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Eles (en)cantam e também dançam

Filmes sobre músicos e suas músicas

por Marcela Gonzáles
com Daniel Oliveira e Rodrigo Campanella

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O basquete não causa muito furor aqui no Brasil, terra do futebol. Mas nos EUA, é talvez o esporte mais popular, levando milhares de espectadores à torcida na Liga da NBA. Logo, logo, teremos seu Dream Team nos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro. E, cá pra nós, de sonho o norte-americano entende – tanto que Hollywood é a maior fábrica deles no mundo. Desses sonhos, saiu um filme sobre meninas que tinham um: cantar.

O bafafá do Globo de Ouro ao redor de “Dreamgirls” foi tanto que ele acabou levando o prêmio de Melhor Filme – Musical ou comédia. Para o Oscar, não chegou nem à indicação na categoria principal. Estreando nos cinemas do Brasil, “Dreamgirls” pode causar rebuliço ou ver que o sonho realmente acabou ali, no Globo de Ouro mesmo. O Pílula, entrando na onda dos sonhos, listou o seu dream team de filmes sobre músicos e suas canções. Alguns viram o sonho realmente acontecer - e o sucesso durar -, outros só sentiram o gostinho da coisa.

Os titulares

Ala 1: Ray, de Taylor Hackford (2004)


Sorrisão

Um dos mitos da soul music teve sua história contada por Hollywood, num filme em que a crítica aclamou a grande atuação de Jamie Foxx, Oscar de Melhor Ator. Mas nem tudo eram flores em “Ray”. Tentando contar todos os detalhes da história, o diretor Taylor Hackford parece que se atrapalhou um pouco com a bola.

Eles (en)cantam: Jamie Foxx é primoroso. Todo o filme toma uma dimensão diferente (e vale ser visto) justamente pela ótima interpretação. Também vale por ter sido assessorado pelo próprio Ray Charles, antes de sua morte, e por seu filho, produtor executivo da película, trazendo o universo da música negra da época e os grandes parceiros de Ray.

Eles dançam: O filme se prende demais aos detalhes. Isso barra o desenrolar da história, sem dar atenção a certos momentos cruciais da carreira de Ray, que poderiam dar fôlego, coerência e criatividade ao filme.

Ala 2: Johnny e June, de James Mangold (2005)


Amorzão

Contar a história de alguém tão complexo quanto Johnny Cash não é tarefa fácil. Mas James Mangold conseguiu cumprir, digamos, metade da tarefa, e driblou um pouco as críticas. Pelo menos, o público viu que o amor de Cash por sua musa era de fato forte e eterno. Por trás de um homem gutural, existe mesmo uma grande mulher.

Eles (en)cantam: Joaquin Phoenix e Reese Witherspoon convenceram no papel do casal mais famoso da folk music. Fazendo eles mesmos as vozes e o instrumental, quase dá para acreditar que poderiam se dar bem como cantores se a carreira no cinema já não lhes rendesse dinheiro e sucesso. A história também é bacana e faz com que o espectador veja um Cash menos casca grossa do que aquela voz aparentava. Rendeu o Oscar de Melhor Atriz para Witherspoon.

Eles dançam: Ter sido lançado após Ray atrapalhou um pouco o timing do filme. As comparações foram inevitáveis e as surpresas não surtiram efeito. Também a brincadeira de gato e rato que virou a relação entre Johnny Cash e June Carter na tela foi meio chatinha.

Pivô 1: Velvet Goldmine, de Todd Haynes (1998)


Poserzão

A história das origens remotas do punk e do glam rock dos anos 70 é ficcionalizada através da pesquisa de um jornalista (Christian Bale, ótimo) sobre a ascensão e queda de um astro inglês (Jonathan Rhys-Meyers), de quem ele foi fã na juventude. O personagem de Meyers mistura David Bowie e Mick Jagger, enquanto Ewan McGregor interpreta um roqueiro que mistura Iggy Pop e Lou Reed. Toni Collette ainda marca presença e conta com uma super cena Angela Bowieana. Trilha musical de primeira.

Eles (en)cantam: Grande constelação de estrelas. A começar por Ewan McGregor, passando pelos ainda desconhecidos Jonathan Rhys-Meyers e Christian Bale, e pela sempre ótima Toni Collette. Conta supostamente a história de como Iggy Pop e David Bowie se envolveram e influenciaram. Obviamente os personagens são apenas inspirados nos cantores, mas para que negar a comparação se ela é estampada?

Eles dançam: O filme perde um pouco do foco e do ritmo na segunda metade, parecendo não saber muito aonde quer chegar. As cenas fortes – tanto de sexo quanto de drogas e rock’n’roll – afastaram o grande público, tornando-o filme para os circuitos de arte.

Pivô 2: The Doors, de Oliver Stone (1991)


Lagartão

Jim Morrison teve uma carreira relâmpago com seus The Doors. Foi encontrado morto em seu apartamento em 1971, quando a banda atingia o apogeu. Prato cheio para Hollywood e seus sonhos roçando o pesadelo. Três pontos numa cesta fácil, ainda mais comandado por Oliver Stone, encantado com ascensão e derrocada de Morrison.

Eles (en)cantam: Se os Doors criaram a lenda por si, Stone tratou de dar o polimento final e espalhar a história para o mundo não-norte-americano. Fica a impressão de que a queda era inevitável porque Morrison não era só um homem, mas um homem com uma missão – que ele mesmo nunca compreendeu. Entre lisergia e histórias do homem-lagarto, palmas para Val Kilmer, especialmente inspirado.

Eles dançam: Não é uma biografia, mas uma ode. E às vezes o filme exagera no tamanho do pedestal para Morrison, como Oliver Stone faz usualmente. Um toque a mais de realidade, por mais cruel que seja, era uma boa pedida.

Armador: No Direction Home, de Martin Scorsese (2005)


Poetão

Unir Bob Dylan a Martin Scorsese é covardia. Só poderia sair coisa boa. O documentário sobre a história do mais famoso cantor da folk music tem o afinco de Scorsese, numa jogada de mestre. Depoimentos de Dylan (bem difíceis de conseguir) e de pessoas próximas só confirmam a qualidade do material, cheio de raridades e curiosidades sobre o pai do Jacob.

Eles (en)cantam: Scorsese explora não só o universo musical e os parceiros ou influências de Dylan, como Johnny Cash. Também aborda as questões políticas e sociais da época, nas quais o músico não tomou partido, mas que atravessam suas canções. Os shows em que Dylan foi vaiado, a sorte do início da carreira, está tudo lá. Impecável, sob o olhar ímpar de Martin Scorsese.

Eles dançam: Se você é fã de Dylan ou de Scorsese, tem praticamente o dever de conhecer esse material. Mas se não se enquadra em nenhuma das duas opções, vai achar o documentário longo demais (dois dvds de quase duas horas cada) e até um pouco confuso. Scorsese tenta fugir do formato cansativo de documentário, tornando-o, sim, interessante mas deixando-o confuso com relação a datas e acontecimentos.

Reservas

Reserva 1: Os Cinco Rapazes de Liverpool, de Iain Softley (1994)


Bandão

Imagine que você tem uma banda e vocês são realmente bons, mas não foram descobertos. Imagine agora que por um acaso do destino você precisa sair justamente quando ela está começando a crescer. Imagine como você se sentiria se esse grupo se tornasse a maior banda pop de todos os tempos. “Os Cinco Rapazes de Liverpool” conta a história dos Beatles - que eram cinco - e como as coisas eram antes do sucesso.

Eles (en)cantam: O roteiro é muito bem amarrado e faz você acreditar em cada coisinha que é mostrada. As músicas, o universo dos Beatles antes da fama, as brigas e os amores, tudo ali, e você pergunta se realmente foi dessa forma.

Eles dançam: O personagem de Stephen Dorff, Stuart Stucliff, é mostrado como o mocinho, enquanto John Lennon é o grande vilão. Isso seria até interessante se Stu não fosse bonzinho demais, fazendo Lennon parecer mau demais. And it's John bloody Lennon, for Christ's sake! Não se pode macular essa imagem assim. E depois de tudo que o Lennon faz no filme, o Stu ainda fica feliz por eles no final das contas. Ah, faça-me o favor.

Reserva 2: Cazuza, de Walter Carvalho e Sandra Werneck (2004)


Molecão

História da ascensão musical de Cazuza, tanto no Barão Vermelho quanto na sua carreira solo, e as conseqüências da sua vida (louca vida, vida breve), em especial a luta contra a AIDS.

Eles (en)cantam: O mineirinho (como o Pílula Pop) Daniel de Oliveira está perfeito como Cazuza. Além de parecer fisicamente, conseguiu o mesmo jeito, os gestos e até a fala do cantor. Marieta Severo como Lucinha Araújo, mãe de Cazuza, também é muito boa. Aplausos da crítica vieram para ambos.

Eles dançam: O bom roteiro caiu na síndrome de Ray - contar muita coisa em pouco tempo de projeção equivale à perdição. Nenhum fato em especial é relatado com veemência exceto a luta contra a AIDS, única fase da vida do cantor que o filme desenvolve melhor. Mas todo o processo para Cazuza chegar ao topo é contado com certa rapidez – o espectador mais atento percebe isso e não gosta.

Reserva 3: 2 Filhos de Francisco, de Breno Silveira (2005)


(Seu) Chicão

A história do avô da Wanessa é o foco principal do filme. Da vida humilde ao estrelato de Zezé di Camargo e Luciano, com a música “É o Amor”, tudo é contado de jeito simples, mas bastante bonito, por Breno Silveira. Deixou a crítica surpresa com um filme bem dirigido, bem amarrado e livre de preconceitos.

Eles (en)cantam: Atuações boas, com destaque especial para Ângelo Antonio no papel do patriarca Francisco, bom roteiro e, principalmente, deixar os preconceituosos de plantão de boca fechada. O filme é bom sim. E vale cada centavo gasto no aluguel do DVD.

Eles dançam: Os únicos pontos negativos do filme são o merchandising exacerbado, coisa de novela em uma película concisa. E o final do filme, que você nem percebe que é o final, e fica lá esperando o resto da história.

A promessa

Candidato a armador: I´m not there, de Todd Haynes (2007, provavelmente)


Dylão

Haynes volta à carga musical para encenar a vida de Bob Dylan de um jeito no mínimo espirituoso – cada aspecto da vida do músico é encenado por um ator. A lista inclui Christian Bale, Heath Ledger, Richard Gere e Cate Blanchett, todos como Bob. E o que poderia ser só uma sacada interessante ganha ares de um dos filmes mais inspirados e promissores do ano.

Ele promete (en)cantar: Todd Haynes, diretor também de “À Salvo” e “Longe do Paraíso”, tem competência e coerência o bastante para construir um filme ambíguo e essencial sobre um personagem real que atende pelos mesmos adjetivos. Se for tudo o que promete, Dylan merece um filme como “I´m not there”.

Ele promete dançar: Se fizer qualquer coisa menor do que uma doce bola de demolição atingindo telas por todo o mundo. Sim, aquela velhíssima história do tamanho dos poderes e do tamanho das responsabilidades.

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