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A medicina e o monstro

por Daniel Oliveira

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Prostrado em frente à televisão, preso entre minha cama e o sofá, curtindo a febre de 40º que me abateu durante o fim de semana, parte da minha profilaxia acabou sendo outra febre: os tributos ininterruptos a Michael Jackson. Porque, se Lester Bangs disse que “nunca concordaremos sobre nada como concordamos sobre Elvis”, ele pode ter sido corrigido pelos últimos cinco dias.

De repente, os 15 (ou 20) anos de esquisitices e excentricidades, de doenças nunca explicadas, de ausência de produção artística relevante e de metamorfose lynchiana podiam ser apagados. Se há algo de bom na morte, é essa permissão que ela nos concede para varrer os erros e defeitos para debaixo do tapete e colocar o foco na parte boa de qualquer indivíduo.

E poucos têm uma parte boa tão vasta quanto Michael Jackson. Nunca fui fã dele. Não vou bancar o admirador em luto aqui porque seria gratuito e superficial. Lembro que passei várias férias de verão aprendendo a coreografia de “ABC” dos Jackson 5 com meu primo, melhor amigo de infância, e suas duas irmãs. Meu padrinho, pai deles, possuía LP’s do grupo e umas VHS (bem) mascadas que tentávamos imitar, enquanto suávamos alguns passos no calor distante da praia do interior de Minas. E nos divertíamos.



Lembro das noites de domingo em frente à TV com clipes de Michael no Fantástico. Assustadores. Diferentes. Longos. Únicos. Se os Beatles inventaram o videoclipe, Michael Jackson fez deles uma arte. Não por acaso, o início da flutuação de sua sanidade foi indicada no seu último clipe relevante, “Black and white” - quando, no fim da versão integral, ele destruía um carro com um bastão de beisebol e virava uma pantera (oi?).

Mas o paradigma, óbvio, continua sendo Thriller, cujo álbum homônimo é o mais vendido da história, com mais de 50 milhões de cópias – e o será para sempre, considerando que, provavelmente, não existem hoje 50 milhões de pessoas no mundo todo que ainda comprem CD’s.

Então, agora podemos finalmente celebrar isso tudo. E esquecer as mal explicadas acusações de pedofilia. E a infeliz briga com Paul McCartney e o mais infeliz ainda embargo das canções dos Beatles – motivo pelo qual nunca consegui ser realmente um fã de Jackson. Os direitos das músicas dos besouros, aliás, são uma das pontas soltas deixadas por sua morte. Antes de morrer, Michael teria expressado aos seus advogados a vontade de se reconciliar com McCartney e devolver a ele o que sempre lhe foi de direito. Mas ninguém sabe se ele realmente chegou a fazer isso. Caso não tenha havido tempo, os direitos (avaliados em mais de US$ 200 milhões) podem ser usados para pagar as dívidas do rei do pop.



Mas enfim. Agora isso tudo fica para trás. No limbo. Em alguma gaveta que não precisamos abrir. O que interessa agora são a revolução que Michael Jackson representou para a história da música pop e o corpo de trabalho impressionante que ele construiu nos anos 70 e 80. Um conjunto de hits e uma ditadura de costumes, roupas e ritmos que 98% dos músicos não arregimentam em toda uma carreira.

Os fãs podem finalmente sair da negação em que se encontravam e vestir seu luto pela morte de Michael Jackson, o artista – morte ocorrida há mais de 15 anos. Porque, apesar de ter sido outro ícone, o Prince, quem mudou seu nome assim como mudava de roupa, foi Michael que sofreu a metamorfose. Foi o rei do pop que deixou de ser o garoto Michael Jackson para se transformar n’O Artista” e, em seguida, em algo que não podíamos nomear, a não ser com um símbolo impronunciável. Obrigado, Prince, pela ajuda.

Cabe aos fãs, portanto, comemorar. Celebrar. Michael Jackson é O Artista novamente. E para sempre. Perdoados os seus pecados e livrado do mal. Deixem o luto e o sofrimento para a família que, como bons ocidentais, nunca vão conseguir superar a perda - e sentirão agora o sufocante peso de boa parte da culpa pelo calvário de Michael, do abuso paterno à exploração fraterna.

O monstro morreu. Sobrevive sua medicina. A doença agora é nossa: a febre. Deixemos que ela nos queime, mesmo que os pecados sejam dele.

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