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O jogo de Lost

(ou uma antologia do jogo da vida)

por Renné França

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Uma ilha perdida no espaço e no tempo. Um médico, um trapaceiro, um imortal. Uma fumaça escura. Uma luz elementar. Lost é igual a tudo que você já viu, mas é também diferente. As cartas podem ser todas conhecidas, mas o jogo é inteiramente novo, aberto, dinâmico. A partida chegou ao fim. E é muito ruim ter que parar de jogar...



Um marco na televisão, um fenômeno na internet. A rápida disseminação na série por downloads ilegais e todas as listas de discussão geradas pelos seus mistérios são ainda um fenômeno a ser melhor investigado. De repente, o mundo todo podia ver os episódios de uma serie quase ao mesmo tempo, com medo de algum spoiler estragar o dia seguinte.

E é isso. Seis anos depois, Lost chega ao fim. É meio inacreditável. O final parecia algo distante, quase intangível. E agora que chegou, provavelmente vai causar muitas decepções. Não importa como acabe, o jogo não tinha como ter ganhadores. É impossível que o final seja aquele que você imaginou para si próprio.

A criação de J.J. Abrams se tornou um fenômeno por diferentes motivos, mas alguns deles podem ser percebidos na própria estrutura da série. “Lost” é um amontoado de clichês. Uma ou outra situação arquetípica pode funcionar bem em uma história. Mas “Lost” não se satisfaz com isso: usa todas. E aí você tem um jogo.

O tabuleiro

por

Fotos: Divulgação


“No caso do ser humano, a razão é a vaidade, a idéia de que se é melhor do que os outros quando se pode ostentar grandes propriedades e todo o tipo de luxo supérfluo. Esse tipo de coisa, porém, não acontece na ilha de Utopia”. Thomas Morus, Utopia.

Os roteiristas Damon Lindelof e Carlton Cuse buscaram as mais variadas inspirações para construir uma estrutura arquetípica clássica, a começar pelo cenário da história. Uma ilha desconhecida, exótica, é um cenário comum a grandes aventuras. Significante máximo de local de passagem, a ilha representa ao mesmo tempo uma prisão (é impossível sair dali) como a liberdade (pode-se, em contato com a natureza, fugir às amarras do sistema e da sociedade e redescobrir seu próprio eu). A ilha perdida é o tema de contos antigos que buscavam investigar a verdadeira natureza humana. O homem impuro que naufraga (a água como clássico elemento de purificação) e se transforma dentro de um ambiente hostil, compreendendo as forças da natureza, transformando-se em algo próximo do divino.

As peças

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Fotos: Divulgação


“Vi-o numa ilha a verter lágrimas copiosas, no palácio da ninfa que à força lá o retinha. E assim ele não pode regressar à sua terra pátria”. Homero, Odisséia.

“Lost” é recheado de heróis impuros. Seu passado contado em flashbacks era um modo incomparavelmente eficaz de demonstrar a transformação pela qual os personagens passavam. Com um elenco internacional, a série fazia também referência a dois mitos antagônicos: a “legião estrangeira” que, pela união de diversos povos e culturas, conseguirá solucionar os problemas do mundo; e a “torre de babel”, onde as diferenças culturais provocam o caos. Eles se auto-destruirão ou chegarão a um consenso?

No meio de tudo isso, um messiânico homem de fé, John Locke, o racional Jack Sheppard, o anti-herói Sawyer e o ingênuo Hurley. Jack se torna “líder” pela forma clássica de esclarecimento de mitos de povos pré-históricos: o herói relutante que vê algo estranho, normalmente um animal perdido (no caso de Jack, o fantasma do pai) e o segue até uma floresta. Lá, encontra algo especial (água para os náufragos). E se Sawyer é movido por outro elemento constante nesse tipo de narrativa - a vingança - , Hurley chega a ser quase infantil, a criança pura que guia os homens para além de seus desejos. A figura feminina de destaque central é Kate, a Madalena arrependida, estrutura chave para a formação do triângulo amoroso (que vai se transformar ao longo dos anos, seja com a entrada em cena de Juliet ou nos flashbacks de personagens como Sayid e Sun).

As regras

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Fotos: Divulgação


“Certa manhã fiquei surpreso de ver o clarão de um fogo onde notara anteriormente sinais da presença de selvagens. Só que dessa vez não se tratava do lado oposto da ilha, mas da mesma parte em que eu vivia.” Daniel Defoe, Robinson Crusoé.

Tudo foi muito bem arquitetado para que a ação surgisse como parte de uma prova para a “terra prometida”, o lar, a vida fora da ilha. Para alcançar essa “terra prometida” ou o “paraíso”, o teste mais comum é o sacrifício: abrir mão do desejo, seja ele por alguém, por dinheiro ou pela própria vida. E “Lost” é toda definida em cima de sacrifícios, os mais variados possíveis. Morrer, na série, é tão importante quanto viver. As mortes trazem revelações, impulsionam a aventura para frente.

Na sociologia, o Outro é o diferente, aquele pelo qual no encontro eu defino a mim mesmo (eu não-sou aquele outro) e encontro minha identidade. Na jornada de autoconhecimento de seus heróis, a série toma emprestado o termo e define como “Os Outros” aqueles desconhecidos que, pelo enfrentamento, vão auxiliar na jornada individual de cada um. E a cada nova temporada, o Outro muda de rosto e motivação, mas sempre provocando um embate de sentidos antagônicos: eu x eles, natureza x tecnologia, razão x fé, humano x divino.

A força da figura do pai em toda a série só reforça essa estrutura: o pai como o Outro máximo. Reflexo do que você pode vir a ser, o Outro a ser alcançado e superado. Jack, Locke, Ben e muitos outros são em termos definidos por essa figura máxima vilanesca, reunida no personagem de Charles Widmore: o poder absoluto, a representação do sistema em oposição ao natural, o espiritual.

O objetivo

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Fotos: Divulgação


“Ordenou o Senhor Deus ao homem, dizendo: De toda árvore do jardim podes comer livremente; mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dessa não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás”. Gênese.

No paraíso perdido que é a ilha, uma luz precisa ser protegida e a ela o homem não deve ter acesso. Apenas mais um mito para a dinâmica da história. No esquemático “triunfo da pureza”, a série precisa oferecer uma chance de redenção a cada um de seus personagens, seja no passado, no presente, no futuro, ou em uma realidade alternativa. A constante mudança estrutural da narrativa serve para tornar o jogo sempre uma novidade, com novas peças para mexer. “Lost” não é uma narrativa única. São todas elas. É uma antologia.

O jogo

por

Fotos: Divulgação

“O jogo é um corpo a corpo com o destino”. Anatole France

Ao analisar o que torna uma obra “cult”, Umberto Eco explica que é sua estrutura desconexa que transforma uma aventura em culto. Uma narrativa formada por diferentes narrativas (como a Bíblia, por exemplo) permite que cada leitor (ou espectador) tome para si próprio a sua narrativa, com interpretações próprias, e a ligue ao restante da história seguindo suas crenças. É isso que permite o culto a filmes como “Star Wars” e “Matrix”. São obras ambiciosas e abertas que permitem que suas partes sejam desconexas do todo e remontadas por cada um.

É o mesmo caso de “Lost”. Durante seis anos, a série ofereceu as mais variadas peças para montarmos nosso próprio quebra-cabeça. À medida que uma ou outra não se encaixava, descartávamos e seguíamos com as novas que eram oferecidas. A diversão estava aí. Agora, no final, o jogo não tem outra saída a não ser perder a graça. O problema de uma obra com este tipo de estrutura é que o final nunca alcançará a emoção de sua antecipação. A série começou com fãs, mas muitos deles passaram depois a assisti-la só para falar mal (vide o editor de cinema do Pílula). Em algum lugar, a série os decepcionou. O jogo era melhor do que as próprias peças.

Quem é o vencedor?

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Fotos: Divulgação


“Os vencedores perdem sempre todas as qualidades de desalento com o presente que os levaram à luta que lhes deu a vitória. Ficam satisfeitos, e satisfeito só pode estar aquele que se conforma, que não tem a mentalidade do vencedor. Vence só quem nunca consegue”. Fernando Pessoa, Livro do Desassossego.

Muita gente vai odiar o episódio final de “Lost”. Vão dizer que trocaram as respostas pela pieguice. Era preciso tanto flashback? Sim, era. O final foi uma homenagem a toda a série. Era preciso tantos reencontros emocionantes? Claro, era o último encontro dos fãs com aqueles personagens: a emoção estava presente não só na tela, mas na plateia também.

E todas as perguntas sem respostas?

Bom... onde muitos se consideram enganados, eu vejo o arquétipo maior. A única história capaz de agregar o balaio de referências e contos que é a “antologia” Lost. O tema do episódio final foi nada mais nada menos do que a questão fundamental da existência. A pergunta que todas as lendas citadas aqui tentam responder: qual o sentido da vida? A série olha novamente para o Outro: a amizade, o amor, a união.

Sem dar todas as respostas, “Lost” vai continuar... mesmo após o final. Novas teorias surgirão. Muita gente ainda vai tentar resolver os mistérios da ilha durante vários anos. Quem precisa de resposta para tudo? É sempre bom que alguns mistérios permaneçam. Assim, posso jogar um pouco mais...

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