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Felicidade, ainda que em castas

Nouvelle Vague ao vivo em BH - Palácio das Artes, 5/5/10

por Fernando Guerra

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por Fernando Guerra

Fotos: Divulgação / Artur de Leos

Soa o terceiro alarme no Grande Teatro do Palácio das Artes. O público, separado pelo sistema de castas em plateias I, II e superior, se acomoda nos assentos esperando o momento das luzes se apagarem e da conversinha ser interrompida pelos aplausos que surgem quando a banda aparece. No bloco da frente, duas garotas com roupas cintilantes e pernas a mostra se deitam no chão do palco enquanto os demais músicos iniciam os primeiros acordes de “Bela Lugosi’s Dead”. Na voz da brasileira Karina Zeviani, o hino gótico da banda Bauhaus ganha sensualidade e cresce conforme as duas cantoras erguem-se do piso em uma performance sem pressa.


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Já de pé para “Master and Servant”, Helena Nogueira reproduz aquele estilo sexy de cantar em inglês que conhecemos dos álbuns do Nouvelle Vague e que só um forte sotaque francês ou belga (ok, talvez o canadense) conseguem. Não satisfeita, a belga arrancava ainda mais suspiros ao falar português. Não me entendam mal os fãs da Karina. À vontade em meio à gente que falava sua língua, a brasileira criou intimidade e foi a principal interlocutora da banda, diminuindo a distância palco e plateia. Sem falar nos gritinhos do público ao arremessar, num momento meio strip tease, seus saltos para fora do palco durante a perfomance de “Human Fly”. Cada cantora tinha seu charme e soube usar muito bem para conquistar os mineiros.

O setlist prosseguia com a delicadeza das duas. Embora a casa estivesse cheia de gente claramente curtindo a banda, o formato “sentadinho batendo palma” às vezes era menos do que a música pedia e surgia no ar um certo desconforto, especialmente em “Too Drunk To Fuck” dos Dead Kennedys, em que as duas vocalistas interagiam entre si, divertindo-se como adolescentes. Faltou molecagem por parte do público. Em “Just Can’t Get Enough” do Depeche Mode, Helena tenta sambar e ganha aplausos (pelo menos ela tentou), mas quem demonstra habilidade é Karina Zeviani, que, apesar do salto alto, tira de letra no rebolado.


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A apatia dos espectadores, no entanto, foi diminuindo ao longo do show. Acenando para o fim, em “Love Will Tear Us Apart” do Joy Division, um casal surpreendeu Helena Nogueira dançando coladinho entre duas das fileiras da platéia I. Logo, todos estavam de pé cantando a música. Em uma tentativa de prolongar o momento ou mesmo de se despedir da banda, ainda nesta canção o sistema de castas foi ignorado e os que estavam mais distantes se aproximaram do palco acompanhando os últimos versos e já se preparando para o iminente bis.


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No retorno dos integrantes, uma surpresa: Valente Bertelli solta a boa voz numa interpretação dramática (no bom sentido) de “So Lonely”, do The Police. Em seguida, o baixista pede ajuda a todos os presentes para cantar parabéns em português para seu pai, que completava 80 anos naquela noite, enquanto Karina filmava o momento. Sem querer dar um fim à noite, a banda volta em um segundo bis com duas canções que funcionam como um resumo da apresentação. A intimidade de Karina no meio da plateia em uma interpretação flamenca de “Not Knowing” e a doçura de Helena Nogueira em “In a Manner of Speaking” sentada na beira do palco acompanhada pelo banquinho e violão de Olivier Libaux. Com a promessa de retorno logo, a banda de Marc Collin encerra o show e sua turnê pelo Brasil deixando uma BH satisfeita e um pouco mais bossa-nova, ainda que gringa.

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