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O caubói da meia-noite

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por Igor Costoli

Fotos: Thiago Costoli

Evidência

No início desta nossa década surgiram várias bandas fazendo um hard rock misturado com rap. O gênero foi batizado de New Metal, rótulo que vingou como âncora – a crítica o usava de forma pejorativa e aquelas bandas todas afundaram depois de algum tempo. Qual era o problema? O termo, especificamente, era um fracasso conceitual e prático: como dizer que aquilo era novo, se o Faith No More já havia feito o mesmo dez anos antes?


Prepare-se para começar

Quando vieram a BH a primeira vez, em 1992, eu tinha 11 anos. Não era idade suficiente para ir ao show, nem meu envolvimento com a banda era tão grande quanto hoje. O que é curioso: ao contrário da reação de muita gente, acompanhar o Mr Bungle e outras bandas do Mike Patton fez meu gosto por ela crescer. Talvez porque, de fato, nenhum desses projetos jamais superou o FNM.

A fina arte de fazer inimigos

- 24 toalhas pretas, médias, lavadas e fofas “como um coelhinho em um dia ensolarado de verão”. Dizem, mandaram a foto de um coelho, em anexo.

- Revistas pornôs, de qualquer orientação, para induzir fantasias “as mais pervertidas possíveis”.

- Vinhos tintos, com a recomendação “à escolha dos produtores. Queremos ser surpreendidos”.

- Um pacote de Yakult Light

- Uma seleção com os bordéis da cidade.

A lista de exigências para tocar em BH é hilariante como só o FNM poderia ser. Mas não a leve muito a sério, até sua divulgação tem jeito de piada da banda.

Não deram entrevistas para nenhum veículo. Não vejo problemas nisso. Não lançaram álbum novo e, afinal, os jornalistas daqui escaparam de uma boa. Em 92, numa entrevista para a MTV em que nada pode ser levado a sério, Patton fez o entrevistador de gato e sapato. Convém não arriscar a passar vergonha ao entrevistar o maluco.

Épico

Belo Horizonte foi construída onde antes era um imenso cemitério indígena. Este é um fato conhecido, ainda que com outras palavras ou conceitos. Mas o fato é que a maldição da qual sofre essa cidade,em que nada dá certo não deixou de agir no último domingo.


"Maldito terno. Mike tem cada idéia errada..."

Claro, escapamos do fracasso histórico que dizem ter sido o show do Elvis Costello. Ainda assim, o FNM não teve a quantidade de gente que merecia, ainda que quem tivesse ido foi mesmo interessado em ouvir e curtir a banda.

Quando chegaram para o show, eu os vi descendo da van. Os dreads brancos de Mike Bordin me impressionaram por duas razões. Primeiro: nunca tinha visto dread locks brancos. Segundo, porque o baterista não tinha vergonha da idade, se orgulhava dela. E isso é algo que se vê de toda a banda no palco.

Todos tocam com excelência. Entraram de terno, alinhados, e fizeram um espetáculo digno dessa pequena cerimônia e formalidade. Cada ano nas costas de todos os músicos se resumiu em uma execução perfeita das canções, onde o único excesso é de energia e a única ausência é de pudores.


Velhinhos em boa forma

Flyer Cock

“Essa música é dedicada ao Atlético.... que tristeza, hum?”

Mike Patton, tentando ser simpático. Acabou que coube a ele e seus companheiros salvar um domingo que o Galo avacalhou.

Apenas um homem

Ele já gravou músicas em português, espanhol e italiano. E sempre se esforça para conversar no idioma do interlocurtor. E fez questão de cantar Evidence em “português”. Bom, valeu a tentativa.

Patton, o homem show, a grande atração por trás da grande atração. Brincou com o público, o comandou como um maestro, e pôs a nós todos a repetir “porra, caralho”, conforme seu humor.

Só que de tanto falar em português, quando voltou a falar inglês, confundiu a platéia:

- The last one?

- No!

- …

That's the big picture: “Então, moçada. Acabou. Qual música vocês querem ouvir pra encerrar?”. A resposta foi “não”. As pessoas não queriam que o show acabasse, mas essa pequena falha de comunicação foi estranha. Nem todo o sincronismo entre o maestro e sua orquestra é perfeito.


"What the Fuck?"

Crise da meia-idade

- Eu achei que o show fosse durar mais.

Eu ia dizer o mesmo, mas me corrigi em tempo. Eu 'queria' que ele durasse mais. Mas ver o que Patton faz com a voz, não me faz pensar que ele tem a idade que tem. Acredito que por isso mesmo tocaram as mais difíceis antes, para que a voz dele desse conta até o final.

O último copo de mágoa

- Ow, deve ser brochante tocar para tão pouca gente assim.

O set list mineiro foi menor que o de outras cidades brasileiras. Nosso bis foi menor. Ou é cansaço, ou de fato paciência tem limite. Semana passada, no mesmo dia em que o Metallica confirmou passagem pelo Brasil ano que vem, a vinda a BH foi descartada. Não que fosse uma surpresa...

- Vai se fuder! Eu sigo você tem 20 anos! 20 anos!


The Dark Side of Mike

Corredor que dá para os camarins. Tinha gente com álbum na mão, querendo um autógrafo. Gente que queria uma foto. Tinha quem quisesse mesmo só ver os caras de perto. Alguns viram, outros não. Acontece.

Não sou a favor de tietagem. Até porque só expõe o músico a ser “desmascarado”. Mas não é isso. O cara tem direito a descansar. E a tomar uma água no camarim e pensar na volta para casa. Ou comer a groupie sossegado. Acontece.

Rei por um dia

Acontece em todo show. Tem músicas que deveriam tocar, mas que ficam de fora. “We care a lot”, me disse uma menina. Yes, we do. “I Started a Joke’, vários perguntaram. Faço coro com quem perguntou por “Digging the Grave” e “A Small Victory”.

Mas eu queria mesmo era “Start A.D”, que sabia que não seria tocada.

Do mesmo modo (e até por isso mesmo), todo show tem músicas que você não espera, mas que te surpreendem. “Com certeza eles me ganharam com “Just a Man””, e eu concordo. “Não acreditei em “Stripsearch”, nem contava com ela mais”. Confere.

Aliás, alguém esperava “Carruagens de Fogo”?

Eu, não saberia explicar o porquê, mas não estava contando com “The Gentle Art of Making Enemies”. Como foi bom ser surpreendido.

Fácil

O FNM jogou em casa, mesmo com pouco público. Apesar de a banda toda estar tocando pra caralho, Patton continua sendo o maior atrativo. Seja pela precisão e capacidade vocal, seja por ser um ator performático e intenso em cena, seja por ele ser engraçado.


Um vocalista que vale por dois

Quem viu, viu. Quem não viu, sinto muito, não apostaria na volta. Pelo que se sabe sobre o retorno deles, pela impressão que ficou, pelo que a vida é. Acontece. Mas ficarão a lembrança e a saudade.

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