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Na praça, na tenda, na faculdade

Proibido proibir em Tiradentes

por Rodrigo Campanella

Sexta à noite, algumas estrelas ainda se aventuravam pelo céu de Tiradentes acompanhadas de uma lua cansada, prometendo que a sessão de Proibido Proibir poderia ser exibida na praça - sem sinal de chuva até aquele momento. E foi depois de uma hora de projeção no excelente equipamento do Cine-Praça que o céu despencou. Não sem aviso. Primeiro vieram seis chuveiradas em sequência, que faziam abrir e fechar os guarda-chuvas em meio a risadas gerais. Depois veio o toró e a corrida inevitável para um abrigo mais próximo ou para o Cine-Tenda.

A reexibição de "Proibido" veio apenas perto da meia-noite, quando o filme anterior exibido na Tenda terminou. Sala completamente lotada, restou sentar no chão e tirar um cochilo muito confortável (dormir em sala de cinema é uma delícia) até chegar perto do ponto em que São Pedro havia dado pausa no filme. Depois, olhos abertos e satisfação de ter compensado assistir até o fim.

Leia a resenha de "Proibido Proibir"


Verdades absolutas, paga-se R$2. Sujeito à lotação.

Igreja Revolucionária dos Corações Amargurados, curta-metragem

por Mariana Souto

Programado como último curta da mostra, o filme de Carlos Magno provoca incômodo e reflexão. A montagem ritmada causa uma confusão positiva no espectador, que percebe a crítica à igreja mas não detecta um discurso construído ou panfletário. O efeito se aproxima ao de uma mensagem subliminar e a estética chamativa tem papel fundamental no envolvimento do público.

Mesmo porque “Igreja dos...” é uma experiência estética. Carlos Magno constrói o impacto do filme não só com o conteúdo (forte), mas com uma forma autoral; trilha, imagem e edição se juntam para fazer uma espécie de lavagem cerebral, assim como apontam que acontece nas igrejas e seus cultos hipnóticos. Se os fiéis entram em transe com música e mantras, o público entra em transe artístico e cultural. O curta possui uma potência imagética e um estranho magnetismo que parece ser planejado para atingir o inconsciente de quem assiste.

Em entrevista com o produtor Chico de Paula e a atriz Shyrlene Oliveira, soube que a equipe anunciava por alto-falante o culto realizado em um galpão numa região pobre. Ofereciam uma quantia (espécie de cachê simbólico) para quem entrasse e pegavam autorização de uso de imagem, mas ninguém sabia que era a filmagem de um curta. Shyrlene, apesar de ter gostado bastante, conta que sentia-se mal ao ver a “platéia” se envolvendo e acreditando, com direito a ‘em nome do pai’ e olhos fechados. Uma multidão se amontoava na porta querendo entrar, a ponto da polícia ter de ser chamada. O impressionante é que a tal quantia era de dois reais. Pois é.

O diretor exibe o povo sujeito às picaretagens de religiões. A Igreja Revolucionária dos Corações Amargurados usava em seus ritos nudez, sangue, bodes e ninguém questionava. A comunidade só se revoltou quando afetou o bolso. Por dinheiro, trocavam de crença. Provavelmente muitos eram de outras igrejas e, com a publicidade de alto-falante e o mísero pagamento, já abandonavam algo que dizia de seus princípios, verdades e valores.

Além de experiência estética, “Igreja” é um experimento sociológico. Seus efeitos e a polêmica metodologia podem ser discutidos amplamente. Carlos Magno, para mostrar como as pessoas se vendem, comprou-as. Para provar como acreditam cegamente, enganou-as. Seu ponto está provado. Pela crítica e arte, vale a pena cair nos mesmos erros que se critica? Os embates éticos foram conscientes na equipe, que não deixou de se questionar. Apesar de controverso, a força e a potência do curta são aspectos tão admiráveis que não deixam espaço para que nada seja assistido depois.




Depois da ode, a tela

por Rodrigo Campanella

Enquanto "Antônia" aguardava ser exibido no Cine-Praça, emoldurado numa noite de algumas estrelas, o Cine-Tenda começava a estréia, no Estado, de "Batismo de Sangue", do diretor mineiro Helvécio Ratton. Convidados e imprensa já ocupavam boa parte da sala, quando as portas (comportas?) foram abertas ao público, que fez questão de avaliar a capacidade de lotação da sala de um canto ao outro e provar que sim, sempre cabia mais um.

Uma boa parte dos presentes viu o filme de pé, e sem reclamar. As fileiras reservadas para convidados de uma ponta a outra, novidade negativa dessa sessão, foram as primeiras a ganhar o abraço da multidão. Depois do filme, cumprimentos aos frades retratados na hitória e presentes ali em Tiradentes (Frei Betto, Frei Oswaldo, Frei Fernando). Alguém grita sobre 'a salvação do cinema nacional', mas a saída é bastante morna e silenciosa no geral. Talvez porque a festa de encerramento da Mostra já desse sinais de início lá fora. Sobre o filme:

A crítica de "Batismo de Sangue"




Todas as esquinas são Antônia

Os momentos chave de um debate que nem de longe foi uma ode a um filme ainda não visto

por Rodrigo Campanella

O cineasta Francisco César Filho, mediador do encontro, anunciou o início do que ele chamou ‘debates inusitados’: filmes que seriam discutidos, no sábado, antes que os próprios fossem exibidos ao público. Logo depois das falas de ‘Antônia’ viriam as de ‘Batismo de Sangue’. E o que ocupou o primeiro debate foi uma discussão, consistente, sobre um filme inédito. Sem necessidade ou lugar para louvações antecipadas e gratuitas.

1 Segredo: alquimia “A química do elenco é a qualidade que salta mais aos olhos e era isso que o público comentava depois da sessão. Mesmo a questão da música, do funk, que surgiu no Rio, hoje é associada lá com a criminalidade, com bandidos. E ‘Antônia’ tira desse lado, traz de volta um outro. Inclusive, a pergunta que se fez no Rio foi: ‘onde fica a violência nesse filme?’” (Rodrigo Fonseca, crítico do jornal ‘O Globo’)

2 Técnica: meia-luz “A Tata (Amaral, diretora do longa) tinha acompanhado o processo do ‘Contra Todos’ (de Roberto Moreira, 2004) onde a gente utilizou o recurso de não entregar o texto para os atores, mas construir junto. Foi um processo muito rico, só algumas informações eram passadas e eles tinham que encontrar no silêncio, no contato com outros atores, o que estava acontecendo. E ela decidiu usar isso no próximo filme, que era o ‘Antônia’”. (Sérgio Penna, preparador de elenco do longa)

3 Ingrediente: violência ‘Eu acho que a violência está presente no filme, sim. Há dois momentos bem explícitos: quando o menino expulsa o outro do jogo e fica claro que ele é o cara do tráfico, e a hora em que ele enche de porrada os homossexuais. Eu mesmo vivi numa rua, uma subida, onde da minha casa para baixo era o subúrbio de ‘A Grande Família’ e da minha casa para cima era ‘Cidade de Deus’. Acho que ‘Antônia’ está ali para mostrar essa esquina das periferias do Brasil”. (Sandra de Sá, a mãe de Preta no longa e na série de tv)


A mesa de Antônia

4 Dose máxima: o Rio Hoje existe a exposição da hiperviolência, que eu acho que funciona como uma catarse para o momento que o Rio de Janeiro vive. Mas o modo como a mídia vem tratando isso, como se o Rio passasse por um descontrole total, complica até mesmo a subjetividade do carioca. E o que ‘Antônia’ traz, essa esquina, essa convivência, é o que não vem sendo discutido em nenhum veículo”. (Rodrigo Fonseca)

5 Embalagem: artesanal “A direção de arte foi trabalhada junto com o produtor de locações, procurando os lugares na Vila Brasilândia. O filme foi praticamente produzido ali e 80% do orçamento de arte ficou na Vila, de objetos deles que a gente alugava ou tomava na base da troca de um novo por um velho”. (Rafael Ronconi, diretor de arte)

6 Fórmula: em progresso “A intenção da Tata era construir o filme com os atores, por isso ela não usava um roteiro, mas o que ela chamava de ‘escaleta de ações’. Eu recebia o material filmado a cada dia e já começava a montar. Depois de um descanso no fim das filmagens, sentamos eu e ela e fizemos uma ‘montagem-osso’, que tinha só o essencial para compreender a história, que inicialmente seria centrada só na Preta (Negra Li). A Tata comenta muito sobre como ela reescreveu esse roteiro na montagem”. (Idê Lacreta, montadora)

7 Envase: gota em gota “A cumplicidade na tela foi construída pouco a pouco, com elas convivendo, cantando, e a gente dando uma sugestão ou outra. E com o conforto elas começavam a falar e a agir normalmente, cotidianamente, o que rendeu muito para o filme”. (Sérgio Penna)

8 Concentração: estudada “A preparação com atores, especialmente com não-atores, tem de ser feita com muito cuidado, tato, tempo. São seres humanos e podem se quebrar, machucar. E normalmente são pessoas não-acostumadas a criar mundos paralelos, muitas nunca pensaram em fazer arte. Também faço um trabalho de não-preparação, deixando claro que é só uma história, que aquilo é ficção”. (Sérgio Penna)

9 Vitamina: confiança “Eu não me considero uma não-atriz ou Thaíde como um não-ator. Todos ali são ótimos atores, senão o Penna não teria perdido tempo com a gente. E hoje em dia o tanto de não-cantores que tem por aí é enorme, e não me preocupa”. (Sandra de Sá)


E Antônia em cima da mesa

10 Catalisador: delicadeza “Todas as meninas que não foram escolhidas contribuíram muito para o filme com as histórias que elas queriam trazer. O cotidiano, os filhos, as pequenas traições, um lado que elas não encontravam lugar para exibir. E elas se emocionaram ao ver que era um filme delicado, sobre esse lado escondido.

O que o filme fez foi, inclusive, reunir várias periferias, que inclusive ficam muito longe e você não tem dinheiro para conhecer. O mais interessante foi ver essas meninas descobrirem como elas tinham coisas em comum”. (Sérgio Penna)




Pelas metades

Encontro da crítica, diretor e público - "Batismo de Sangue", 27/01

por Rodrigo Campanella

1. As palavras

O meio maior que o fim – 5 questões sobre o processo de “Batismo de Sangue”, o filme

“A intenção foi contar o que foram os porões da ditadura de uma forma mais profunda. Nos filmes brasileiros sempre tem aquela cena clássica do cara com a cabeça enfiada na água e depois com sangue, filmado de longe. Nós quisemos ir além. E não se torturava porque eles (os torturadores) eram maus ou doentes, mas porque é uma forma do Estado de arrumar informações. Eram funcionários públicos que torturavam, e batiam ponto antes de fazer isso”. (Helvécio Ratton, diretor)

“Eu lamento que o Brasil seja o único país da América do Sul onde os crimes da ditadura jamais foram castigados. Foi criada uma aberração jurídica chamada Anistia Recíproca. Mas só pode existir anistia para quem sofreu com isso – e os torturadores nunca foram condenados. E o mérito é que o filme (baseado no livro de Frei Betto), faz a síntese dos paradoxos. Quando você pensa em frade, mosteiro, a última coisa que associa é luta armada.” (Frei Betto)

“Quando eu vejo filmes de outros diretores com meus amigos, nós comentamos sobre os aspectos formais e técnicos do filme. Mas ‘Batismo’ é um filme que toca mais profundamente porque ele tem uma função. Fico com a sensação de que apenas a oportunidade de ter conhecido eles (os frades), de ter tido contato com esses bastidores da história brasileira, já fez valer a pena”. (Odilon Esteves, ator, visível e sinceramente emocionado)


Helvécio Ratton, diretor

“Em um dos ensaios da tortura, quando ninguém agüentava mais, o poder estava apenas do lado dos torturadores, os torturados se deram as mãos e começaram a entoar um Pai Nosso. Aquela oração batida, comum, ganhou uma dimensão tão grande que os torturadores não conseguiam fazer mais nada, isso acabou barrando eles completamente”. (Sérgio Penna, preparador de elenco)

“Apesar do filme se passar quase todo em São Paulo, filmamos em BH, uma cidade que eu acredito reproduz o que era o crescimento de SP décadas atrás. Por ironia, filmamos o presídio em uma faculdade abandonada da cidade. Também a USP foi filmada assim, na antiga Faculdade de Farmácia (da UFMG). O importante era criar a atmosfera”. (Helvécio Ratton)

Os cinco elogios mais rasgados

O encontro entre crítica, público e equipe de “Batismo de Sangue” aconteceu antes da exibição do filme, no último dia de Festival. O mesmo aconteceu com “Antônia”. Mas apenas no filme mineiro esse fato converteu o debate em uma bem lapidada peça publicitária, tão mais desconfortável quando se percebe que cada uma das frases abaixo é uma declaração com muito de sinceridade.

“É até difícil falar algo, porque eu aprendi muito sobre o trabalho de ser ator nesse filme”. (Odilon Esteves, ator)

“É impossível sair ileso de um processo como o de ‘Batismo de Sangue’” (Guilherme Fiúza, produtor)

“E o filme trabalha muito bem aquilo que o Camus dizia ser o único problema realmente filosófico: o suicídio. Será a primeira vez que o público brasileiro verá um suicídio a favor da vida”. (Frei Betto)

“Eu tenho a intenção de fazer filmes para o público e tem gente que parece ter vergonha de dizer isso. Parece que fazem filmes feitos para participar de festivais e dão uma espécie de piscada para quem escreve sobre filmes. Eu não faço isso. Coloco sim certos cacoetes no filme, que eu acho importantes para estabelecer uma comunicação com público”. (Helvécio Ratton)


Cordão de isolamento

“É muito bonita a história deles, o que eles passaram, sofreram. Acho que talvez depois de fazer o ‘Batismo’ eu seja um ser humano melhor” (Léo Quintão, ator)

2. O debate na sociedade do espetáculo

IN THE FLESH?

(Waters, in Pink Floyd The Wall 1979)

“So ya

Thought ya

Might like to go to the show.

To feel the warm thrill of confusion

That space cadet glow.

Tell me is something eluding you, sunshine?

Is this not what you expected to see?

If you wanna find out what's behind these cold eyes

You'll just have to claw your way through this disguise.”




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