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1999, o primeiro ano do resto de nossas vidas

Parte 2: O Sexto Sentido

por Daniel Oliveira

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Devo confessar. Com 15 anos, eu achava que “Pânico” era o melhor filme de todos os tempos. Era engraçado e cheio de sustos e de pessoas bonitas sendo mortas de formas SEN-SA-CIO-NAIS. E ainda tinha a Monica de “Friends”. Sério: o que tinha para não gostar?

(Ainda faltavam alguns anos para que eu conhecesse Kubrick, “O iluminado”, Polanski e “O bebê de Rosemary” na faculdade - e me tornasse, por consequência, um chato esnobe =p. Então me deem um desconto.)

Mas, enfim, “Pânico” era aquilo tudo. E foi provavelmente por isso que fiquei absolutamente chocado, indignado, inquieto – e um tanto catatônico – ao final de “O sexto sentido”. Não era possível. O cara não estava morto. Voltei a fita (rip). Alguém tinha falado com ele além do garoto. Não!

Que filme era aquele? Que ambientação aflitiva, que cidade estranha. Que mundo modorrento, melancólico, sombrio. Não era engraçado. Não era “Pânico”. E me incomodou. Eu tinha medo de gente morta. E do garoto que via gente morta. Eu e milhões de pessoas mundo afora.

Era o terror.

Criancinhas não-saudavelmente branquelas, com olhos expressivos e assustados, em cidades mórbidas e monocromaticamente fotografadas viraram moda desde então. Claro que Hollywood não tinha uma horda de Shyamalans para inventar histórias, então elas foram roubadas adaptadas do cinema oriental mesmo. Foi uma década de monstros/mortos/espíritos assombrando pirralhos indefesos. Mas nenhum deles chegou a ser o que “O sexto sentido” foi. E ainda é.

O Sexto Sentido

(The Sixth sense, EUA, 1999, dir. M. Night Shyamalan. Elenco: Haley Joel Osment, Bruce Willis, Toni Collette, Olivia Williams, Donnie Wahlberg)

por Rodrigo Campanella

Fotos: Divulgação

Era o último ano antes que os 1900 virassem 2000 e o primeiro semestre já tinha acertado as telas grandes e as cabeças adolescentes (e nem tão adolescentes assim) com um imenso milk shake de filosofia apocalíptica, paranoia moderna e visual sadomasô para as massas. Isso sem contar o renascimento da câmera lenta e de um cinema de ação que valesse a pena. Então, vamos ser sinceros: algo mais de estrondoso poderia acontecer em 1999? Claro que sim.

Na internet movida a lenha do segundo semestre daquele ano, o assunto era “A Bruxa de Blair” e havia a vontade, quase uma fé, de acreditar que algo no filme era verdade. Que aqueles estudantes haviam morrido nas filmagens. Que a morte ao vivo estaria ali (!) no cinema. O que reinava (online) não era a certeza, mas a confusão – e isso era adubo bastante para que a lenda percorresse meses a fio. Enquanto isso, baixávamos MP3 avulsos (porque os álbuns eram muito pesados) e assistíamos a streamings que apareciam nas telas de 15 polegadas como picadinhos imagéticos (porque nossas bandas estreitas de telefone não davam conta do recado).

Deve ter sido na televisão ou em alguma revista, aqueles dispositivos de mídia da era dos dinossauros, que quase todos ouviram falar de um suspense novo. Pouco era conhecido sobre a trama, mas o cabelo do Bruce Willis no filme ser parecido com o penteado do Tintin era provavelmente apenas uma coincidência ingrata.

“O Sexto Sentido” não chegou apregoando uma sequência de sustos e gritinhos, como “Pânico” e seus genéricos adolescentes que proliferaram três anos antes. Se o filme de 1996 de certo modo introduziu o susto como gênero cinematográfico (chamar “Pânico” de terror é exagero), “O Sexto Sentido” pavimentou uma ferrovia em cima desse território aberto junto ao grande público.


O medo sobrenatural voltava a ser parte do cinemão.

O suspense de M. Night Shyamalan apostava num tipo de terror que abraçava de pré-adolescentes gritantes ao público adulto atrás de uma história decentemente contada. O gênero já havia conseguido sair do gueto e agora avançava novamente para a primeira fila das produções americanas, não apenas em termos de orçamento, como também de apuro na arte mais essencial – a de contar histórias. Era o mesmo lugar onde “Alien”, “Tubarão” e “O Bebê de Rosemary” haviam estado décadas atrás. Mas ali, na boca da caçapa dos anos 90, “O Sexto Sentido” foi mais que uma surpresa.

Não são apenas os aficcionados por suspense com toques de terror. Nem os ex-quinzeanistas daquela época. Nem os trintanistas que ainda mantém uma empolgação jovem em relação ao cinema. “O Sexto Sentido” ampliou sua onda para além do imenso público que ele procurava atingir e virou um fenômeno cultural, do tipo em que é possível colocar uma bandeirinha de “antes” e “depois”. Foi com ele que os últimos dez anos aprenderam que era possível fazer filmes bem estruturados, de grande porte, traiçoeiros e ainda assim divertidos. O que “O Sexto Sentido” alcança no final pode não ser um sentimento de transcendência, mas é com certeza uma sensação de “dever cumprido”. Algo que em 1999 podia ser traduzido como: “então, é possível fazer filmes assim...hoje”.

M. Night Shyamalan filmou, dali em diante, a eterna relação humana com o muro que é impossível escalar.

O interesse do cineasta sempre foi essa fronteira ilegível que separa “lá” e “cá”, seja ela relacionada à morte, à paranoia da violência, à imaginação infantil ou aos possíveis habitantes de outros planetas. Com uma pontaria mais apurada ou com a mira nitidamente torta, Shyamalan conseguiu fazer uma carreira de “autor” dentro do cinema americano, o que tornou mais fácil decorar seu nome - que parecia tão exótico em 1999. Querendo ou não gostar de suas opções, cada vez mais próximas de um tipo B de filme, ele é o diretor que recentemente transformou o pé de vento em um dos grandes serial killlers da década, no massacrado “Fim dos Tempos”.

Dentro desse horizonte autoral, toda a carreira de Shyamalan, e especialmente o filme de 1999, devem algo (muito) a Steven Spielberg, referência maior e declarada do cineasta. E devem ainda mais a “Tubarão”, onde o muro que o indiano filmaria por toda a carreira ganhou, dentro da grife Spielberg, sua forma mais sólida e inexplicável. A fronteira entre vivos e mortos de “O Sexto Sentido” e o medo constante daquele excelente garotinho-ator são uma atualização do tubarão-homicida-dos-infernos que parecia mais concreto que a própria realidade.

Ainda que Shyamalan não tenha sido o Spielberg dos anos 2000, como hordas de críticos e fãs sonharam há dez anos, é impossível não apontar como ele foi um bom e esperto seguidor do homem que criou o E.T e recriou os dinossauros. Não basta apenas a correria ou bater a cabeça do espectador contra algo de que ele tem medo durante duas horas. O que faz a base de um Spielberg, da velha guarda, ou de um Shyamalan, da nova safra, é a estatura humana das tragédias que entram em jogo.


Osment. Medo.

O chocante não é o fim dos tempos, exatamente, mas uma família que se arrebenta.

Duas cenas inesquecíveis de “O Sexto Sentido”: o jantar fora de casa em que o casal Crowe não consegue trocar uma só palavra e que termina com ela murmurando “feliz aniversário de casamento”; o momento em que o guri (Joel Osment) vai até a casa da menina que morreu de doença sem diagnóstico e entrega ao pai a fita VHS que prova quem foi o verdadeiro assassino da filha. Aliás, rever o filme só me fez comprovar como essas cenas eram até maiores na minha cabeça do que dentro da história. E em como quase todas as cenas deixaram uma pequena marca em minha mente, mesmo com tanto tempo passado.

Mais do que uma reviravolta inteligente no final, “O Sexto Sentido” erigia seus músculos do balanço entre as microscópicas tragédias humanas e as infinitas fronteiras desconhecidas da realidade ao nosso alcance. Fazia isso com um cuidado apurado na escolha do elenco (Toni Collette, a mãe do moleque, é sensacional), na condução da trama e na construção de cada cena – cores, enquadramentos, movimentos de câmera. Foi por conta disso que os serial killers paniquetes começaram a sair de cena e ver que o lugar deles era, realmente, no verão passado. Mesmo que os filmes que vieram a reboque do “Sexto Sentido” não tenham ficado à altura, a mudança já havia acontecido. Agora havia um novo modo de ver ao redor.

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