bizarro seguiu em 2006 como boa opção para quem gosta de cinema ligado em 220v, lado a lado com um quinhão da Mostra Mundial. Como boa parte dos filmes da Mundial estréia na cidade após o desmonte da Indieana, sobrou tempo para descobrir um “Livro dos Recordes de Shutka”, uma pequena e sincera diversão de como poderia ser a coluna social de uma cidade interiorana se ela estivesse no caderno de humor e fosse escrita com sumo de limão. E se houve também o grande encontro com um “Os Maus Perdedores” (resenha no ar logo, logo), houve a indigestão de um “Puro” – que na verdade estava é intoxicado, de acordo com o Daniel Oliveira.

A volta de uma Mostra de Cinema Mundial não significa necessariamente tirar o pé da estrada. Eu sempre preferi guardar catálogos de programação como guias de indicações e não como maços de folhas para alimentar gavetas. Um universo paralelo só abre portas para cair em novas estradas – algumas bem mais velhas do que quem as assiste. Agora é minha hora de ir na gaveta e resgatar uma papelada. Sabe, a gente fica com fome de cinema depois de um Indie. Para vocês, até a próxima.

P.S., primeiro e único: em 2007, bem que poderia rolar de novo uma vinheta musicada pelo Modeorabo. A de 2006, para mim, ainda é a trilha oficial do Indie.

-- It´s all over now, baby blue –

Escrevendo de: Narayama, Indieana, 01/09

por Rodrigo Campanella

E de repente a gente abre o olho no travesseiro e percebe que hoje não vai ter cinema, não vai ter fila, não vai ter minutos (ou horas) perdido no catálogo escolhendo as sessões do dia e calculando horários. O Indie subiu o último degrau.

Meu tchau foi, talvez por intuição, com um filme de despedida: A Balada de Narayama, uma coisa linda e não muito fácil de assistir do diretor japonês Shohei Imamura. Essas questões de fácil e difícil em ver um filme são bastante mutáveis, o que ficou bem claro nessa Mostra. A procura pelo cinema iraniano (e os elogios dos mais diferentes públicos no fim das sessões) ficou lado a lado com os comentários nem tão elogiosos em relação às retrospectivas do polonês Janusz Morgenstern e a esse Narayama de ontem.

É engraçado como o formato mínimo, e boa parte das vezes tocado ao drama sentimental, dos iranianos seja visto hoje como mais fácil que uma obra italiana ou japonesa de trinta anos atrás. Não é só o gosto pessoal, não é só hype, é uma questão da cultura que se consome e de como se vê o mundo a partir daí. E as coisas mudaram um tanto, baby. A reflexão e as pedradas no telhado que dava Imamura foram substituídas por uma outra reflexão, nos iranianos. Seria idiota avaliar se melhorou ou piorou, pois (que bom) ninguém ainda inventou um ‘índice de construtividade reflexiva’ para medir isso – porque não se trata de competição alguma.

O próprio cinema japonês mudou bastante, como deixaram claros alguns filmes da programação Japão Cult, com desconfortável jeito de fazer filmes para tela grande sem parecer muito cinema. Dos que eu vi, “Cream Lemon” foi de longe o melhor, e nem é tanto assim. Os comentários ouvidos por conhecidos também não foram dos melhores.

No geral, o Indie continua cumprindo seu papel, essencial, de trazer um circuito alternativo e gratuito para BH, apesar de ainda bastante restrito – nem os motoristas de táxi, sempre bem-informados dos grandes eventos por motivos óbvio$ sabiam do festival, apesar das salas lotadas no Usina.

Por enquanto é isso. Depois de ficar praticamente sedado após 23 sessões de cinema, ainda vou precisar ver Narayama de novo, em condições, digamos assim, mais normais. Enquanto a poeira Indie ainda baixa na minha cabeça, leia abaixo as anotações dos outros dias que mais tarde a gente se fala de novo.

-- O pensar e o não pensar -

Falando do: Mundo das listas

por Daniel Oliveira

Da série: coisas para se pensar em uma fila indie:

1) “Quem deixou aquele diretor americano estúpido encostar a mão em uma câmera?”

2) “Será que os franceses gostam de ficar muito tempo dentro de salas de cinema, por isso os filmes deles se arrastam tanto?”

3) “Por que fazem tanta sacanagem com as criancinhas iranianas?”

4) “Por que a mente de alguns diretores japoneses é tão perturbada?”

5) “Será que só eu achei aquela atriz de “Beijo de inverno” a Cate Blanchett norueguesa?”

6) “Essa paz do Humberto Mauro é mesmo uma sessão do Indie ou é alucinação do cansaço?”

7) “Por que todo mundo resolveu ver o mesmo filme que eu?”

8) “Qual será a média de pessoas que furam fila ao encontrar com um amigo na sua frente / hora?”

9) “Por que fizeram aquela sacanagem com Plutão? Como vai ficar aquela história da velha, do jantar e do pão?”

10) “O que mesmo eu tenho que comprar no supermercado?”

+++10 motivos pelos quais “Stomp! Shout! Scream!” é um filme nota 10+++

-- A madrugada às sete da noite –

Escrevendo do: sofá de Emanuelle, 30/08

por Rodrigo Campanella

Hoje teve sessão de “A Mulher e la Bête”, sensacional filme dos anos 70 dirigido pelo polonês Walerian Borowczyk. Por sensacional traduza-se gargalhante, erótico-pornográfico e pervertido, capaz de deixar a sala toda em silêncio para estourar numa risada daí um segundo. Quatro guris de bonés saídos do cursinho se espantaram com o filme a sessão toda, tanto por ser bom (afinal, era ‘filme velho’) quanto pelo conteúdo em si.

Realmente, se isso passasse na tv toda madrugada o interesse por cinema cresceria bastante. E o melhor – é um filme delicioso, sem entrar nos detalhes da carne. Pode ter certeza que algumas pessoas que nunca pensaram em entrar na seção de clássicos das locadoras vão botar um olho atento por lá no próximo fim-de-semana.

De resto por hoje, o japonês “Paraíso”. Nada demais para dizer, só que é decepcionante alguém perder boas idéias e esforço para não tentar te provocar nem um pouco. Talvez a intenção seja que o público vá embora no meio da projeção e eu ainda não entendi. É simplesmente um tiro naquilo que existe de sobra entre as ilhas japonesas, de um filme que resolveu esquecer qualquer emoção em casa e nem se dá ao trabalho de agradecer ao espectador pela atenção.

-- On the road, again –

Escrevendo da: BR-3, 30/08

por Rodrigo Campanella

O Indie 2006 começa a subida dos últimos degraus rumo ao telhado e fica aquela sensação de minutos antes de pegar o ônibus de volta pra casa com um pacote de bolachas na mochila, um álbum de imagens da câmera e outro na cabeça.

Nesse penúltimo dia, sobrou tempo para enfiar o pé na estrada e fazer um tour rápido por Shutka, possivelmente a capital mundial dos campeões auto-nomeados em alguma coisa, na visão desse documentário que ironiza até o próprio gênero. “O Livro dos Recordes de Shutka” é diversão pequena e certeira, talvez ainda mais gostosa para quem tem alguma ligação com cidades interioranas, em qualquer lugar do mundo.

É nas ofensas e beijos públicos de marido e mulher, na discussão que nunca se conclui na praça, no maior colecionador do mundo em alguma coisa – segundo ele próprio, claro – que o diretor Aleksandar Manic vai construindo sua cidadezinha na tela, e esse espírito de lugar pequeno é bem mais importante que qualquer recorde. Sem pretensões, dá pra colecionar risadas o filme todo. É um culto ao pequeno, ao brega, ao sem lugar no hall da fama e das luzes. Bem estranho, e divertido.

-- Como assistir “Amor Moderno” –

-- Drops único de gengibre –

-- Resposta antiga, pergunta nova –

-- Dropeando –

-- Macaco, sim. Estúpido, não. -

-- Conversar também é de graça --

-- Medo -

-- A morte nem tão densa –

-- Algumas versões do terror –

-- O infinito, o universo e tudo mais -

-- Múltipla-escolha –

-- Com quê Cinema eu vou? –

-- Com quê Ingresso eu vou? –

-- Ele também não estava lá –

-- Três Graus de Mornidão --

-- It Returns. It Begins. –

-- Puro --

-- Da série: coisas para se fazer em uma fila indie -

-- Indie-cações --

-- Dois Anjos --

-- Um Arco --

-- Good news for people who hate bad news,
bad news for people who love good news --

-- Em algum outro lugar --

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