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PRONCOVÔ

Grupo Corpo – Missa do Orfanato e Onqotô, Belo Horizonte, 08/09/06

por Rodrigo Campanella

Fotos: José Luiz Pederneiras

Primeiro vem a missa, depois a criação do mundo, e deve haver alguma ironia na escolha e na ordem dos dois balés que compõe a apresentação atual do mineiro Grupo Corpo. Mozart retumbou nos alto-falantes do Grande Teatro do Palácio das Artes para a apresentação da “Missa do Orfanato”, coreografia que o grupo inaugurou em 1989, re-editada agora. Seria possível fazer todo esse texto sobre como coreografia, dramaticidade e figurino se esparramam por cima da música e dão santidade a uma missa profana – coisa que Mozart, bem menos careta do que se possa pensar, teria aplaudido de pé, no piano. Seria possível dedicar esse texto a um grupo e um coreógrafo, Rodrigo Pederneiras, que já faziam dança afiada há dezessete anos atrás, se logo depois não tivesse vindo “Onqotô”.

Fique bem claro, de começo: o Caetano Veloso experimentalista não me emociona muito. Idiossincrasia minha, que seja, mas é isso – normalmente não me acerta. Admiro incondicionalmente o Caetano, obra completa, não o poeta concreto. E o trilho sonoro pelo qual corre “Onqotô”, a coreografia mais recente do grupo, é uma parceria de Caetano com Zé Miguel Wisnik, o que, de saída, já promete experimentações de toda sorte.


O Corpo se arrisca saltando no universo

Uma boa definição para a apresentação de Onqotô daquela sexta seria a de uma bola de demolição invertida que, a cada estocada, construísse uma fração do edifício. No último ano, vendo no teatro “Um Espírito Baixou em Mim”, saí demolido, esgotado e satisfeito, com a sensação de ter sido derrubado pela insistência do elenco em dar uma boa comédia a partir de um texto meio capenga. Em Onqotô, a satisfação veio de outro modo: a cada pancada que o espetáculo dava, eu crescia um edifício. E a sucessão de acertos, as pancadas, não cessa durante a quase uma hora de espetáculo. Se fosse algo feito para demolir, dava para ter posto o centro de BH inteiro no chão.


A vida é cheia de som e fúria e ginga

Esse é um texto apaixonado, como são vários do Pílula: eventos que não estão na pauta, aos quais nem vamos como jornalistas, mas que se tornam impossíveis de não render matérias depois. Em vez de conseguir formar frases para comentar o balé, a vontade é preencher daqui até o fim da matéria escrevendo “Vá, e veja”. Dificilmente você vai encontrar no Brasil outra aula tão universal de como dança contemporânea pode simplesmente te deixar batendo palma de pé por meia hora, absolutamente emocionado e sem conseguir explicar o que acabou de acontecer.

Naquele dia, houve coisa de sete minutos de aplauso ao final. Foi pouco. Vendo a “Missa” lado a lado com a mais recente coreografia, é impressionante perceber como o Corpo se aprimorou tanto para poder arriscar cada vez mais nas quase duas décadas que separam os dois espetáculos.


Doncôvim. Onqotô. Proncovô.

Onqotô, o espetáculo, oscila no mesmo pêndulo das músicas que abrem a trilha: um formato mínimo (nas letras) e uma anarquia gingada, que pode parecer aleatória mas é construção cuidadosa e antenada com os batuques do mundo (no ritmo). O mínimo está também no cenário eficiente (tiras que fecham o palco em um semi-círculo), nos figurinos e coreografias (“Mortal Loucura” e “Tão Pequeno”, cada uma em cima de um poema musicado, são topos de montanha). O que não se encaixa nisso já faz parte do caos crescente, sem núcleo e divino, maravilhoso que toma o palco no resto do tempo (“É Só Isso”, “Big Bang Bang”, “Onqotô”...).


"Onde pode acolher-se um fraco humano/
Onde terá segura a curta vida"

Naquele vai-vem, o balé sintetiza com forma e sentido a frase de Nelson Rodrigues que serve de mote a tudo: “O Fla-Flu começou quarenta minutos antes do nada”. Está aí a resposta que essa brincadeira, brinquedo maduro, oferece para a pergunta que dança na nossa cabeça, quase todo dia: afinal, Onqotô. É Maracanã lotado e a certeza de seguir, caótica e afetuosamente, mas seguir, que o Corpo dança hoje em dia. Como Caetano, ecoou no meu ouvido: é só is-sô.

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