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Rhapsody in Blue: dois mundos e um mesmo rei

(Ou enormes spoilers de “Titanic” e “Avatar”)

por Renné França

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“Titanic” era a maior bilheteria da história do cinema. Com “Avatar” ultrapassando os antes inalcançáveis 1 bilhão e 800 milhões de dólares com 40 dias em cartaz, o filme do navio deverá se contentar com ser o primeiro dentre os perdedores. Mas o que “Titanic” e “Avatar” têm em comum, além do sucesso estrondoso de bilheteria? De seus orçamentos megalômanos? E do diretor?

Gêneros X Natureza

por Renné França

Fotos: Divulgação

Em “Titanic”, James Cameron reuniu vários gêneros: romance, comédia, suspense, terror, aventura, drama, história, catástrofe. Tudo dosado de maneira a agradar o amante de cada um deles. Uma pessoa pode gostar do filme pelo romance, outra pela história real, outras pelo naufrágio em si. Homens e mulheres de todas as idades podem encontrar ali algo que chame sua atenção.


“Avatar” faz o mesmo. Assim como em “Titanic”, o amálgama de romance, ficção científica, faroeste, guerra, suspense, aventura, fantasia, apesar de fragmentado, é desenvolvido com competência inegável pelo diretor e roteirista. O que torna quase impossível não gostar de pelo menos um deles.

Esse milkshake só funciona porque tem uma espinha dorsal muito bem estruturada. Não por caso, ela é a mesma nos dois filmes: a vitória da natureza frente à tecnologia. Por trás do romance entre Jack e Rose, “Titanic” é um conto moral sobre a arrogância humana: a construção da mais potente das máquinas, um navio “inafundável” que, ironicamente, não sobrevive à sua primeira viagem.


Em “Avatar”, os humanos se acham superiores graças ao domínio da técnica, mas no final, a natureza se mostra mais poderosa que armas, naves e bombas. A ciência, em ambos os filmes, não tem serventia: o engenheiro que constrói o Titanic, assim como a cientista que coleta plantas em Pandora, nada podem fazer contra as forças naturais que pretendem domar.

Os dois filmes deixam isso claro desde os primeiros planos, nos quais a edição confronta a técnica e a natureza que irá desafiá-la. “Titanic” começa com pessoas no navio, despedindo-se para a viagem. Em seguida, vem a água: a força natural que vai derrotar o orgulhoso invento humano. “Avatar” faz o caminho inverso: abre com a floresta que desafia a razão técnica para, depois, mostrar a tecnologia futurista de naves espaciais, painéis e afins.

Sexo: o início do fim

por Renné França

Fotos: Divulgação

Para tudo funcionar ainda mais claramente como um conto de início, meio e moral-final, os filmes fazem uso da locução em off. Rose e Jake fazem as vezes dos contadores de histórias e, apesar de evitarem o “era uma vez...” e o “...foram felizes para sempre”, sua narração é usada em momentos pontuais para abrir, desenvolver e fechar a narrativa. Além disso, o macguffin que impulsiona a trama, nos dois filmes, é uma pedra improvável: o diamante “coração do oceano” e o unobtainium, ambos valiosos, apesar de não fazermos ideia do quanto, uma vez que não existem de fato.


Ligadas mesmo que sem querer a estas pedras, estão duas mulheres fortes, de berço importante e prometidas a um homem. Rose é aristocrata e noiva do milionário Cal Hockley. Neytiri é filha do chefe da tribo e deve se casar com o futuro chefe Tsu’Tey. As duas desafiam as convenções sociais em nome de um amor impossível. Em “Titanic”, por pertencerem a classes sociais diferentes; em “Avatar”, a espécies diferentes.


As duas conhecem seu grande amado em momentos de perigo: Rose, ao tentar se matar, é salva por Jack; Jake, ao correr risco de morte, é salvo por Neytiri (clichê #127: os laços que formamos em momentos de grande tensão são eternos...). Na cena seguinte, entretanto, os “noivos” das duas donzelas aparecem para ameaçar o novo romance.


#loser

E chegamos, finalmente, ao herói. Os nomes Jack e Jake são a mais óbvia das semelhanças, mas não a única. Além de entrarem na história por acaso (um ganha as passagens do Titanic em um jogo de cartas e o outro só vai para Pandora porque o irmão morre), ambos estão à margem da sociedade, seja pela pobreza ou pela deficiência física. Os personagens também possuem um amigo que, por comparação, faz com que os admiremos ainda mais. Jack Dawson tinha Fabrizio (Danny Nucci), que servia apenas para tornar o personagem de Leonardo DiCaprio mais interessante, talentoso e bonito. Jake Sully tem Norm Spellman (Joel Moore), uma muleta para percebermos o quanto o protagonista é mais interessante, corajoso = e bonito.


Os dois precisam ser transformados para adentrar um novo mundo, contando com uma espécie de fada madrinha para ajudar: Jack ganha de Molly Brown (Kathy Bates) roupas bem alinhadas para frequentar as festas mais exclusivas do navio. Para poder andar pelas partes - mais exclusivas - de Pandora, Jake ganha seu avatar da Dra. Grace (não por acaso, “graça”, interpretada por Sigourney Weaver).


O clímax dramático se dá, tanto em “Titanic” quanto em “Avatar,” logo após a primeira noite de amor do casal protagonista. Jack e Rose acordam em meio ao naufrágio; Jake e Neytiri, no dia do ataque à árvore Na’Vi. As núpcias são o início do fim. Tanto Jack quanto Jake são mal compreendidos pelas mulheres: Rose desconfia de que seu amor pode ter roubado o diamante e Neytiri acha que Jake é um traidor do seu povo. O que leva os dois a serem presos no momento da destruição: Jack no porão do navio e Jake em frente à árvore. Ambos são soltos no último segundo para, praticamente, não fazerem nada...

E dá-lhe pessoas correndo, caindo e fugindo - da água em “Titanic” e do fogo em “Avatar”. Se no primeiro temos a impressionante queda de uma das chaminés do navio, no segundo temos uma rima visual na árvore Na’Vi. Na cena final, em ambos os filmes, os dois amantes ficam juntos “para sempre”. Desnecessário comentar a fotografia azulada (comum a todos os filmes de Cameron) ou a música de James Horner, que é praticamente a mesma.

Pelo menos em “Avatar” não temos Celine Dion. Apesar de a canção tema ser de praticamente uma cópia dela. Só que azul.

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