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As regras do jogo

por Renné França

Fotos: Divulgação

O bobo da corte foi muito comum nas monarquias européias até o século XVII. Esses palhaços fantasiados divertiam os nobres através da ironia, expondo as ambições do rei e mostrando, pelo humor, as diferentes faces da realidade. Com suas imitações, acabaram inspirando a carta de baralho que imita todas as outras: o curinga. Poderoso, capaz de mudar todo o jogo com sua simples presença, o curinga sempre obriga uma mudança de estratégia...

Primeira rodada:

Estudante de Direito idealista quer ser policial. Seu plano é a justiça plena, misto do trabalho das ruas com o do tribunal. Mas a morte de um amigo provoca uma deformação moral em seu conceito de ‘justo’.


Ele pede pra entrar.

Segunda rodada:

Promotor idealista quer livrar sua cidade dos criminosos a qualquer custo. Seu plano é contar com a ajuda de um vigilante do crime nas ruas para fazer justiça nos tribunais. A morte de sua namorada, porém, provoca uma deformação moral no seu conceito de ‘justo’.


Ele pede pra fumar.

A diferença entre ser justo e fazer justiça é uma linha tênue. Vivemos em sociedade e, para que ela funcione, existem regras que nos enquadram dentro de certas expectativas. Só que nossos princípios morais demonstram sua fragilidade simbólica justamente quando confrontados com acontecimentos aos quais não sabem responder. É quando a verdade vem à tona: eles não são naturais, são convenções sociais. Seu cumprimento, muitas vezes, vai contra nossa natureza, mas é o que nos mantém afastados da cadeia e do hospício (outras duas convenções sociais, não por acaso). Certo é certo e errado é errado. Ponto final.

Ou seriam reticências?


Ele pede pra matar.

O idealista Matias, de “Tropa de Elite”, ecoa no promotor Harvey Dent de “O Cavaleiro das Trevas” não apenas em sua sede de justiça. Ambos carregam em si uma dualidade, intrínseca ao ser humano, que acaba escancarada quando uma carta transforma todo o jogo. Matias e Dent são valetes em um jogo onde as damas são parceiras, mas quem guia o caminho são os reis. Dois reis negros, pois como diz um deles “nossa farda não é azul, é preta”. Capitão Nascimento e Batman são personagens que andam sobre aquela linha tênue, o tempo todo pendendo entre o justo e o Direito. Justiceiros que vivem à beira da moral, com códigos próprios, defendendo a idéia de que alguém tem que fazer o trabalho sujo.

Andar na linha é difícil e qualquer deslize pode ser catastrófico. De um lado, tem-se a sociedade, as leis, a ética. Do outro, todo aquele resto que não se dobra perante regulamentações. Em “Tropa de Elite”, o outro lado não tem um rosto claro: corrupção, traficantes e usuários misturam-se como cartas que transformam o jogo. São séries de curingas, onde um faz as vezes do outro, compondo uma mão caótica que precisa ser desfeita. Para vencer o jogo, o Capitão Nascimento precisa mudar o esperado, usando métodos fora do que é considerado correto. Ser injusto (no sentido de ir contra o que é direito) para fazer justiça.

Dualidade ainda mais clara no obscuro Batman do diretor Chris Nolan. Caçador de criminosos, o cavaleiro das trevas é uma prova da desconfiança nas instituições. Se o sistema funcionasse, sua existência não seria necessária. Bruce Wayne é a face daquele que joga o jogo, enquanto Batman é a carta fora do baralho. É o herói que não pensa duas vezes para espionar todos os cidadãos em nome de uma justiça maior. Como o fiel Alfred avisa durante o filme: Wayne tem limites, Batman não. Como permanecer com o mesmo jogo quando o Coringa aparece na rodada?


E ele, depois do Coringa, tá pedindo pra sair.

O que o personagem de rosto pintado provoca é uma escolha de lados. Qual jogo jogar? Harvey Dent transformado em Duas-Caras é metade o idealista Bruce Wayne e metade o deformado Coringa ao mesmo tempo. Em um filme que questiona as máscaras – Batman não é o único a usar a sua, assim como outros assaltantes que se vestem de palhaço – Duas-Caras é o rosto da dualidade humana presente em todo o filme: qual dos dois reféns resgatar? Qual dos dois barcos explodir? São nossas escolhas que definem o jogo e o nosso lugar nele.

E enquanto Matias, Nascimento e Dent decidem jogar o jogo sem regras, Batman faz sua escolha quando salva o Coringa da morte certa. Pendurado de cabeça para baixo, cabe ao bobo da corte mais uma vez revelar a distorção, quando a câmera gira - colocando-o em um estranho enquadramento de pé, porém com cabelos e roupa suspensos – para nos dar um novo ponto de vista. Nesse momento, tudo fica muito claro: como as cartas no baralho, tudo tem seus dois lados. O que está para cima e aquilo que está para baixo depende de onde se olha. O jogo, infelizmente, é assim. Se não agüenta, pede pra sair.

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