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Video Games Live ao.. ahn... vivo

por Cedê Silva

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Túlio Galvão se prepara para tocar Sweet Emotion, do Aerosmith, numa guitarra de plástico. Ele se posiciona em frente a tela e vê o familiar menu de Guitar Hero. Naquele universo, uma multidão entusiasmada aguarda o primeiro acorde. Um guitarrista profissional está a seu lado no palco, para acompanhá-lo. Uma bolota amarela desliza pela tela. Os dedos de Túlio se preparam para tocar a nota no momento certo, um movimento que ele repetiu tantos milhares de vezes. Desta vez, Túlio Galvão erra a primeira nota. Mas desta vez, os urros da multidão e a apreensão de seu companheiro de banda são todos de verdade. Túlio está no palco de um Palácio das Artes absolutamente abarrotado por uma multidão ensandecida. E o guitarrista a seu lado é responsável pelas trilhas de mais de duzentos videogames. Por acaso, é também primo do Steven Tyler.

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Ou: Tommy Tallarico é o que todo nerd gostaria de ser. Nascido em Springfield (!), Massachussets, toca guitarra, faz shows ao redor do mundo, conhece pessoalmente mestres do videogame como Shigeru Miyamoto e Hideo Kojima, trabalha no ramo, e ainda convida gatinhas para fazerem ponta em seus shows.. Tem uma voz legal e um sotaque americano cristalino, como o caubói Woody de Tom Hanks (so folks, what we’re gonna do is...). No palco, anda dentro duma caixa de papelão da Tok & Stok para se esconder de um guarda pesadamente armado, como faz Solid Snake. Seu domínio sobre o público é tamanho que consegue fazê-lo entoar o tema de Super Mario Bros. enquanto balançam os celulares acesos: “tu, tu, tu, tu-du-tu-ru...”.



E comenta, diante das centenas de pontos luminosos no teatro escuro: “uau, parece Super Mario Galaxy aqui”. Ele entende mesmo de videogame. Quando um rapaz usando uma touca com enormes orelhas sobe ao palco para jogar uma versão gigante de Space Invaders, pergunta: “quem é você? PaRappa the Rapper?”. Quando o mesmo rapaz perde o desafio, lamenta: “vou te contar, essa nova geração só saber jogar Halo”. A única coisa que Tallarico não consegue fazer é pronunciar adequadamente “Belo Horizonte”.

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Ou: o salão está abarrotado de cogumelos. Verdes e vermelhos. Naruto corre com seu amigo. Uma garota Super Mario circula com seu macacão jeans e um Starman a tiracolo. Vemos Alessa, de Silent Hill. Kratos, de Tales of Symphonia. Uma “Linka” – não, não a do poder do vento. E um Blood Mage, prestes a fazer chover fogo sobre qualquer orc que aparecer. Não é uma convenção de anime. É a fila de um show de rock. Rock da melhor qualidade, de artistas como Koji Kondo e Nobuo Uematsu.



Compartilho da empolgação do público, já uma hora e meia antes do show. Também quero ouvir a Orquestra Sinfônica Villa-Lobos tocando Castlevania, Sonic, e Zelda. Mas há uma música cuja execução ao vivo seria um sonho: o tema do Dr. Wily em Mega Man 2, sem dúvida a canção de jogo mais remixada de todos os tempos. Devo ter no HD umas quarenta versões. Uma vez li que era “a quinta de Beethoven dos videogames”. Pra mim, não é exagero (mais recentemente, a música ganhou fama com uma letra e o nome Okkusenman).

Ainda no começo dos anos 2000, com meus 14, 15 anos, para cada música “normal” que baixava na Internet, baixava umas dez de videogame. Primeiro, versões mais ou menos fiéis em MIDI. Depois, remixes em mp3. Criei títulos novos para as músicas. Essa do Dr. Wily se chama “A suprema aventura”. Guardava os arquivos com carinho. Colecionava. As trilhas instrumentais dos jogos sempre falaram muito mais para mim do que as músicas normais. Elas cantam histórias tão grandiosas que não podem ser expressas em palavras. Que bem faria uma letra ao tema de Legend of Zelda?

Mas minha expectativa de ver A suprema aventura ser executada, acesa quando a banda mineira Abreu Project abre o show com Donkey Kong e Air Man (Mega Man 2), cai por terra. O show, apesar dos vários clássicos, toca magistralmente músicas que não significam nada pra mim. Halo. Silent Hill. God of War. Fui derrotado pela Playstation generation, que não sabe o que é tentar zerar Super Mario Bros. 3 num Phantom System superaquecido sem poder salvar.

Eis que Tallarico anuncia que vai tocar música de um certo jogo que se passa no ano “dois mil e X”. Eu entendo na hora. O gordinho de óculos do meu lado só entende bem mais tarde, quando Tallarico já está falando de robôs (“Mega Man 2! Ele tá falando de Mega Man 2...!”).

Tara-ra-ra-ra-ram, tara-ra-ra-ra-ram... Sou o único na platéia de mil e seiscentas pessoas a aplaudir de pé o começo da música. A orquestra está tocando a quinta sinfonia.

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Koji Kondo é o Paul McCartney da música de videogame. Ele compôs os temas de Mario e Zelda e dezenas de músicas para esses e outros jogos.

Túlio Galvão é desafiado a fazer 100 mil pontos em Sweet Emotion no modo Hard para ganhar um pôster autografado por Koji Kondo. Ele faz um gesto de desprezo, e Tallarico, percebendo, pergunta: “what, you wanna play it on Expert?” Túlio consente. A platéia vai ao delírio. Ele erra a primeira nota, mas vence o desafio, de muito longe. Túlio vai levar o pôster para casa.


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