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Paranoid Park (ou Cinema aos quase vinte e poucos anos)

de Gus Van Sant, França/Estados Unidos, 2007

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por Rodrigo Campanella

Fotos:

No começo dessa década, Gus Van Sant tinha se tornado um bom manobrista hollywoodiano, operando historinhas milionárias que multiplicam dinheiro roubando a atenção dos outros. Era dele a assinatura em “Procurando Forrester”, uma nulidade cinematográfica com Sean Connery como isca. Logo depois, ele desistiria dessa vida e voltaria a fazer cinema.

“Paranoid Park” é o cume da trajetória que começa em “Gerry” (2002), passa pelo Palma de Ouro “Elefante”(2003), sobre o massacre de Columbine, e chega a “Last Days” (2005), uma tentativa de imaginar os últimos momentos de Kurt Cobain. Em todos, a juventude é entrelaçada em um modo violento de morte – um massacre em “Elefante”, o suicídio de Cobain, um homicídio acidental em “Paranoid Park”.


Van Sant não caça respostas ou soluções. Ele olha a adolescência americana, filha de pais financeiramente remediados e entorpecidos, perdida entre as muitas opções insatisfatórias, presa numa escola autista e, na falta de algo melhor, alimentando seus demônios. Assim é Alex Tremain, o pretendente a skatista de “Paranoid Park” que só treina em cima da prancha de madeira longe dos olhares alheios, por não se sentir preparado ainda. A seu modo, assim era o Cobain cambaleante de “Last Days”.

São filmes sem teenagers articulados mais sabidos que os adultos ou com atitudes épicas sobre amor e honestidade. Aqui eles mal conseguem conversar, ter algum assunto, rascunhar futuros. Existe uma compreensão carinhosa do filme com o mundo entre os quinze e os vinte e poucos anos, mas sem romantismo gratuito sobre essa etapa. Quando Van Sant dá liberdade de atuação aos atores escolhidos a partir de um anúncio no MySpace, consegue que a experiência deles construa mais desconforto do que o roteiro talvez conseguisse. Talvez isso é o que faça o caladão Alex Tremain tão crível, mesmo ele sendo apenas um eixo para o grande memorial adolescente que acaba sendo “Paranoid Park”.

A diferença de “Paranoid” e seus filmes-irmãos é enxergar uma poesia e uma esperança opacas no jeito como essa molecada constrói a vida na própria cabeça. A impressão é o próprio garoto está conduzindo a câmera, com a voz do diretor perguntando, ao fundo, qual é a razão para se virar adulto nos tempos de hoje, se a vontade geral parece ser regredir em idade e adolescer de novo.

E mesmo com toda sua maturidade, “Paranoid Park” pode deixar a impressão de que perdeu o ponto exato de sair do fogo, ou da mesa de montagem. É uma das mais certeiras ressurreições da adolescência já postas numa tela de cinema, e as memórias simplesmente brotam enquanto o filme detalha com cuidado uma amizade, uma culpa, uma inconseqüência, mixando longas câmeras lentas da vida de Alex com seqüências de home vídeos de skate. Ainda assim, minha cabeça não consegue digerir “Paranoid” como algo que vai se manter vivo na memória, apesar daqueles corpos sem peso voando nos skates conseguirem dizer tanto sobre liberdade dentro da gente.

A esperança adolescente vista aqui é uma luz dura, diluída, cortando o olho, que nem na redenção traz alívio. “Paranoid” não tenta armar a tela do cinema como uma sessão de julgamento ou de exorcismo sentimental. È tão belo quanto incompleto. Se fosse contado de modo convencional poderia ter a mesma poesia, mas sua decisão é criar essa sensação de vazio no corpo, mais leve que o ar.

O cineasta brasileiro Arthur Omar defende que o cinema como nós conhecemos é só um dos muitos possíveis. O filme “contar história”, funcionando como um resumão visual para quem não tem saco de ler aquilo em trezentas páginas, foi uma opção.


Quando o cinema ainda era atração de feira, podia ter desenhado um futuro de horizontes mais largos nessa esquina entre o que cabe numa imagem e a contação de histórias. Virar um apêndice literário foi uma decisão dele próprio, ou melhor, do extenso departamento comercial que olha filmes numa lupa de cifrões.

Não que o cinema contador de histórias seja errado. Kubrick, Renoir, Tarantino, Gondry, Burman ou Cuarón são tão grandes quanto sua habilidade de contar além do que cabia no texto escrito, imprimindo nos olhos um universo que chacoalha sentimentos e instabilidades que só cinema alcança.

“Paranoid Park” leva a pensar tudo isso porque é feito para ver com o coração, não com a cabeça, mas talvez sejam poucos aqueles capazes de receber esse filme no peito. Não é o caso de dizer “tristes tempos esses”, afinal o parque de Van Sant foi adotado pela crítica e chegou ao circuito comercial. Talvez seja simplesmente o caso de ver filmes por instinto e gostar deles assim, sem a necessidade de uma explicação bem sacada e lógica na saída da sala, que explique porque “Paranoid Park” é tão leve, aparentemente menor do que se espera e, ainda assim, tocante e perturbador. Impossível resumir isso numa nota de um a cem.

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