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Viver a vida

Clássicos na prateleira: Jules e Jim, de François Truffaut

por Mariana Souto

O Pílula resgata do baú grandes filmes (e discos) sempre disponíveis na prateleira da sua locadora - ou nas prateleiras virtuais da web – que às vezes passam batido.


no cartaz

Não dá para avaliar filmes atuais de triângulo amoroso e muitos menos considerá-los originais e criativos sem ter visto antes “Jules e Jim”, de François Truffaut. Mas isso não quer dizer, nem de longe, que o filme de 1962 é apenas sobre uma relação amorosa entre três pessoas.

“Jules e Jim” é sobre o turbilhão da vida*. Fala da relação entre homens e mulheres, de casamento, transições, infidelidade, separações, mas sobretudo de amizade. Afinal o filme se chama Jules e Jim e não Jules e Catherine ou Jim e Catherine e nem só Catherine. A amizade entre Jules, o alemão, e Jim, o francês, as concessões que fazem em razão do outro, os ciúmes, a dedicação e admiração mútua são os pontos centrais, tratados com a grande sensibilidade típica de Truffaut.

Já no prólogo somos apresentados à rotina da dupla e ali imergimos em um universo de lirismo, força e vivacidade. O cotidiano de Jules e Jim nem é tão emocionante assim - mas o olhar de Truffaut é. O narrador, dinâmico e engraçadinho, às vezes faz comentários pessoais inusitados e provavelmente inspirou o de “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”. Enquanto ele conta e palpita na história, assistimos a vários momentos dos dois, com todo o companheirismo que há entre eles. Catherine entra na trama fragmentada pela montagem, que a apresenta de diversos ângulos por meio segundo cada. Ela é a quebra da convivência tranqüila dos rapazes, dando-lhes novo ar e movimento.

Catherine é impulsiva e imprevisível. Ela acaba de trazer a vibração que faz do filme uma obra memorável. Como diz Jules, não é especialmente bela, nem inteligente ou honesta, mas é uma mulher de verdade, do tipo pela qual os homens se apaixonam. Apesar de Jim ser o garanhão, é Jules que consegue namorá-la. Casam-se e têm a pequena Sabine. Mas Catherine é livre, não é mulher de um homem só. Por amor, devoção e talvez submissão, Jules aceita suas traições, sabendo que esse é o preço a pagar para tê-la por perto.

Mais tarde, ela e Jim se apaixonam e têm um caso. Jules não apenas sabe como também apóia o romance. Vê nele uma chance de não perdê-la para o mundo.


na praia

Truffaut retrata infidelidade e posturas de aparente submissão sem julgar. Os personagens são humanos, gente viva, apaixonada pelas pessoas e pela vida, reagindo às inconstâncias dos sentimentos tanto deles como dos outros. As escolhas de cada um são pessoais e não cabe ao diretor nem ao público avaliar ou criticar.

Além da montagem fragmentada, Truffaut utiliza alguns recursos que expõem sua intervenção sobre o filme: zooms, escurecimento de parte da tela, congelamentos rápidos. Isso tudo num filme da nouvelle vague, realizado nos anos 60, mas que conta uma história passada nos anos 20. O diretor aproveita a modernidade para falar de tempos passados, usa seu lado “pop” para fazer um filme que teoricamente deveria ter ares de época. Cria um efeito interessante que dialoga com o que faz Sofia Coppola em sua versão subjetiva e contemporânea de Maria Antonieta, personagem histórico.

Com quatro décadas e meia de idade, “Jules e Jim” não parou no tempo. Suas cenas antológicas, como a da corrida dos três protagonistas, são sempre lembradas e as referências ao filme são comuns até hoje. Bertolucci inclusive escolheu atores quase sósias de Jeanne Moureau, Henri Serre e Oskar Werner para fazer seu trio em “Os Sonhadores”. Em “Paris, te amo” uma das personagens assobia a música *O Turbilhão da Vida, cantada entre sorrisos contagiantes por Catherine.


para a eternidade

Contagiante, aliás, é toda aquela atmosfera. Catherine é leve, vai à praia, aposta corridas e passeia de bicicleta com Jules e Jim. Toda essa movimentação, geralmente ao ar livre, é característica da nouvelle vague, que se desprende dos estúdios e toma as ruas para respirar liberdade. A leveza da moça em alguns momentos, contudo, se transforma em peso e drama - o emocional, mesmo que efêmero, oscila entre a celebração da vida e o impulso à morte. Catherine, mulher fatal, vivia intensamente até os momentos trágicos, com emoção pura e transbordante.

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