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Sangue, suor e lágrimas da sua avó

Clássicos na prateleira - “A Um Passo da Eternidade”, de Fred Zinnemann

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O Pílula resgata do baú grandes filmes (e discos) pouco comentados, que estão sempre disponíveis na prateleira da sua locadora - ou nas prateleiras virtuais da web.

por Isabella Goulart

Em 1953 a Segunda Guerra era um passado recente. Se alguma ingenuidade restou da Primeira Guerra, ela se perdeu entre 1939 e 1945, quando o avanço técnico beneficiou o genocídio. As bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki lançaram a ameaça do conflito nuclear. Uma nova ordem se estruturava em cima de paranóia e insegurança. Com os equipamentos portáteis usados na guerra, os artistas foram para fora dos estúdios. Nascia o cinema moderno, perturbado por ter chegado tarde aos campos de batalha e de concentração. E, se ele falhou em registrar o caos enquanto acontecia, restava-lhe agora a obrigação de mostrar o que passou.


Os amigos se vão

Rossellini, de Sicca e Viscontti elevaram o cinema a um novo paradigma e diz-se que Hollywood jamais se recuperou do baque. Ainda assim, na costa oeste dos Estados Unidos, os negócios seguiam como de costume. Lá não havia espaço para o neo-realismo ou para o cinema pessoal e não-genérico que crescia na Europa – Godard, Resnais, Truffaut – e fora dela – o nosso Cinema Novo. Nem a popularização da TV, nem o fim do monopólio de produção, distribuição e exibição pelos grandes estúdios fez o antigo cinema de gêneros jogar a toalha. Insistindo contra a conjuntura mais desfavorável já enfrentada, Hollywood se valia do ar blasé de Clark Gable em “...E o Vento Levou” e da célebre frase de seu personagem: “sinceramente, minha cara, eu não dou a mínima”.

Se você perguntar à sua avó sobre “A Um Passo da Eternidade” ela contará como chorou por duas horas com o infindável sofrimento na tela. Talvez você não conheça o filme, mas deve ter na memória a cena em que Burt Lancaster e Deborah Kerr são cobertos pelas ondas enquanto se beijam na praia – uma das seqüências românticas mais famosas da história. Não é preciso Oscar para ser um clássico, mas oito estatuetas – como filme, diretor, atriz e ator coadjuvantes (Donna Reed e Frank Sinatra) – ajudam um filme a se tornar um. O campeão de 53 é uma amostra do delicioso fascínio do cinema clássico-narrativo americano, em sua melhor era. O tipo de programa que dava à sua avó a chance de escapar da vida real e estar com astros que eram deuses para gente comum.


A tarde na praia se foi

A fórmula combinava efeitos visuais, atores-fetiche em romances impossíveis e uma grande ferida da história americana. Esse belo melodrama de guerra, baseado no romance de James Jones, acontece numa base americana no Havaí às vésperas do ataque a Pearl Harbor. Lancaster era a primeira escolha da equipe para viver o Sgt. Warden, mas os demais atores eram a segunda opção dos estúdios. Kerr, por exemplo, interpretou Karen, amante do sargento, porque os figurinos (oscarizados) desagradaram a temperamental Joan Crawford - e foi um choque ver Deborah no papel de uma esposa infiel. Montgomery Clift e Donna Reed arrancaram lágrimas como um soldado solitário e uma prostituta que se apaixonam. O filme alavancou a carreira cinematográfica de Frank Sinatra que, em alguns anos, ganharia fama de ator instintivo, melhor em papéis que combinavam com sua personalidade. Sua espontaneidade valeu um Oscar quando Hollywood ainda não o aceitava bem. E mesmo sendo o foco cômico do filme, nem ele foge à tragédia.

Sofrer embalado pela música - eis a máxima de um melodrama. O destino é o grande vilão. Os personagens são passivos e impotentes diante dele, incapazes de ações concretas que conduzam à felicidade, sempre breve e fugaz, pois o passar do tempo é irremediável. Aqui não é diferente. Cada um traz feridas da vida e todos agem como vítimas resignadas, condenadas a um futuro sem esperança. As subtramas culminam com o ataque japonês, que lhes põe fim e é a representação máxima do destino impiedoso, maior do que os homens, do qual não se pode fugir. O ser humano está bloqueado, não tem saída. A nostalgia é a metáfora de uma vida perecível.


Mas o beijo, enfim, ficou eterno

Aristóteles já sabia que a tragédia tem forte apelo popular e nada mais fascinante que o escapismo masoquista de pagarmos um ingresso para que nos façam sofrer. Nos anos 50 o mundo ia por um novo caminho, mas os estúdios em Hollywood ainda mantinham aquele poder hipnótico de dar inveja à psicanálise.

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