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Cloverfield, Monstro que dá nó

Um lagartão gigante criado pelo marketing devora a cauda longa

por Rodrigo Campanella

Fotos: Divulgação

A teoria da cauda longa é simples e o sonho de muitos financistas: ao invés de vender apenas volumes colossais de poucos produtos (os hits) para todo mundo, o mercado se configura para vender também quantidades menores de todos os produtos disponíveis, para públicos específicos. Seu nome vem do gráfico que cruza variedade de produtos (horizontal) e quantidades vendidas (vertical), que nesse caso se estende para a esquerda sem nunca tocar no zero de vendas. O conceito de “cauda longa” surgiu da observação desses gráficos, que representavam uma realidade já existente no comércio web.

O pai de batismo da teoria é Chris Anderson, editor-chefe da revista americana Wired, no livro (adivinhem) “A Cauda Longa”. O modo de funcionamento desse mercado é a web, com vendas e estoques virtuais entregues ao redor do globo. E quem sonha inverter e controlar o curso desse rio é a Wall Street do cinema, Hollywood.

Capturando a atenção

A idéia na cauda longa é usar as facilidades www para, digamos, vender música folclórica siberiana para aficionados por folclore no Maranhão brasileiro. Só que existe outra facilidade no ciberespaço: convergir interessados em assuntos comuns para o mesmo ponto virtual: sites especializados, listas de discussão, grupos em sites de comunidades. E há muita gente sem o que fazer navegando pelos teclados, doida por uma novidade, de preferência algo bizarra. É um mundinho de informações rápidas - e publicitários espertos.


Jack Bauer faltou ao serviço hoje

A estrada de “Cloverfield – Monstro” é chão batido que já foi pisado por um bruxa de Blair e por um Samuel L. Jackson rodeado de serpentes a bordo de um avião. Com variações, o rascunho do funcionamento é esse:

a) alguma informação é solta estrategicamente na web (a lenda do vhs de uma expedição caça-fantasma que deu errado) e captura um grupo de interessados;

b)o assunto ganha fôlego em listas de discussão, fóruns e grupos afins;

c)boa parte das vezes a história conquistou seu público e acaba por aí. Mas, em outras....

d)um time de marketing experiente não deixa que a idéia morra. Sites são abastecidos com informações (pela metade), comerciais de tv e páginas de revistas são comprados, e logo o que era restrito a um público específico cresce de tamanho, sempre fomentado pelos interessados de primeira hora, que não deixam o assunto sair do centro de atenção.

A virada de mesa

Isso porque o mesmo funcionamento da internet que possibilita a cauda longa (fugir dos hits para conhecer coisas mais aliadas ao gosto pessoal) pode criar um nó nessa mesma cauda: um hit fabricado em cima daquilo que era restrito. Esse produto não precisa de nenhum apelo especial em si, mas coloca seu sucesso refém da curiosidade alheia, que cria consumidores usando uma velha artimanha erótica: deve-se exibir somente o bastante para que o outro não possa escapar da vontade de ver o que falta. “Cloverfield” leva mais gente ao cinema pela interrogação (ou pela piada) do que por certezas.


E os Changeman também não aparececeram
dessa vez...

Mais que bruxaria ou serpentologia, o filme abraça os passos da série "Lost", sendo igualmente cria de J.J.Abrams, diretor e produtor de audiovisual ao gosto do freguês. Em “Cloverfield”, existiram as informações jogadas à solta pela web, pedaços de vídeo sem muito sentido, muito mistério em relação à história e até ao nome do filme. A diferença é que "Lost" tem mais idéias em um episódio do que esse filme ao todo.

"Cloverfield" tem realmente apenas uma idéia: filmar um seriado japonês, estilo Changeman, naquela hora em que o monstro fica gigante, usando o ponto de vista das pessoas que correm enlouquecidas lá embaixo - as "formiguinhas". Para que as formiguinhas possam ter uma câmera na mão, cria-se uma festa, que alguém registra numa câmera digital, até que o monstro invada Nova York. Por sorte, o amigo da câmera não solta o brinquedo nem correndo desesperadamente por ruas devastadas.

Na ânsia por ganhar mais um naco da multidão, o lagartão gigante de Abrams contém um componente político – o ataque do monstro e a retaliação militar remetem sem erro a setembro de 2001, ao pânico e desorientação que provavelmente tomaram os que estavam no chão nessa mesma Nova York. Mas se há realmente pensamento político no filme, ele é da mesma profundidade da trama, uma redação de garoto da segunda série. ”Cloverfield”, filme, é suado, tremendo, com beijo no final e realista como uma moeda de sete reais.

O truque completo

O que há de brilhante é o uso da câmera subjetiva em tempo integral, na qual você assume a visão de um dos personagens envolvidos – como em jogos de ação em primeira pessoa, que talvez tenham ajudado a nos acostumar com esse modo de assistir uma história. Em termos de execução técnica (enquadramentos, cortes, som), “Cloverfield” é de cair o queixo. Mas como o grande truque é fazer com que você vá ao cinema – e não necessariamente veja um filme – toda essa técnica acaba gerando tanta emoção quanto assistir duas horas de um vídeo familiar sobre a ida à praia no verão.


Mas a bruxa de Blair mandou um abraço.

Mas tanto faz o que “Cloverfield” seja depois que você pagou o ingresso - o que importa é o que ele foi até ali, uma descomunal campanha publicitária tocada em boa parte pelo público da internet, em que você foi levado ao cinema para assistir a um trailer de uma hora e pouco de um filme nunca realmente feito, ao qual provavelmente você nem iria se não fosse tanto auê. Com o acréscimo, involuntário, da sensação de estar vendo Big Brother versão compacta: um punhado de atores medianos, confinados numa idéia simplória, esperando ansiosamente o grande momento da eliminação.

A estratégia deu muito certo nas bilheterias americanas e teve um desempenho razoável no Brasil. “Cloverfield 2” está a caminho . O que não minimiza a impressão de que os monstros gigantes que marcaram infância e adolescência de gerações a fio mereciam uma versão remix bem melhor.

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