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Overdose: Profissão: Máfia

Cosa Deles

por Renné França

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“Até onde me lembro, sempre quis ser um gangster”. A frase que aparece no início do filme “Os Bons Companheiros”, de Martin Scorsese, é a representação, na ficção, de um estilo de vida que fascina o mundo inteiro desde...desde quando mesmo?

Talvez desde a Idade Média, quando aqueles que quisessem evitar o vandalismo em suas plantações deviam entrar em acordo com a organização de lavradores para se protegerem. Ou desde o século XV, em que uma sociedade secreta foi criada para proteger a população siciliana dos invasores espanhóis no século XV.

Proteger as plantações e as propriedades era um negócio perigoso, porém lucrativo. Para fortalecer a ligação entre as gangues dispersas e garantir lucros maiores, além de um ambiente de trabalho mais seguro, é possível que a organização tenha formado uma indústria de proteção forçada.

A palavra "mafia" teria vindo de mafiusu, que significava alguém ambíguo, arrogante, mas destemido, empreendedor e orgulhoso. Já a associação da palavra com uma organização criminosa teria acontecido em uma peça chamada “I mafiusi di la Vicaria”, que contava a história de gangues criminosas em Palermo. Mais tarde, o termo foi apropriado por relatórios do governo italiano, oficializando a nomenclatura.

O estilo de vida mafioso espalhou-se para o mundo e se tornou forte referência cultural a partir de filmes e livros sobre o assunto, principalmente com a prosperidade do crime organizado nos Estados Unidos na década de 20, durante a Lei Seca. O curta-metragem “The Musketeers of Pig Alley”, realizado por D.W. Griffith em 1912, pode ser visto como o pioneiro a tratar do tema no cinema, mas o filme considerado como o primeiro do gênero é “Paixão e Sangue”, de 1927.

Com a introdução do som, os filmes de gangsteres conquistaram espaço com seus tiros, derrapagens de carros e diálogos secos. A Warner alcançou grande sucesso com um ciclo desses filmes nos anos 30, chegando a 51 títulos sobre o tema só no ano de 1931, que consagrou atores como Edward G. Robinson, em “Almas no Lodo”, e James Cagney, em “Inimigo Público nº 1”. Em 1932 surgiu um dos maiores clássicos do gênero, “Scarface – A Vergonha de uma Nação”, de Howard Hawks. O longa foi refilmado nos anos 80 por Brian de Palma já em um processo de revitalização do tema, iniciado nos anos 60, com homenagens como “Acossado” (filme de estréia de Godard) e “Homem Mau Dorme Bem”, de Akira Kurosawa.

O gênero ganhou um novo rumo em 1972 com “O Poderoso Chefão”, que transformou os violentos gangsteres em mafiosos com rígidos códigos morais. Em“Caminhos Perigosos”, de 1973, Scorsese abriu o caminho para uma máfia menos glamourizada, contribuindo para a imensa popularização do assunto entre diretores tão distintos quanto Sergio Leone (Era Uma Vez na América), Warren Beatty (Bugsy), os irmãos Coen (Ajuste Final) e até mesmo Guy Ritchie (Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes). A lista é grande e não pára de crescer, como comprova “Gomorra”, que estréia nos cinemas brasileiros nesta sexta-feira.

É difícil apontar o motivo de tanto fascínio com uma atividade moralmente tão condenável, mas talvez uma pista esteja no peculiar código de conduta que rege esse tipo de organização. Em 2007, a polícia da Sicília declarou ter encontrado no esconderijo do chefão Salvatore Lo Piccolo uma lista de "Dez Mandamentos", que seriam as diretrizes de como ser um bom e respeitável mafioso. O Pílula Pop apresenta os tais mandamentos e aproveita para repassar mais alguns exemplares do gênero no cinema.

1. Ninguém pode se apresentar diretamente a um de nossos amigos. Isso deve ser feito por um terceiro.

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Donnie Brasco - ou melhor, o policial Joe Pistone - que o diga. Infiltrado na máfia como pupilo de um antigo membro da organização, ele deve se aproximar do chefão Sonny Black. Situação parecida com a de Nikolai na máfia russa de “Senhores do Crime” e de Billy Costigan na máfia irlandesa em “Os Infiltrados”. Subir degraus na hierarquia é fundamental para se chegar em quem realmente comanda a organização. Mas há sempre um preço a ser pago...

2. Nunca olhe para as esposas de seus amigos.

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E muito menos dance com elas! Mas é o que apronta Tony Montana (Al Pacino) com Elvira (Pfeiffer), a mulher do chefe, em “Scarface”. E se além de dançar, você ainda permitir que ela tenha uma overdose? É o que passa Vicent Vega (Travolta), ao lado da esposa do gangster Marsellus Wallace (Thurman) em “Pulp Fiction”. Vá lá, eles não eram amigos em nenhum dos casos. Mas chefe é chefe.

3. Nunca seja visto com policiais.

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Em hipótese alguma se deve dar uma chance aos homens da lei. Você pode até achar que todo homem tem seu preço, mas o Eliot Ness de “Os Intocáveis” era do tipo incorruptível. Em plena Chicago dos anos 20, o agente federal respeitava a Lei Seca e não aceitava subornos. A solução? Matar todos os seus companheiros. Bom, Ness sobreviveu e ainda levou Al Capone para trás das grades.

4. Não vá a bares e boates.

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E poderíamos acrescentar lutas de boxe: é lá que o chefão do tráfico Frank Lucas chama a atenção do policial Richie Roberts em “O gângster”, marcando o início do fim de seu império. Discrição é a alma do negócio, apesar de que matar desafetos à queima-roupa também chama um pouco de atenção.

5. Estar sempre à disposição da Cosa Nostra é um dever - mesmo quando sua mulher estiver prestes a dar à luz.

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Ou mesmo quando você estiver se casando, como é o caso de Ben Sobol, psiquiatra do mafioso Paul Vitti em “A Máfia no Divã”. Apesar de não ser exatamente um membro da organização, Sobol é obrigado a colocar sua vida em segundo plano para atender as exigências do chefão do crime. Situação complicada também é a do ex-chefe do tráfico Carlito Brigante, que tenta levar uma vida correta após sair da prisão, em “O Pagamento Final”. Mas não se abandona a máfia tão facilmente...

6. Compromissos devem sempre ser honrados.

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Sempre! Não importa que o narcotráfico seja muito lucrativo: você não pode simplesmente eliminar os chefões que são contra a idéia, pois há vários compromissos profissionais envolvidos. “O Poderoso Chefão” mostrou os mafiosos como homens de negócios - e a máfia como uma organização extremamente honrada e organizada. Bom, até que Sollozzo e os Tattaglia resolveram deixar de honrar o compromisso de não agressão entre as famiglias. Pior para eles.

7. As esposas devem ser tratadas com respeito.

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Não é de bom tom amassar uma toranja no rosto delas, como faz o violento Tom Powers em “O Inimigo Público nº 1”. Matá-las também não é uma boa, mas o chefão Tony Russo não só mata a esposa adúltera, como também o amante dela e, ainda por cima, pega a viúva do cara em “De Caso com a Máfia”. Para infelicidade dele, a garota era informante do FBI. Carma’s a bitch.

8. Quando lhe for solicitada uma informação, a resposta deve ser a verdade.

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Ainda mais se seu irmão se chamar Michael Corleone. Em “O Poderoso Chefão – parte II”, o pobre do Fredo cai na bobagem de mentir para o chefão em pessoa e ainda por cima o trai. “I know it was you Fredo. Broke my heart”. E ele nunca mais contou uma mentira.

9. Não se aproprie de dinheiro pertencente a outras famílias ou outros mafiosos.

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“Apropriar” para a máfia pode ter outros significados que não apenas roubar: se você começa a fazer negócios atrapalhando alguma família, pode acabar se encrencando, como os amigos de “Brother”, de Takeshi Kitano. Azar da máfia local que o protagonista Yamamoto (o próprio Kitano) já havia sido empregado da Yakuza, a máfia japonesa.

10. Pessoas que não podem fazer parte da Cosa Nostra: qualquer um que tenha um parente próximo na polícia ou alguém infiel na família; que se comporte mal ou, por fim, que não tenha valores morais.

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Caso exemplar é de Clark Kellogg, irrepreensível jovem universitário que serve espécies de animais em extinção como prato principal em jantares, no filme “Um Novato na Máfia”. Já Henry, Tommy e James Conway fazem praticamente tudo que não deviam fazer em “Os Bons Companheiros”. Roubam da máfia, traficam sem permissão, traem uns aos outros e ainda por cima matam quem não deve. Rapazes exemplares.

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